Eliton e Daniel devem subir amparados por seus partidos. Caiado, se cair, não tem onde se segurar

O candidato do DEM é um império de um homem só. De seus aliados não há nenhum com a substância do senador

Ronaldo Caiado, José Eliton, Daniel Vilela e Kátia Maria: os três últimos estão irmanados para garantir o segundo turno e contam com uma possível queda do primeiro | Fotos: Divulgação

Os repórteres do Jornal Opção postulam a tese de que a razão é a bola de cristal do jornalista. Se é assim, ao apresentar análises, para ser justo com a verdade factual, o profissional deve sugerir que se trata de interpretações. Se o futuro nem a Deus pertence, os comentários a seu respeito devem ser vistos como especulações. Pois que o leitor fique, desde já, avisado de que, a seguir, se procederá a um exercício especulativo, uma sondagem às possibilidades, a partir de dados da realidade.

Na política, a certeza, ao ser postulada com excessiva antecipação, costuma ser corroída pelos fatos. Por isso, ao contrário do que creem alguns, o que se propõe é que o quadro das eleições de 2018 para governador permanece aberto. Há um favorito, o senador Ronaldo Caiado, do DEM. Como tal deve ser apresentado — sem tergiversação. Mas, como os demais candidatos — a professora Kátia Maria, do PT, o governador José Eliton, do PSDB, e o deputado federal Daniel Vilela, do MDB — são relativamente desconhecidos, e o nome do Democratas é sobejamente conhecido, é possível sugerir que os eleitores não estão avaliando os candidatos, e sim um deles.

A partir de determinado momento — com os programas de televisão e rádio, a massificação dos nomes, imagens e projetos nas redes sociais, os contatos corpo a corpo nas cidades —, quando os candidatos se tornarem conhecidos, possibilitando que os eleitores distingam suas diferenças políticas e assimilem suas visões em termos de governança, aí se poderá ter um quadro menos impreciso.

Queda anunciada

Digamos que Ronaldo Caiado tenha 38% das intenções de voto. Não é um número baixo. Mas 62% estão em disputa. Na verdade, as contas, devido à falta de campanha mais acirrada, não são precisas. Porque há duas tendências. Primeiro, por causa das estruturas partidárias, é possível que José Eliton e Daniel Vilela cresçam nas pesquisas de intenção de voto — com números superiores a 15% e, mais adiante, superem os 20%. Segundo, na medida em que o tucano e o emedebista comecem a melhorar seus índices, há a tendência de que o presidente do partido Democratas comece a cair. Não será, por certo, uma queda gigante, ao menos no início.

Mas o crescimento de José Eliton e Daniel Vilela se dará, se acontecer, com a captura dos votos dos indecisos e, ao mesmo tempo, com a absorção de parte dos votos que hoje estão sendo destinados a Ronaldo Caiado. Se isto acontecer, a tendência é que o postulante caia de 5% a 10%. Pode, portanto, descer de 38% para 33% ou 28%.

Uma queda, que seja de 5% ou 10%, indica mudança na expectativa de poder — o que pode ir minando a força de Ronaldo Caiado aos poucos, desidratando-o de maneira inapelável. A ascensão de José Eliton e Daniel Vilela, que se daria a partir da queda ou estagnação do democrata, produziria duas expectativas.

Primeiro, que é possível derrotar Ronaldo Caiado — o Golias da hora. Segundo, que há alternativas políticas.

Como se sabe, em processos eleitorais, quem sai muito na frente tem dificuldade para manter a liderança. Qualquer movimento para baixo pode se tornar uma tragédia, mesmo no curto prazo — e os prazos agora são curtíssimos —, e levar a uma derrota eleitoral. José Eliton e Daniel Vilela vão crescer, a se aceitar a hipótese de que as estruturas partidárias — e o apoio de líderes políticos consistentes —, quando mobilizadas, devem fazer a diferença. Se crescerem, desestabilizam a candidatura de Ronaldo Caiado.

