Eleitores esquecidos pela esquerda e pelo centro consolidaram Bolsonaro

Os ditos progressistas não perceberam que um amplo eleitorado orgânico e não troglodita estava sem representação. O candidato do PSL captou a mensagem

Jair Bolsonaro, candidato do PSL a presidente da República, encampou a voz dos brasileiros que, apresentados como retardatários, foram olvidados tanto pela esquerda quanto pelo centro político | Foto: Reprodução

O mundo, e não apenas o Brasil, está mudando de maneira acelerada. Em decorrência, quando se pensa que está se estabilizando um comportamento, o indivíduo surge de outra forma — como se fosse um eterno mutante. Por isso, as tentativas de compreendê-lo — via pesquisas e interpretações sociológicas — nem sempre são bem-sucedidas.

Nas eleições de 2018, uma das mais complexas dos últimos anos — devido a um personagem “novo” (renascido, quem sabe), o eleitor, que, parecendo indiferente, está cada vez mais atento e decidido, não importando sua classe social —, marqueteiros, cientistas políticos, jornalistas e pesquisadores fizeram o possível para compreender o que está acontecendo com a cabeça dos indivíduos. Não erraram em tudo. Entretanto, questionários não flexíveis acabaram por não registrar, ao menos não de maneira ampla, como está funcionando a cabeça dos eleitores.

Pelas pesquisas, que são feitas rapidamente, o número de eleitores indecisos é alto. O registro cru, anotado pelo pesquisador quase de maneira mecânica nas ruas, não está de todo errado. Porém, ao perceber o que parece indecisão, a pesquisa quantitativa não capta uma verdade que é, por assim dizer, subterrânea. Os eleitores estão mais decididos do que imagina a nossa vã filosofia. Não querem votar nos políticos, sobretudo os tradicionais, mas não só. Talvez devido à crise econômica, que derrubou empregos — ressalte-se que, independentemente de crise, a quarta revolução industrial também é uma devoradora de postos de trabalho convencionais —, a rejeição aos políticos é generalizada. Como não se entende direito o que está acontecendo no país, assolado por mudanças decorrentes de fatores internos e externos — se a China compra menos matérias-primas e produtos manufaturados no mercado patropi, restam menos dinheiro nos caixas das empresas e do governo brasileiros —, fica-se com a impressão de que o eleitor escolheu um Judas para malhar: o político. Este seria responsável por tudo de ruim que se vive no Brasil. Pode não ser uma verdade abrangente, mas é a verdade imposta a partir das ruas pelo eleitor.

Durante anos, os portugueses esperaram d. Sebastião, um rei que desapareceu numa batalha. Ao final, tiveram de tocar suas vidas. Porque os “salvadores” nunca chegam. As figuras mágicas, que transformam a vida com um toque — ou um decreto —, são nefastas para a democracia. Porque, ao propor a salvação — que, a rigor, é uma ficção —, contribuem para retirar a autonomia dos indivíduos. Os brasileiros atuais esperam também o seu d. Sebastião? É provável que estejam em busca de redenção, mas não em busca de um miraculoso salvador da pátria.

Afinal, os eleitores brasileiros não querem ser tutelados por líderes que, a rigor, não consideram como seus líderes? (Jair Bolsonaro, ressalte-se, é chamado de “capitão” por vários de seus seguidores. Sugere liderança, mas também o fato de que é capitão do Exército.)

