“Eleitor Invisível” pode decidir pró-Vanderlan ou pró-Iris no último minuto

Não há favas contadas em política e não se ganha eleição por antecipação. Há um eleitorado em Goiânia que decide em cima da hora, mas não pode ser considerado indeciso. Pelo contrário, politizado e independente, pode desafinar o coro dos contentes

Iris Rezende e Vanderlan Cardoso: os eleitores são menos tradicionais do que os políticos e suas práticas políticas, às vezes envelhecidas, e costumam surpreender até aqueles que são mais experimentados | Fotos: Fernando Leite e Renan Acciolly /  Jornal Opção

Iris Rezende e Vanderlan Cardoso: os eleitores são menos tradicionais do que os políticos e suas práticas políticas, às vezes envelhecidas, e costumam surpreender até aqueles que são mais experimentados | Fotos: Fernando Leite e Renan Acciolly / Jornal Opção

Há um truísmo em política: não se ganha eleição por antecipação. A história registra casos de favoritos que perderam eleições, de maneira até acachapante, depois de terem liderado, nas pesquisas de intenção, por longos períodos. Há dois exemplos cabais: o de Iris Rezende em 1998 e o de Maguito Vilela em 2002.

Em 1998, há dezoito anos, Iris Rezende era uma espécie de Deus na política de Goiás. Elegia-se para qualquer cargo e elegia seus epígonos com extrema facilidade. Naquele ano, as pesquisas indicavam que, candidato a governador, era unanimidade. Em tom de blague, as pessoas diziam: “Para que eleição? Manda logo o Iris encomendar o terno, tomar posse e depois disputar a eleição”. Entretanto, havia dois drummonds no meio do caminho — o eleitor e um garoto de 35 anos, Marconi Perillo, do PSDB.

As pesquisas eram cruéis para Marconi Perillo. Enquanto Iris Rezende, o governador “eleito” sem eleição e sem campanha, aparecia com quase 80% das intenções de voto, o jovem tucano inicialmente não chegava a dois dígitos. Começada a campanha, com o deputado Marconi Perillo se apresentando ao eleitor, sugerindo que pretendia introduzir uma modernização no trato da coisa pública e na forma de se fazer política, o drummond principal, o eleitor, passou a observá-lo com atenção. Gostou do que viu e os índices do candidato começaram a melhorar. Num primeiro momento, o deus do Olimpo da política goiana não se assustou. O drummond secundário — Marconi Perillo — seria tão pesado quanto uma pedra. Ledo engano.

Ao propor a modernização de Goiás, limando-o da “panelinha” de Iris Rezende, Marconi Perillo, com sua famosa camisa azul — era seu símbolo-referência —, cresceu nas pesquisas e, apesar dos equívocos do Ibope (conhecido por vezes como ibopIris), o drummond protagonista, o eleitor, sufragou o drummond secundário, o menino tucano, para governador. Há 18 anos, Iris Rezende aprendeu que não se ganha eleição por antecipação e que pesquisas, se são retratos de circunstâncias, por vezes não revelam os contrastes e complexidades do quadro político-eleitoral.

Em 2002, o senador Maguito Vilela, apontado como imbatível, aparece em primeiro lugar nas pesquisas. Seria, em tese, a vingança de 1998. Nesse ano, o peemedebista era governador e extremamente popular. Se Iris Rezende tivesse deixado, teria sido candidato e dificilmente seria derrotado pelo jovem tucano. Pois, quatro anos depois, chegara a sua vez. Porém, tão resistente quanto os fortes descritos por Euclides da Cunha no seminal “Os Sertões” e jamais um desistente, Marconi Perillo iniciou sua campanha mostrando o que havia feito, ressaltando como era diferente do tempo velho, e o eleitor tornou-se mais uma vez um drummond no meio do caminho do PMDB. A tese da modernização continuada superou a ideia da volta ao passado que Maguito Vilela encarnava.

