Eleitor deve apostar num combinado entre renovação e relativa experiência dos candidatos

Nas eleições deste ano, o país assistirá — nada bestificado — aos eleitores atuando como “castigadores” dos políticos e como “renovadores” da política

Marina Silva, Joaquim Barbosa e Ciro Gomes: um deles tende a enfrentar Jair Bolsonaro no segundo turno? A primeira é uma outsider integrada e o segundo é um outsider apocalíptico
(nem seu partido, o PSB, sabe quem é com precisão), mas podem surpreender. O terceiro precisa do PT para salvá-lo da “inanição”. O quarto pode ser a surpresa positiva ou negativa

Dados os escândalos envolvendo políticos, numa dimensão nunca vista antes — a queda da impunidade é outra novidade —, os eleitores brasileiros demonstram pouco apreço pela disputa eleitoral deste ano. Os números da abstenção e de votos brancos devem crescer — exceto se aparecer uma novidade que capte o interesse dos indivíduos e, assim, reduza sua desmotivação. A falta de interesse é “normal” e justificável. A roubalheira dos cofres públicos é, obviamente, indefensável. Não há mesmo motivo para uma empolgação intensa.
Mas os eleitores — frise-se que bom senso é uma virtude distribuída de maneira equânime entre todas as classes sociais, independentemente do grau de instrução ou renda — sabem que, apesar de críticos severos da corrupção e dos políticos tradicionais, têm responsabilidade com seu país. Portanto, no momento de escolher seu candidato, sobretudo a governador e a presidente da República, o farão de maneira criteriosa (há uma tendência de se escolher outsiders para o Legislativo, tipo Tiririca, mas não para o Executivo). Porque sabem que, se escolherem sem critério racional, apenas com “fúria” e descontentamento, se darão mal, até muito mal. Em 1989, quando apostaram num candidato de centro-direita, Fernando Collor, avaliaram que estavam optando pela renovação total e que um novo modelo de política e administração seria instalado no país, mas todos, inclusive a imprensa — que havia se “collorido” antes e na campanha, emprestando apoio ao “caçador de marajás” —, acabaram descobrindo que o “novo”, se o era em idade, era velhíssimo em termos de comportamento político. A corrupção alastrara-se nas estruturas do governo, sob a coordenação do tesoureiro Paulo César Farias, o PC.

O novo, portanto, pode ser novo, na feição, mas pode ser velho na ação. Mas, questiúncula à parte, os eleitores de outubro de 2018 — que vão se manifestar em cima da hora, pois vão observar os candidatos com extrema atenção (o tempo, de 45 dias, será suficiente, porque a capacidade crítica dos eleitores ganhou musculatura) —, tendem mesmo a apostar em renovação.

A aposta na renovação, dado o fato de que o eleitorado está bem informado e formado — com um grau de irritabilidade à flor da pele (pesquisadores de rua confidenciam que chegam a ser maltratados quanto apresentam questionários em busca da intenção de voto dos eleitores) —, terá critérios. O político tradicional, com um cartel de denúncias — comprovadas ou não —, certamente será abandonado pelos eleitores, e, por vezes, de maneira acachapante. Não dá para enganar os eleitores, nem mesmo com um trabalho de marketing sensacional. Os brasileiros aprenderam a arrancar a “casca” da marketagem para verificar quem é, de fato, o candidato.

Os eleitores tendem a apostar, para os governos estaduais e federal, naqueles políticos que estão há menos tempo disputando mandato. Portanto, apesar das análises de cientistas políticos gabaritados, não será surpresa se um Jair Bolsonaro (PSL) for eleito presidente da República. Não seria um novo Fernando Collor? Pode até ser, mas não é visto assim pelo eleitorado. Ele é visto, por “seus” eleitores, como o político que tem coragem de enfrentar o establishment patropi e fazer mudanças drásticas, por exemplo, na área de segurança pública. Pode-se até criticar as ideias do deputado federal, mas parte significativa dos eleitores está interessada nelas, ao menos no básico.