Como explicar, então, que racionalistas, como Geraldo Alckmin (PSDB), Henrique Meirelles (MDB), Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede) e João Amoêdo (Novo), estejam sendo esquecidos pelo eleitor? O mais provável é que, dada a radicalização política do país, os cinco políticos nem estejam sendo observados com certa atenção. Exceto Ciro Gomes — que parece ter mais apoiadores, nas redes sociais, do que eleitores —, que apresenta um discurso ligeiramente radicalizado, os demais foram solenemente ignorados. Por que o político do Ceará, um bandeirante de Pindamonhangaba, estagnou? Porque, se há um candidato da direita polarizando, Jair Bolsonaro (PSL), não há espaço para dois candidatos de esquerda. Um deles, no caso Ciro Gomes, soçobrou. Em tempos idos, Lula da Silva, do PT, “enterrou”, politicamente, Leonel Brizola, do PDT. Agora, Fernando Haddad, do PT, está “enterrando” Ciro Gomes, também do PDT. A sina do PDT é ser enterrado pelo PT e, depois, se tornar uma espécie de rêmora dos governos petistas, com seus Lobos, quer dizer, “Lupis”. A história se repete e, como se vê, não apenas como farsa. A “tragédia” às vezes bate à porta até com mais energia.

Haddad para além da “teoria do poste”

Fernando Haddad, candidato do PT a presidente da República, tem preocupação genuína com o social e atrai parte da classe média com tese de “mais consumo” | Foto: reprodução

A “teoria do poste” explica Fernando Haddad? O candidato do PT a presidente é um “poste” de Lula da Silva. A constatação é o que o escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues chamaria de “óbvio ululante”. O ex-presidente é o d. Sebastião do petismo, com a diferença de que está vivo e, de algum modo, “encanta” — quiçá mesmeriza — parte dos brasileiros. Por quê?

Críticos radicais do petismo tendem a perceber os programas sociais dos governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff — o Bolsa Família é a face mais visível —, dado o caráter assistencialista, como produtos de uma política que percebe os pobres como integrantes de supostos currais eleitorais. Ao identificar a ação social ao indivíduo, no caso Lula da Silva, de fato reduziu-se o papel do Estado com o objetivo de fortalecer a imagem do político — que, como Getúlio Vargas, se tornou uma espécie de “pai dos pobres”. A ressalva é que os críticos do lulopetismo costumam não perceber que a preocupação social do PT é genuína, ou seja, planeja-se mesmo integrar os pobres ao mercado e à sociedade (os de “baixo” parecem pensar, a respeito de Lula da Silva: “Alguém lá de cima”, do poder, “pensa em mim”). O assistencialismo do Bolsa Família camufla outras ações sociais integradoras — como a facilitação da entrada dos pobres na universidade pública. A rede de proteção posta em marcha pelo PT vai além do assistencialismo.

Pode-se sugerir que é mais fácil ir à Lua do que ser empresário no Brasil. No poder, o PT assustou menos o empresariado do que se imaginava inicialmente. Teme-se a volta do partido ao poder dada a crise econômica, decorrente em parte dos equívocos do governo petista, notadamente os de Dilma Rousseff. Mas há mesmo um temor forte de que o PT vai mexer nas regras do jogo e transformar o Brasil numa Venezuela gigante? O temor é potencializado pela campanha — que produz um apocalipse orquestrado a partir das redes sociais e que acaba chegando a quase todos, direta ou indiretamente. Para venezuelizar o país da notável prosadora Clarice Lispector e da excelente poeta Darcy Denófrio, o PT precisaria do apoio do Exército, o que certamente não teria. Ademais, a sociedade brasileira é francamente democrática e as instituições são sólidas. O golpismo seria barrado.

Os empresários estão realmente assustados com a possibilidade de o PT voltar ao poder? Tudo indica que sim, em decorrência da crise econômica, que é vista como made in petismo. Mas os 22% de Fernando Haddad não são votos só dos pobres — e de parte da classe média, que por certo deseja com ardor o retorno de “mais consumo”. Parte dos empresários talvez se recorde que, nos governos petistas, os cofres públicos foram generosos com seus rogos.

Pintura de Igor Morski

Bolsonaro é o porta-voz dos esquecidos

Jair Bolsonaro não é um político da estirpe política de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Não é um estadista. Mas por que aparece com 35% das intenções de voto, muito acima do segundo colocado, Fernando Haddad?