A duras penas, depois de cinco derrotas consecutivas para o governo de Goiás, o PMDB aprendeu que pesquisas não ganham eleições e, sobretudo, aquele que sai na frente, e fica na frente por um bom período, nem sempre se elege. Está a se dizer que Iris Rezende, do PMDB, não será eleito e que Vanderlan Cardoso, do PSB, será prefeito de Goiânia? Não estamos dizendo isto. Primeiro, porque não somos levianos. Segundo, porque nossa bola de cristal é a razão e, portanto, não fazemos previsões.

Não há a menor dúvida de que Iris Rezende é um candidato forte, dada sua ligação histórica com a cidade, e, como se sabe, o novo às vezes tem dificuldades de se firmar ante a capacidade tentacular do velho de absorvê-lo e, em alguns casos, destruí-lo. Mas forte, até sólido, significa imbatível? Talvez não.

Roberto do Orion, do PTB, e João Gomes, do PT: o “Eleitor Invisível” fez das suas em Anápolis, puxando  o favorito para baixo e abrindo espaço para o novo. O partido do segundo colaborou para “derrubá-lo”

Roberto do Orion, do PTB, e João Gomes, do PT: o “Eleitor Invisível” fez das suas em Anápolis, puxando o favorito para baixo e abrindo espaço para o novo. O partido do segundo colaborou para “derrubá-lo”

Especulação

Doravante, se fará uma especulação a partir do que se observa no processo eleitoral deste ano. No primeiro turno, os protestos contra as pesquisas foram gerais. Em alguns casos, quiçá em muitos casos — em todo o Brasil —, é possível que proprietários de institutos de pesquisa tenham manipulado números, forçado a margem de erro, pesquisado mais intensamente bairros em que o candidato “x” tem mais intenção de voto. Porém, apesar de prováveis equívocos pontuais, pode-se sustentar que alguns institutos, como Fortiori, Grupom e Serpes — para mencionar apenas três (há outros) —, são sérios e pesquisam de maneira competente o eleitorado.

Emulando o escritor americano Ralph Ellison, autor do seminal romance “Homem Invisível” (vale ler a tradução de Mauro Gama, publicada pela Editora José Olympio), e citando indiretamente pesquisadores especializados e analistas de pesquisas de intenção de voto, pode-se dizer que há um eleitor que, embora exposto como indeciso, talvez deva ser considerado como uma espécie de “Eleitor Invisível”. Ou melhor, não é indeciso, mas “move” seu voto de maneira como quer, mas só decide em cima da hora. Como se brincasse de Deus, mexe as peças do tabuleiro e, no dia certo, o da eleição, comparece, indicando que nada tem de indeciso, e, por vezes, muda o quadro, contraditando as pesquisas e os especialistas. Não há institutos de pesquisa, mesmo com as metodologias mais modernas do mercado, que consigam entender e capturar a ação deste eleitor. Se a expressão “inconsciente coletivo” não estivesse tão banalizada, a ponto de não dizer mais nada, diríamos que, nas campanhas deste ano, ao menos em algumas cidades, um “inconsciente coletivo eleitoral” esteve em ação, de maneira forte e, ainda assim, sutil.

Mas quem é este leitor forte e sutil, que surpreende políticos, pesquisadores e cientistas políticos, mas não formula teorias, por isso não é percebido, diga-se, a céu aberto? Claro que este eleitor merece ser investigado, com atenção redobrada, para que seja explicado e, deste modo, assimilável por todos. Escapa a este Editorial uma explicação detida do fenômeno, que, neste momento, está sendo mais registrado do que problematizado. Mas tentemos ao menos examiná-lo de maneira sucinta, sugerindo que cientistas políticos vasculhem o processo eleitoral deste ano em busca do que é típico e, ao mesmo tempo, do que é específico.

O eleitor de que estamos falando é, em geral, de classe média, quase sempre tem formação superior. Não se julga representado por ninguém, e talvez nem queira. Percebe os governos e políticos como seus espoliadores, como travas em sua vida e, não raro, negócios. Por vezes escuta-se deste eleitor: “Tenho ‘nojo’ dos políticos”. Sim, Iris Rezende e Vanderlan Cardoso, como quaisquer outros, não entusiasmam este eleitor.