Ao cair, como decorrência da ascensão de José Eliton e Daniel Vi­le­la, o que poderá fazer Ronaldo Caiado? De imediato, terá de reforçar sua estrutura partidária e convocar seus aliados para ajudar a sustar a queda. O drummond no meio do caminho é que tal estrutura não existe: o candidato do DEM é um império de um homem só. Dos aliados não há nenhum com a substância do senador.
Não se trata de depreciar o senador Wilder Morais (DEM), candidato à reeleição, o deputado estadual Lincoln Tejota (Pros), o vice, e o vereador Jorge Kajuru, postulante a senador. Mas de admitir que, se Ronaldo Caiado precisar, não terão como bancá-lo.

Ao trocar o PP pelo DEM, Wilder Morais perdeu aquilo que é crucial em política: bases partidárias. Não levou prefeitos e deputados. Aderiu sozinho — o que indica falta de liderança. Filiado ao DEM, o senador sequer contribui com tempo de televisão para Ronaldo Caiado. Seu triunfo não é político, porque não tem aliados, e sim financeiro, porque é um potentado da construção civil e dos shoppings.

Lincoln Tejota é um político promissor, mas, a rigor, não contribuiu para fortalecer a campanha de Ronaldo Caiado — tanto que não agregou prefeitos. Na campanha, ao menos até o momento, tem sido, ao lado de Wilder Morais, um peso morto para o principal dirigente do DEM em Goiás. Longe de ajudarem a “carregar”, os dois estão sendo um peso para o senador democrata. Estão sendo “carregados”.

Ao contrário de Lincoln Tejota e Wilder Morais, Kajuru é popular. Entretanto, outsiders, como o vereador, são bancados por eleitores também outsiders. Porque há uma identificação — inclusive no radicalismo e na ideia de que se pode resolver determinados problemas, inclusive os estruturais, com uma canetada. Os eleitores outsiders, que bancam postulantes outsiders, raramente podem ser “transferidos” para outros candidatos.

Daí que Kajuru deve obter uma votação qualitativa, mesmo se ocorrer uma ligeira desidratação durante a campanha — entusiasmos com radicais às vezes são provisórios —, mas dificilmente convencerá os eleitores a acompanhá-lo no apoio a Ronaldo Caiado. Para ser justo, a transferência ocorrerá, mas em menor proporção que o democrata provavelmente espera e vai precisar.

O resultado é que, se começar a cair, Ronaldo Caiado não terá como ser amparado por uma estrutura partidária — não tem prefeitos significativos — e por líderes eleitoralmente consistentes. No momento, embora apareça entre alguns políticos, como Wilder Morais, Lincoln Tejota e Kajuru, o senador está sozinho, inteiramente só. Como está liderando, o problema, que pode se tornar grave e aterrador, não aparece. Se cair nas pesquisas de intenção de voto, não terá amparo. Se sua luz apagar não deve esperar energia de políticos que não têm lastro municipal e regional. Ronaldo Caiado “acende” a luz de Wilder Morais, Lincoln Tejota e Kajuru, mas as luzes dos três não conseguirão, por certo, “acender” a luz do senador.

Político atento e perspicaz, Ronaldo Caiado sabe, mais do que alguns de seus aliados mais fanatizados — como o prefeito de Catalão, Adib Elias, do MDB caiadista —, que, dada a força da estrutura, é possível que, a partir de certo momento, José Eliton começará a subir, para patamares acima de 20%, e Daniel Vilela também não ficará muito atrás. Trata-se do recado da realidade.

Conexão de meios

No momento, tanto José Eli­ton quanto Daniel Vilela estão se reunindo com setores organizados da sociedade e, ao mesmo tempo, se apresentando aos eleitores. O objetivo é se tornarem conhecidos — fisicamente mesmo — e chamarem atenção para suas ideias. Há um terceiro ponto: ambos estão trabalhando para mobilizar suas bases e militâncias eleitorais.