No início da campanha, com as pesquisas incipientes, chegou-se a pensar que Jair Bolsonaro era o candidato meramente do “lumpenzinato” (que parece seguir Fernando Haddad, o “filho” de Lula da Silva) e de uma parte “revoltada” da classe média. Mas 35% — quase 40% dos votos válidos (e, nas urnas, a votação tende a ser maior) — significam um apoio muito mais amplo e consolidado. Quer dizer, o candidato do PSL está enraizado na sociedade brasileira — não apenas em nichos radicalizados.

O brasileiro parece ter escolhido Jair Bolsonaro para protestar contra tudo. Contra os políticos tradicionais, sobretudo. É também a resposta ao discurso de esquerda do PT. Talvez seja possível sugerir que o líder do PSL é tanto sujeito quanto objeto. Ele soube encampar, de maneira formidável, aquele ideário que, exposto como conservador, é esquecido pelos políticos, que, no geral, querem se apresentar como “moderninhos” — até para agradar a mídia, que é, dizem, “progressista”. A parte “olvidada” da sociedade — mais ampla do que percebem pesquisas e marqueteiros — está dando um recado, por meio de Jair Bolsonaro, que existe, quer participar e nortear a sociedade brasileira.

A liberdade do indivíduo — como a liberdade de expressão (Fernando Haddad voltou a falar em regulação da mídia) — é fundamental à existência, consolidação e prosseguimento da sociedade democrática. Mas a liberdade de um indivíduo, até para que a democracia seja de fato abrangente, não deve excluir a liberdade de outro indivíduo. Se um avalia que o aborto deve ser liberado e não deve ser considerado crime, tudo bem. Mas por que aquele que não concorda com a liberação do aborto e deseja sua criminalização não pode se manifestar e lutar por sua ideia? O mesmo ocorre com a descriminalização das drogas. Há os que apoiam e os que são contrários. Mas, notadamente na mídia, os contrários são apresentados como “trogloditas” e os que são favoráveis como “modernos”. A família, por vezes tratada como mera célula mater do consumismo capitalista, mereceu, e ainda merece, críticas acerbas da esquerda, ao menos de parte da esquerda. Mas há os que defendem a família como fator de harmonia social. E, sim, seus defensores não são apenas evangélicos e católicos radicalizados — à direita.

Pintura de Igor Morski

Os que não seguem a pauta das esquerdas estavam abandonados, porque não se sentiam representados por nenhum dos candidatos tradicionais — tanto na esquerda quanto no centro. As esquerdas, notadamente, não tratam as pautas que lhe são adversas —  como a crítica de cariz religioso à homossexualidade —  com a tolerância necessária. Pois aí apareceu Jair Bolsonaro e encampou tudo aquilo que parecia impensável um político absorver: a pauta apresentada como conservadora e, principalmente, retardatária. O candidato do PSL, em tese, seria “destruído” por se tornar porta-voz do, por assim dizer, “atraso”. Pois o dito “arcaico”, mais orgânico do que se imagina — inclusive com forte presença nas redes sociais —, longe de enfraquecer, fortaleceu-o ainda mais. A ideia de que uma parte da sociedade pode ser abandonada, e obrigada a seguir a pauta supostamente dominante, é responsável, quiçá indiretamente, pela ascensão de Jair Bolsonaro. Ele é “filho” — indireto, insista-se — dos que pensam que as pessoas vão abandonar seus valores e seguir outros rapidamente e sem reagir. O PT não é um partido stalinista — e, no geral, nem é marxista; aproxima-se muito mais da socialdemocracia europeia, sobretudo dos países nórdicos —, mas às vezes comporta-se como se fosse. Daí, no lugar de discutir de maneira democrática as pautas que não são de sua afeição, eventualmente procura destruí-las. A democracia cobra que o adversário seja derrotado e até absorvido, mas não destruído. A destruição do adversário — transformado em inimigo — resulta de um pensamento e ação totalitários (de matiz tanto nazifascista quanto stalinista — quer dizer, de direita e de esquerda).