Não entusiasmar não equivale a não observar. O eleitor segue sua vida, curte seus filmes, seu futebol, sua novela, sua série, sua viagem de férias, seu jogo de tênis, sua confraria de vinho, diverte-se com seu WhatApp, troca impressões nas redes sociais, por vezes dá uma olhada nas possíveis delícias do Tinder, mas não deixa de observar o que está acontecendo na política. Dá uma zapeada, por assim dizer, nos assuntos “dos” políticos.

Ao ser pesquisado nas ruas, apesar de os questionários serem tecnicamente precisos, até matemáticos, o eleitor comporta-se de maneira subjetiva. Quer dizer, “vota”, mas nem sempre, ante a objetividade excessiva da pesquisa, vota como quer. Como está acompanhando o quadro, buscando não raro o que chama, não de “o melhor”, mas de “o menos pior”, apresenta-se, ou é apresentado pela pesquisa, como “indeciso”. Não há dúvida: o eleitor com informação acima da média, mas que está “enojado” da política — sabendo que apenas o PT roubou 200 milhões de dólares (mais de meio bilhão de reais) só na Petrobrás, alguém pode ficar contente? —, nada tem de indeciso; entretanto, como não decide rápido, porque observa com acuidade os nomes e propostas em jogo, é percebido como indeciso. Porém, no dia da eleição “reaparece”, posicionando-se com firmeza, e o quadro eleitoral que sai das urnas é, algumas vezes, bem diferente do que se previa.

É provável que o “Eleitor Invisível”, altamente politizado, desconfiado e autônomo — ninguém o controla —, esteja agindo em Goiânia, neste momento, movendo o quadro eleitoral. Mas não se está dizendo que ele pode “ludibriar” tão-somente Iris Rezende, que lidera as pesquisas de intenção de voto. Pode “enganar” Vanderlan Car­doso também. Porque, num momento, pode mover-se em direção ao peemedebista; e, noutro, pode movimentar-se em direção ao postulante do PSB. Noutro momento, pode não mover-se, paralisando o quadro. Porém, de repente, no dia da eleição, move-se, de maneira decisiva, e muda o quadro que vinha se desenhando.

O “Eleitor Invisível” decide em cima da hora, ou seja, na última semana, quando esgota suas possibilidades de examinar o quadro. Quando, digamos assim, o “nojo” dos políticos, se não diminui, é posto de lado e se é obrigado a fazer uma escolha.

Portanto, se o eleitor que decide, mutando o quadro de uma hora para outra, faz suas opções tardiamente, resultando numa eleição que se define em cima da hora, nenhum candidato pode cantar vitória antes do tempo certo. Como se disse antes, não se ganha, jamais, eleição por antecipação.

Se assim é, não se pode falar em candidatos vencedores e em candidatos derrotados, ao menos não neste momento.

O candidato que lidera, com margem apertada ou não — dado o número de eleitores que decidem em cima da hora —, deve desconfiar de sua própria liderança e, no lugar de deitar-se em berço esplêndido, deve redobrar seu trabalho de convencimento, tanto para manter a liderança, ou suposta liderança, quanto para conquistar mais votos, exatamente os votos dos eleitores que decidam, não no tempo dos políticos, e sim seguindo seu próprio tempo. Iris Rezende, frise-se, cantou de galo, sugerindo, em entrevistas, que seria eleito no primeiro turno. Não foi e os eleitores deram-lhe uma frente insatisfatória, como se quisessem surpreendê-lo, para que colocasse os pés no chão.

O candidato que não lidera — considerando o caráter disperso e, paradoxalmente, atento do “Eleitor Invisível”, não se sabe quem, na prática, lidera de verdade, porque as pesquisas de intenção de voto são mais sintomas do que a verdade do eleitorado — deve entender que, no lugar de desanimar-se, precisa, isto sim, reforçar a apresentação de suas propostas, dando-lhe caráter mais verdadeiro, apresentando-as de maneira transparente possível (tipo: “Nós temos 30 milhões de reais do orçamento para pôr este projeto em prática”) e, claro, de modo mais palatável.