Há quem diga que carreatas e comícios não funcionam mais. Ledo engano. Funcionam. O equívoco é tentar extrair apoio dos eleitores a partir de um único meio — como as redes sociais ou a televisão. As campanhas se tornam fortes se vários meios forem conectados de maneira hábil — possibilitando a sedimentação e possível aceitação da mensagem política e pessoal.

No caso específico de José Eliton, pode-se dizer que as carreatas contribuem para passar a mensagem de que se está presente — o que está contribuindo para mobilizar bases e militâncias. O cabo eleitoral, por assim dizer, ganhou fôlego, amparo. Os eleitores — o povo — vêm, se vierem, depois. O marconismo — que, sim, existe e é forte; trata-se quase de um movimento — está vivo e de volta. O marconismo é uma espécie de “evangelismo” do tucanato e o propósito das carreatas, insista-se, não é, num primeiro momento, mobilizar o eleitorado, e sim as estruturas de apoio.

Mudança e esperança

Amparados em pesquisas, experts estão anunciando a morte dos programas políticos na televisão. Os profetas do apocalipse midiático talvez estejam confundindo vontade com realidade. Para muitos eleitores, milhares deles, os programas na televisão e no rádio — além dos debates, que geram confiança ou desconfiança do público nos candidatos — ainda são vitais para a definição do voto.

As pessoas que moram nos grandes centros urbanos tendem a avaliar, dada a globalização, que o mundo é “igual” em todos os lugares. Não é. Num Estado que tem dimensão de país — Goiás é maior do que Cuba, Portugal e Israel juntos —, com regiões muito distantes umas das outras, com escassas conexões entre elas, o horário gratuito tende ser vital para apresentar os políticos e suas propostas. O que os marqueteiros devem fazer é sincronizar os vários meios de se apresentar os candidatos e suas ideias e conectar os eleitores. Os meios devem ser integrados e cada um deve potencializar o outro. Isoladamente, perdem força. Bem atados podem se tornar instrumentos poderosos.

O segundo turno está garantido? Tudo indica que sim. Porque, como se disse acima, José Eliton e Daniel Vilela — e mesmo Kátia Maria — devem melhorar seus índices nas pesquisas de intenção de voto. Trata-se de um indicativo, não de uma certeza. Frise-se que, no segundo turno, o jogo é zerado e quem mais tem a perder é exatamente Ronaldo Caiado — pela possível falta de apoio partidário e de novos aliados.

Quanto a Ronaldo Caiado e Daniel Vilela, há outro aspecto a destacar. No momento, o discurso de candidato “da oposição” está nas mãos do senador. O deputado federal, para crescer, tem de tomar este discurso. Como? Não será fácil — dados o radicalismo do democrata e a moderação do emedebista.

Em tempos radicalizados, como os atuais, os conciliadores, como Daniel Vilela, “sofrem”, pois são menos ouvidos e, até, vistos do que os políticos que se apresentam como “brabos” — casos de Ronaldo Caiado e Jair Bolsonaro. Se não quiser ser assimilado como “terceira via” — que, em Goiás, acaba sendo a última via —, o emedebista terá de inverter os papéis. Não basta sugerir que o líder do DEM pertenceu ao Tempo Novo, e até indicou José Eliton para vice de Marconi Perillo. Precisa encarnar, até por ser jovem, que é o símbolo da mudança.

José Eliton, o candidato governista, não tem como abdicar do legado — de assumir que pertence à estrutura política gestada por Marconi Perillo. Mas tem de se apresentar como o nome da esperança em dias melhores, não se circunscrevendo ao passado, ao que foi feito. Os eleitores querem saber o que o próximo governante fará para melhorar sua qualidade de vida. A ideia de modernização continuada, se bem trabalhada, pode dar resultados positivos.

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