Em 2022 deve prevalecer o político que cuida de gente e não o obreirista e o salvador da pátria

Obras faraônicas, com seus aditivos gigantes, servem, por vezes, para enriquecer empreiteiros e políticos. O gestor que cuida de gente beneficia toda a sociedade

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O político obreirista

Por um longo tempo, prevaleceu no Brasil o político obreirista e o político salvador da pátria. Os dois tipos — arquetípicos — às vezes se fundem num único político. Porém também podem ser percebidos em campos opostos.

O político obreirista, como o nome indica, é aquele que faz muitas obras, ou pelo menos anuncia que faz. Não raro é um inaugurador de placas e, aqui e ali, inaugura a mesma obra, nem sempre concluída, mais de uma vez. Veja-se o Centro Cultural Oscar Niemeyer — por sinal, de inegável valor. Foi inaugurado antes de ser concluído e, em seguida, foi fechado e passou por algumas reformas. Há um mistério sobre o edifício construído para ser uma biblioteca. Comenta-se, entre engenheiros e arquitetos, que os cálculos não foram precisos na questão de sustentar o peso do material a ser consultado e das pessoas, além do mobiliário. Por isso, durante um certo tempo, não teve nenhuma função, exceto o “escultural”. Um hospital em Santo Antônio do Descoberto ficou, durante anos, sendo “edificado”. Há quem, no Entorno de Brasília, chame o “hospital” de o “dom Sebastião do Cerrado” ou então de “a obra fantasmal de Marconi Perillo”.

O candidato que colocar as obras em primeiro lugar — e não as pessoas — poderá acabar em último lugar no pleito deste ano.

O político obreirista é mestre na edificação de obras caríssimas, que, durante a feitura, vão ganhando aditivos, que as tornam ainda mais caras. Não se pode sustentar que todos os aditivos tenham a ver com corrupção. Mas aditivos excessivos, como ocorreram em obras em Goiás, em tempos idos — e não no governo atual —, são uma forma de o empreiteiro garantir sua margem de lucro e, ao mesmo tempo, repassar os 10% — e até (muito) mais — a determinados políticos-gestores. Os empresários não são lesados, pois não retiram o dinheiro da corrupção de seus ganhos. Na verdade, os aditivos são uma forma de arrancar mais dinheiro do Erário para garantir o butim de determinados governantes (e não apenas em Goiás). Quem perde, a rigor, é a sociedade.

Pintura de Igor Morski | Foto: Reprodução

Hoje, os eleitores estão desconfiados das ações dos obreiristas. Porque percebem, claramente, que as grandes construções — de obras que às vezes nem são terminadas — são uma forma, direta ou indireta, de arrancar dinheiro público tanto para empreiteiros quanto para políticos-gestores.

Os economistas deveriam fazer uma pesquisa sobre o custo real das obras feitas em Goiás entre 1999 e 2018. Se o levantamento for feito, incluindo os aditivos, se terá um grande escândalo? Não se sabe. Mas a sociedade merece saber qual o custo real das obras e quanto os governos pagaram para “fazê-las”. Com o agravante de que determinadas obras foram deixadas inconclusas — como o Hospital Regional de Uruaçu, o Centro de Convenções de Anápolis e o aeroporto de cargas de Anápolis. Quanto se desperdiçou em tais obras, sobretudo no Centro de Convenções e no aeroporto de cargas — dois elefantes brancos —, durante vários anos?

Aylton Vechi: procurador-geral de Justiça de Goiás | Foto: Divulgação

O Ministério Público de Goiás, certamente com sua equipe especializada, tem como fazer um levantamento técnico — objetivo e não politizado — e oferecer uma denúncia qualificada, com dados precisos, a respeito do custo das obras feitas e, principalmente, das obras inconclusas. Quanto os governos de Perillo e José Eliton, do PSDB, realmente gastaram em tais obras? Quanto se terá de gastar para, efetivamente, conclui-las? Quais os valores do orçamento inicial? O procurador-geral de Justiça de Goiás, Aylton Vechi, um homem público sereno e independente, deveria encomendar um estudo a respeito disso. O Sindicato dos Engenheiros, o Sindicato dos Contabilistas e o Sindicato dos Economistas provavelmente poderão oferecer suas contribuições ao MP-GO.