Em suma, Jair Bolsonaro é fruto das pautas que foram abandonadas pela esquerda e pelo centro ao longo dos anos. Pautas que ganharam “vida” porque, obviamente, há milhões de indivíduos que as defendem e propagam.

Pesquisadores e cientistas deixaram de ressaltar — ao menos de modo preciso e amplo — a ascensão de Jair Bolsonaro tão logo Fernando Haddad foi confirmado como candidato a presidente pelo PT. Por quê? Simples: estavam de olho em Fernando Haddad, porque, no fundo, acreditam em Lula da Silva como uma espécie de d. Sebastião patropi (renascido por meio de um intermediário). Pois, ao contrário do que sugeriram análises “brilhantes” publicadas nos principais jornais do país, a ascensão do petista puxou, ainda mais, o candidato do PSL para cima. Milhares de eleitores de Jair Bolsonaro saíram do “armário” a partir do crescimento do postulante petista. Eles precisaram dizer isto, nos resultados das pesquisas, para que os “pesquisadores” percebessem o que estava acontecendo. A “torcida” (disfarçada) pelo crescimento de Fernando Haddad era tanta que muitos optaram por ignorar a realidade das ruas. Frequentemente o que se ouve numa redação ou se lê em análises de cientistas políticos é muito distante do que ocorre no mundo real.

Pintura de Igor Morski

Vitória da democracia

Nesta edição do Jornal Opção, Marcelo Mariano, um dos nossos editores, analisa o livro “Como as Democracias Morrem” (Zahar, 272 páginas, tradução de Renato Aguiar e prefácio do cientista político brasileiro Jairo Nicolau), dos cientistas políticos americanos Daniel Ziblatt e Steven Levitsky. Um dos mais argutos jornalistas de sua geração, atento às conexões do Brasil com o mundo — ninguém é uma ilha —, Marcelo Mariano ficou impressionado com o estudo dos professores de Harvard.

As democracias nascem, morrem e ressurgem. A vida parece mais cíclica do que linear. A ideia de um mundo progredindo em linha reta, de matiz positivista, tem sido contrariada pela história com frequência, registra o filósofo britânico John Gray, autor do livro “A Alma da Marionete — Um Breve Ensaio Sobre a Liberdade Humana” (Record, 126 páginas, tradução de Clóvis Marques). No caso brasileiro, a democracia está sob ameaça? Talvez sim. Talvez não. A história não está dada, está acontecendo. Portanto, não se sabe o que vai ocorrer a partir de 2019 (o apocalipse da democracia pode ser maior, pode ser menor e pode não acontecer).

Há políticos que acreditam na “eternização” do presente — por isso, a partir de determinado momento, julgando-se infalíveis, não mais ouvem, sugere a historiadora americana Barbara W. Tuchman, no livro “Práticas da História” — e, quando acordam do sonho infantil, foram retirados do poder. As ditaduras não duram para sempre. Já as democracias são ameaçadas, são retiradas de campo, mas sempre voltam — e com mais força. É o recado da história tanto para Jair Bolsonaro quanto para Fernando Haddad. Não custa lembrar que, quando perguntado sobre o motivo pelo qual decidiu “matar” a ditadura, o general-presidente Ernesto Geisel não titubeou: porque era uma “bagunça”. O único caos (provocado pela diversidade e confronto de ideias) aceitável é o da democracia. Fora da democracia, não há salvação.

Diário da província

Um comentário final.  Há alguns anos, o “New York Times” era a principal referência da imprensa brasileira. Daí se dizia: “Deu no ‘New York Times’”. O que saía lá ganhava contornos de verdade incontestável. Agora, o provincianismo voltou-se para a pérfida Albion e assinala: “Deu na ‘Economist’”.

Os editores da revista britânica, de memória curta, não querem se lembrar que a primeira-ministra Margaret Thatcher foi uma das apoiadoras mais entusiásticas do ditador chileno Auguste Pinochet. “Ninguém é perfeito”, diz um personagem do filme “Quanto Mais Quente Melhor”, de Billy Wilder. Nem os jornalistas da terra de William Shakespeare.

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