O candidato que se considerar eleito e o candidato que desaminar, ante as pesquisas de intenção de voto — que, repetimos, registra a circunstância (muitas vezes, de maneira pálida), mas não o instantâneo do dia da eleição —, estará dizendo, ao “Eleitor Invisível”, que não consegue entendê-lo. Os dois candidatos, o que se entende como líder e o que é apresentado em segundo lugar, se estiverem atentos, farão campanhas arrojadas até o último momento. Porque, sabedores que há um eleitor forte, até fortíssimo, que está à espreita, disposto a decidir em cima da hora, não descuidarão um minuto de suas campanhas.

Classes médias

Fala-se muito em classe média, mas os pesquisadores, sobretudo os sociólogos, estão certos quando preferem mencionar “classes médias”, no plural. A sociedade é mais diversificada do que o olho capta, com rendimentos cada vez mais variáveis nas classes sociais. Goiânia é uma cidade com classes médias amplas, com variações de renda e perspectivas culturais diversificadas, e é muito difícil captar o que de fato pensam, dada a diversidade de percepções. Mas há um consenso a respeito delas: estão profundamente indignadas com o momento político vivido pelo Brasil. Costuma-se ouvir de seus integrantes que a política é uma “cachorrada”. Felizmente, não é, ao menos não no todo, e não há nenhum país, mesmo aqueles que os brasileiros avaliam como Shangri-las, que possa abdicar da política e, portanto, dos políticos. As mudanças de uma sociedade, negativas ou positivas, passam pela política, e não ao largo dela. As classes médias, mesmo tapando o nariz quando ouvem falar de políticos, sabem que a política é inescapável, sobretudo têm a percepção de que não há outra alternativa. Elas têm consciência substancial disto. Assim, no dia da eleição, comparecem e votam, derrubando os muros das certezas e desafiando o coro dos contentes.

Iris Rezende e Vanderlan Cardoso, os candidatos que os eleitores escolheram como melhores para o segundo turno, por certo têm consciência de que estão sendo observados com extrema atenção. Estariam agradando? Não se sabe exatamente, mas os eleitores querem que se apresentem como gestores eficientes, criadores, mas não pirotécnicos. Os eleitores desconfiam de candidatos que propõem mudanças demais. Por quê? Porque sabem que não se muda nada, ao menos não de maneira substancial, de uma só uma vez, com uma canetada. Não se trata de sugerir que os eleitores são conservadores, e não querem mudança. Querem mudança, sim, mas não de maneira pirotécnica. As revoluções se perderam, em larga medida, porque seus criadores, ao acreditarem que a sociedade poderia se “alimentar” de revoluções permanentes, não entenderam que a construção exige, depois do processo mudancista, a tranquilidade da rotina. As sociedades preferem a evolução à revolução. Noutras palavras, preferem a mudança sedimentada, com um passo de cada vez, sem excessos. É por isso que propostas demais e candidatos com soluções radicais e definitivas para os problemas não agradam o Eleitor que, na falta da precisa palavra flaubertiana, chamamos, neste Editorial, de Invisível. Na verdade, ele está dizendo, com os resultados das urnas, que é mais “visível” do que imagina a nossa vã filosofia e decide de verdade.

O Eleitor Invisível, que tentamos fazer visível neste Editorial, de alguma maneira, está dizendo o seguinte: “Ninguém ainda me convenceu. Convença-me!” Iris Re­zende e Vanderlan Cardoso, políticos hábeis, sabem que, nos períodos eleitorais, só se “descansa” no dia seguinte à eleição.

O processo eleitoral de Anápolis, com Roberto do Orion, do PTB, virando o jogo contra o prefeito João Gomes, do PT, é um claro sinal de que não há favas contadas em política e em termos eleitorais. Vanderlan Cardoso não se tornou Roberto do Orion e Iris Rezende não se tornou João Gomes. Mas o Eleitor Invisível, altamente decidido e decisivo, pertencendo a uma classe média altiva, que não aceita cabrestos eleitorais de nenhum político e partido, é hábil em mudar quadros que, de tão fixos, parecem drummonds, quer dizer, pedras no meio do caminho. Mas, na verdade, não são.

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