Não se trata de “caça aos bruxos”, e sim de se preocupar com o uso — bom ou o mau — do dinheiro público. Porque, no afã de fazer grandes obras, com o fito de se apresentar como realizador, o político obreirista torra dinheiro público — com políticas de investimentos equivocadas ou, eventualmente, corrupção deslavada — que poderia ser utilizado para melhorar a educação, a saúde e a segurança pública. Além de criar políticas sociais de fato inclusivas.

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O político salvador da pátria

Pintura de Igor Morski | Foto: Reprodução

O político que se apresenta como salvador da pátria às vezes tende a acreditar que pode “zerar” a história e resolver todos os problemas da sociedade. Ele se coloca como acima dos cidadãos comuns, como se fosse uma espécie de deus terreno, e costuma enganar os incautos e até os cautos de boa vontade.

O salvador da pátria é uma espécie de paizão, quase mágico, que diz ter soluções para os problemas mais candentes da sociedade. Na prática, é tão-somente um político populista que trabalha para iludir os cidadãos. Com seus discursos, entre delirantes e alucinantes, às vezes convencem os eleitores de que vão, de uma hora para outra, melhorar tudo no país. O presidente Jair Bolsonaro, do PL, faz um governo problemático, com a imagem desgastada interna e externamente. Como se apresentou como salvador da pátria — o político que construiria um novo Brasil em quatro anos — e a Pátria continua sem salvação, com ingentes problemas, como pessoas passando fome e desempregadas e gente morrendo devido à Covid-19 (são 631 mortes), além da retomada da inflação, há um desgaste corrosivo e talvez incontornável de sua imagem.

Pintura de Tommy Ingberg | Foto: Reprodução

Porém, se Bolsonaro vai mal, especialmente por não entender que governa uma nação que é a 12ª mais rica do mundo, costurando diálogos com países que não interessam tanto ao Brasil, como Rússia e Hungria — quando deveria reforçar os laços com a Europa, com os Estados Unidos e a China (maior parceiro comercial do país de César Lattes) —, Lula da Silva, do PT, também se apresenta como salvador da pátria. Se for eleito, corre o risco de, em pouco tempo, ser visto como “enganador”. O ex-presidente promete reduzir o preço dos combustíveis, comportando-se como se fosse o Bolsonaro da esquerda, sem observar a questão do mercado externo. Subsidiar a gasolina e o álcool, por exemplo, se ouvir especialistas em economia, como Henrique Meirelles, o governo federal possivelmente não terá como adotar a medida.

Um presidente, se adotar determinadas medidas, pode contribuir para acelerar a recuperação da economia — o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, decidiu investir 3 trilhões na economia (o objetivo é manter o país na dianteira econômica-tecnológica, para evitar que seja atropelado pela China) —, mas Lula da Silva, nem outro político, não terá condições de, num passo de mágica, melhorar o Brasil rapidamente. Vale sublinhar que a crise atual tem componentes novos, dadas a pandemia e a alta do preço do petróleo no mercado externo, mas decorre, em parte, de equívocos do governo da ex-presidente Dilma Rousseff. Bolsonaro não é o único “culpado” pela crise atual.

Sergio Moro também se equivoca quando sugere que pode criar um país “honestíssimo”, sem corrupção, com base em leis severas. Tais leis tendem a ser aprovadas, e, se aprovadas, tendem a “não pegar”. A lei, se força demais a realidade, vira letra morta, e acaba por ser “devorada” nos tribunais de Justiça. Mais do que um projeto utópico, o do ex-magistrado parece mais distópico. A moralidade exemplar fica bem em discursos, mas é difícil, quiçá impossível, de ser implantada em quatro ou oito anos. Leis são necessárias, para criar um equilíbrio na sociedade, mas só funcionam de fato quando se tornam uma segunda pele dos cidadãos, quer dizer, estes precisam introjetá-las e aceitá-las como imperativas.