Geraldo Alckmin (PSDB), Fernando Haddad (PT) e Henrique Meirelles (MDB) são políticos moderados (até o petista é de centro-esquerda) e representam estruturas tradicionais. Não estão descartados, mas não simbolizam a renovação

Há quem estranhe o fato de Joaquim Barbosa (PSB), ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, aparecer nas pesquisas de intenção de voto à frente do novo darling das esquerdas, o paulista-cearense Ciro Gomes (PDT). Político tradicional, de estopim curto e de matiz autoritário, Ciro Gomes agrada pela firmeza, tem experiência administrativa e não pode ser enquadrado entre os larápios-mores da República. Se tiver o apoio do PT — apesar da debacle geral, o partido não está “morto” e mantém ampla estrutura nos Estados e um eleitorado razoável (quiçá imenso) —, fica mais forte. Sem o PT, dificilmente irá ao segundo turno, e ele, expert em política, sabe disto — daí ter se aproximado do petismo realista, o de Jaques Wagner, ex-governador da Bahia (o PT deve bancar para presidente Fernando Haddad, político articulado, moderado e lulopetista). Joaquim Barbosa, negro como Barack Obama, é um homem de princípios, não é responsável por nenhuma falcatrua e, como presidente do Supremo, foi decisivo para enviar corruptos do mensalão para a cadeia. Trata-se de um político-não político, quer dizer, exatamente aquilo que os eleitores estão exigindo. Pode surpreender Jair Bolsonaro, Ciro Gomes, Geraldo Alckmin — tradicional — e Henrique Meirelles (apesar de não ser novo em idade, é uma novidade, mas seu discurso, como se falasse para si e não para os indivíduos, não empolga e é ininteligível para a maioria) e ser eleito presidente. Terá dificuldade para governar, porque, de algum modo, lembra a petista Dilma Rousseff, que, no poder, não soube agregar. Mas sua integridade é vista pelo eleitorado como o diferencial que todos querem. Sublinhe-se que acabou de ter seu nome colocado nas pesquisas, pois o PSB não o havia definido como candidato, e já aparece bem. Quer dizer, pode crescer ainda mais.

Marina Silva (Rede) é um caso à parte. Por que, mesmo sendo uma política tão tradicional quanto Ciro Gomes e Geraldo Alckmin, aparece bem nas pesquisas? Porque, a rigor, pertence a uma esquerda — e é mais moderada do que seus aliados — que, embora tenha participado do primeiro governo presidencial de Lula da Silva, não se corrompeu. De algum modo, é vista como não-política, até uma espécie de outsider… integrada. Joaquim Barbosa é uma espécie de outsider… só que ligeiramente apocalíptico. Não há espaço para os dois no segundo turno, mas um deles provavelmente estará lá, quem sabe disputando com um candidato do porte de Geraldo Alckmin, Jair Bolsonaro e, até, Henrique Meirelles.

Eliton e Daniel

Ronaldo Caiado, senador, José Eliton, governador, e Daniel Vilela, deputado federal: os eleitores vão verificar qual é capaz de manter a modernização de Goiás e renovar a política do Estado. Eles são políticos qualitativos

Em Goiás, avaliando pela circunstância, o favorito para o governo do Estado é o senador Ronaldo Caiado (DEM). Entretanto, como não há campanha e os demais pré-candidatos — o governador José Eliton (PSDB), o deputado federal Daniel Vilela (MDB) e a presidente do PT, Kátia Maria — são praticamente desconhecidos, não dá para avaliar, de maneira precisa, o que acontecerá em outubro. A tendência — insistamos: a tendência — é que, com José Eliton, Daniel Vilela e Kátia Maria se tornando mais conhecidos, a frente de Ronaldo Caiado seja reduzida, o que deverá ocorrer, provavelmente, entre maio e julho. Dadas as estruturas do PSDB e do MDB, as maiores em todo o Estado, é inimaginável que José Eliton e Daniel Vilela não se aproximem do líder nos levantamentos. O crescimento de Daniel Vilela possivelmente vai retirar votos de Ronaldo Caiado — o que, se acontecer, mudará o quadro eleitoral —, pois os dois são os pré-candidatos da oposição que tendem a se consolidarem de maneira mais sólida ante os olhos dos eleitores.

Os quatro candidatos, embora três deles sejam jovens, representam estruturas tradicionais em Goiás. Sendo assim, como os eleitores tendem a definir seus votos? Como a bola de cristal de um jornal deve ser a razão, e não a mesmerização dos eleitores por intermédio de “chutes” intelectivos, não se tem a resposta mágica, aquela que todos esperam quando leem um texto jornalístico. É cedo, até muito cedo, para traçar um quadro do que pode ser o resultado eleitoral de outubro deste ano. De qualquer maneira, não se pode fugir da raia e urge apresentar um quadro, ainda que mínimo, do que pode (note que não se escreve “deve”) ocorrer.

