É hora de as instituições agirem e continuarem a agir: o Brasil não é uma “república das bananas”

Após uma tolerância que sempre beirou à negligência, as instâncias devidas e a sociedade estão reagindo aos ataques incessantes à democracia

William Sydney Porter (1862-1910) não é dos autores estadunidenses mais conhecidos no Brasil, mas se tornou um memorável contista em seu país, com o pseudônimo de O. Henry. Anos atrás teve uma coletânea de seus melhores contos publicada por aqui: O. Henry (2016, 248 p.), com 19 textos, publicada em edição de luxo pela Editora Carambaia (pode ser encontrada por R$ 170 na Amazon).

As histórias são em ambiente urbano e contadas em estilo refinado, mas de fácil leitura, a maioria delas histórias passadas em Nova York, cidade onde escolheu viver até morrer, após ser cumprir a pena de três anos por condenação por peculato quando trabalhava em um banco, como caixa. Durante a reclusão, em uma penitenciária do Estado de Ohio, Porter começou a escrever e enviar seus contos a um amigo, que conseguiu publicá-los sob pseudônimo. Surgia O. Henry, que logo se consagraria como fantástico (e intenso) produtor de literatura.

O escritor William Sydney Porter, ou O. Henry: criador de termo clássico “república das bananas” | Foto: Divulgação

Entre o crime e a cadeia, havia passado uma breve temporada em Honduras, já foragido. Foi lá, em observação do que ocorria no país centro-americano, lhe veio a inspiração para criar a fictícia Anchuria, um lugar cheio de desmandos, com a população pobre subjugada por uma elite plutocrata e a exploração do único produto de exportação local por uma empresa estrangeira que ditava as regras naquelas plagas.

Este é o cenário de O Almirante (The Admiral), o conto de O. Henry no livro Cabbages and Kings em que ele cria a expressão “república das bananas”. O termo nasceu ali, mas uma das grandes propagadoras do ideário na vida real foi a United Fruit Company, multinacional que liderou a pressão de corporações, principalmente dos Estados Unidos, sobre fatos políticos, econômicos e sociais em países da América Central e Caribe, zona de influência direta dos ianques. Nações como Honduras e Guatemala, cuja economia dependia basicamente da exportação de frutas, como a banana. Governos eram impostos e retirados ao bel-prazer do poderio econômico, interno e externo.

Woody Allen em “Bananas”, filme que se passa em uma republiqueta fictícia da América Central | Foto: Divulgação

“República das bananas” era, de fato, um nome mais ameno para “ditadura”. A imagem criada por O. Henry se tornou clássica, consagrada por jornalistas, intelectuais e até cineastas: em 1971, Woody Allen lançou Bananas, em que o protagonista é um assalariado desprezado pela mulher que ama, por ela querer alguém que mostre liderança. Ele, então, vai para San Marcos, um país fictício da América Central, e lá se torna o presidente, com o apoio de rebeldes. Republiqueta é assim.

Avançando mais de cem anos até a terceira década do século 21: semanas atrás, o vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) se apressou em negar com veemência que o Brasil estivesse sob a ameaça de não ter eleições em 2022, em meio à tensão e à pressão governamental pela aprovação do voto impresso já para o próximo pleito, mesmo sem haver nenhum fraude no sistema em 25 anos de uso da urna eletrônica. “É lógico que vai ter eleição. Quem é que vai proibir eleição no Brasil? Por favor, gente, nós não somos república de banana”, respondeu o general aos jornalistas – com os quais, ao contrário de seu companheiro de chapa vencedora em 2018, é sempre muito solícito, diga-se.

O Brasil não é uma republiqueta de bananas. Mourão está certo. A expressão “republiqueta” já poderia ser denegada imediatamente por motivo técnico – a extensão territorial gigante do País. Mas é bem mais do que isso: do ponto de vista econômico, somos uma das maiores do mundo; uma Nação-potência do agronegócio; o maior produtor de proteína animal do planeta. Apesar de realmente em estágio tímido para o potencial que teria, caso houvesse governos interessados e tivesse uma política de Estado que a incentivasse, a industrialização brasileira está bem destacada em relação a qualquer de seus vizinhos: por aqui fabricam-se de calçados a aviões, de automóveis a produtos químicos. Até em vacinas podemos – e já poderíamos, caso houvesse investimento em pesquisas maciço em pesquisas para a Covid-19 – ser autossuficientes na produção.