Nas ditaduras, usa-se a força; na democracia, até a aplicação das leis — das leis positivas, que criam homens institucionais — cobra que se tenha paciência com os cidadãos. O ex-juiz teria, se eleito, tal “paciência” com a evolução dos indivíduos? Ele parece um homem “afobado”, com um quê de irrealista e, até, de líder messiânico. Mas há claramente uma tentativa de colocá-lo no mesmo barco dos “corruptos” — o que ele, evidentemente, não é. Observe-se que o bolsonarismo e o petismo têm discursos similares a respeito da “falta de decência” de Sergio Moro. Mas o problema do ex-magistrado não se afigura na questão da decência moral — afinal, não há nada que prove que tenha chafurdado no dinheiro público —, e sim na questão disposta no parágrafo anterior. Haveria um micro ditador no macro democrata Sergio Moro? Ainda não dá para saber. Porque, como diz o Nobel de Literatura V. S. Naipaul, no romance “Os Mímicos” (Companhia das Letras, 319 páginas, tradução de Paulo Henriques Britto), na página 46, “apenas o poder revela o político”.

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O político que cuida de gente

Os Retirantes, de Portinari |Foto: Reprodução

Há, por fim, o político que cuida de gente. São poucos, mas eles existem. Alguns deles: Rui Costa, Ronaldo Caiado, Paulo Câmara e Camilo Santana, governadores da Bahia, de Goiás, de Pernambuco e do Ceará.

Os quatro governadores são realmente preocupados com gente, e não são populistas. Três deles, por sinal, são de esquerda, porém de uma esquerda moderada e realista. Ronaldo Caiado é de direita, porém de uma direita liberal, moderna e atenta aos clamores da sociedade na qual vive.

O que significa ser preocupado com gente? Sem descurar da necessidade de obras — mas optando pelas essenciais, e não por aquelas que só aumentam o endividamento dos Estados (há gestores que fazem dívidas gigantes porque sabem que não terão de pagá-las no seu período de governo) —, tais governantes colocam o Estado a serviço da sociedade, de todos, e não apenas dos grupos privilegiados.

Observe-se que, nos Estados citados, a educação, a saúde e a segurança pública vão bem. Cuidar bem dos três setores significa investir no social. A educação pública em Goiás é considerada, segundo o Ideb, a melhor do país. Quer dizer, os pobres e parte das classes médias estudam em boas escolas — inteiramente gratuitas —, e com os alunos recebendo material escolar (inclusive chromebooks) e uniforme completo. Há, entre os estudantes, uma sensação de pertencimento, de que estão sendo cuidados pelo Estado — uma mão que acolhe e zela. Houve também avanços na saúde (e não apenas no combate à pandemia). A segurança pública passou e passa por uma grande evolução, na gestão de Ronaldo Caiado. As polícias Civil e Militar estão mais presentes e atuantes. Quando sem controle, a violência atinge toda a sociedade, porém os mais desprotegidos são os pobres. Por isso, uma polícia mais rigorosa beneficia todos, incluindo os menos afortunados que não moram em condomínios protegidos por muros altos e eletrificados ou apartamentos.

Recomenta-se ao leitor que observe, com atenção, a popularidade dos governantes citados neste Editorial. São bem avaliados. Porque se preocupam com gente, e não porque constroem obras faraônicas, com seus aditivos às vezes gigantes. Os quatro gestores citados também se preocupam com o social, o que é crucial num país com tantas desigualdades. O candidato que colocar as obras em primeiro lugar — e não as pessoas — poderá acabar em último lugar no pleito deste ano.

Uma resposta para “Em 2022 deve prevalecer o político que cuida de gente e não o obreirista e o salvador da pátria”

  1. Avatar peter teodor popov disse:

    BOLSONARO 2022!!!!!!!!!!!!!!!!

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