A julgar pelo quadro nacional, que não difere em muito dos estaduais — porque o desencanto dos eleitores é generalizado, e contra tudo e contra todos (quando os eleitores não são engajados em partidos e movimentos) —, os eleitores vão optar pela renovação mas sem ignorar a relativa experiência administrativa.

O médico e ruralista Ronaldo Caiado nunca administrou uma cidade nem o Estado. Ele foi presidente da União Democrática Ruralista (UDR), disputou a Presidência da República, foi deputado federal e, desde 2015, é senador. Não é inexperiente, portanto, mas não sabe como é o dia a dia de um governo. Tanto que seu discurso é de mero opositor, como se não compreendesse como funciona a máquina pública. Ele tem o conhecimento externo — o que facilita a crítica, a destruição —, mas não o conhecimento interno, o que torna o político mais realista e pragmático. Ao mesmo tempo, representa a política tradicional de Goiás: a família Caiado faz política no Estado há mais de 100 anos. Idade pode não contar, mas ele disputará a eleição com 69 anos (o eleitor de Goiânia, no momento, avalia que os 84 anos de Iris Rezende podem estar atrapalhando sua gestão; o mais provável é que o problema do emedebista seja mais de mentalidade retardatária do que o fato de ser octogenário). Será muito difícil, senão impossível, apresentar o postulante do partido Democratas como “renovador”. Em que, exatamente, vai (e pode) renovar? Não se sabe.

O advogado José Eliton, 45 anos e relativamente novo na política — foi vice-governador durante sete anos e três meses e assumiu o governo de Goiás há pouco mais de um mês —, não é um político tradicional. Mesmo representando um grupo político que está no poder há vinte anos, o jovem tucano simboliza a renovação na (e da própria) corrente que o apoia. Ao mesmo tempo, está fazendo um governo arrojado, com mudanças rápidas e eficientes para melhorar a qualidade de vida dos indivíduos. O terceiro turno na saúde, com a ampliação do atendimento noturno nas unidades estaduais, é considerado um portento até por adversários. A proteção daqueles que usam ônibus do transporte coletivo não comove as classes média e alta, mas ganhou o respeito dos usuários do sistema. Há outras medidas que estão sendo bem-vistas pela sociedade. Os eleitores estão avaliando José Eliton, até agora positivamente. É preciso verificar se isto será traduzido em votos. É provável que, dada a estrutura e a visibilidade que a máquina pública proporciona, estará no segundo turno.

O advogado Daniel Vilela, com pouco mais de 30 anos, é, como José Eliton, o novo, a renovação. Mais conhecido, com a apresentação de suas ideias para ampliar a modernização de Goiás, poderá surpreender. Se isto acontecer, o mais provável é que retire Ronaldo Caiado do páreo e dispute o governo com José Eliton, no segundo turno. Um quadro semelhante aconteceu em 1994, quando Maguito Vilela, pai de Daniel Vilela, era o terceiro colocado — bem atrás de Lúcia Vânia e Ronaldo Caiado — e acabou indo para o segundo turno contra Lúcia Vânia e foi eleito governador. Ronaldo Caiado, que liderou boa parte da pré-campanha e da campanha, ficou em terceiro lugar.

Não se pode sustentar que Ronaldo Caiado está fora do páreo — as pesquisas indicam que se trata de um candidato forte, até sólido —, mas, ante um eleitorado que quer renovar tudo, não se poderá considerar como surpresa um segundo turno entre José Eliton e Daniel Vilela. Reviravoltas acontecem. Fazem parte da vida. Os eleitores, com o destino nas mãos, apesar do grau de imprevisibilidade da vida, podem surpreender e “desmentir” as atuais pesquisas de intenção de voto. Tem-se a impressão de que, nas eleições deste ano, o país assistirá — nada bestificado — os eleitores atuando como “castigadores” dos políticos e, portanto, como “renovadores” da política.

A rigor, o novo, para os eleitores, ainda não nasceu. Está nascendo, portanto ninguém sabe como é sua “morfologia”.

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