É este país, vitrine do mundo também por sua exuberância de recursos ambientais e estratégico para conter o aquecimento global, que Jair Bolsonaro (sem partido) está tratando como republiqueta, cada vez que usa sua rede de apoio radical – seja de empresários, militares ou veículos de comunicação – para mandar mensagens golpistas, cada vez mais explícitas.

Presidente Jair Bolsonaro em entrevista online para a Jovem Pan, ao lado do deputado federal Filipe Barros (PSL-PR), relator da proposta derrotada de voto impresso | Foto: Divulgação

Depois de uma tolerância que sempre beirou à negligência – porque não se poderia admitir, sem resposta dura, nem mesmo o mínimo de movimento de um chefe de Estado contra a própria Constituição, as instituições e a sociedade estão reagindo. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luiz Fux, demorou, mas reagiu: fechou as portas ao diálogo entre Poderes com Bolsonaro – que o próprio magistrado havia proposto –, pelo menos enquanto ele continuar agindo como metralhadora de barbaridades contra seus colegas de Corte, especialmente Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), atacado como nunca por um presidente da República, pediu ao STF que Bolsonaro seja investigado por disseminação de mentiras contra as urnas eletrônicas e o ministro Alexandre o incluiu entre os alvos do inquérito das fake news. Da mesma foram, entidades representantes da sociedade civil, como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e outras, divulgaram na semana passada carta em defesa do sistema eleitoral e contra o que chamaram de “tentativas de ruptura institucional”.

Por último, o PIB brasileiro mostrou as caras e a inconformidade com o atual cenário. Foi em manifesto liderado por banqueiros (como Roberto Setubal e Pedro Moreira Salles, do Itaú-Unibanco, Luis Stuhlberger, do Fundo Verde, e Fábio Barbosa, ex-presidente da Federação Brasileira de Bancos) e empresários (como Luiza e Frederico Trajano, do Magazine Luiza, Guilherme Leal, da Natura, e Carlos Jereissati, do Shopping Iguatemi), mas também economistas (Armínio Fraga, Persio Arida, Pedro Malan, André Lara Resende e Elena Landau), ex-ministros (Celso Lafer e Nelson Jobim), diplomatas (Roberto Abdenur e José Maurício Bustani) e intelectuais (Renato Janine Ribeiro e Sergio Fausto). Também artistas e outras personalidades subscreveram o documento congregaram em favor da Justiça Eleitoral.

Foi publicado um texto curto, de 18 linhas, mas tão assertivo que poderia se encerrar apenas em seu título: “O Brasil terá eleições e seus resultados serão respeitados”. Ou seja, em outras palavras, não somos uma república de bananas.

A ninguém, muito menos a quem puxa financeiramente o País, interessa uma ruptura, nem ao menos a ameaça que isso possa acontecer. É isto: mesmo se o mundo continuasse a negociar as commodities em um governo de golpistas, a sociedade brasileira é bem mais complexa do que uma republiqueta fornecedora de produtos da agricultura e da pecuária. No mundo atual, seria uma aventura bravateira e sem noção, mas que causa danos enormes à credibilidade.

O Brasil é um país gigante e uma das maiores democracias do mundo. Alguém precisa dizer isso a Jair Bolsonaro (sem partido). Mais do que dizer (porque isso, vê-se, não adiantará): é preciso mostrar ao presidente, com ações, toda vez que for necessário, que uma democracia tem seus limites e que eles são determinados pela Constituição. Da mesma forma, caso eles sejam desrespeitados em qualquer uma de suas “quatro linhas”, o responsável pela transgressão será dura e devidamente punido.

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