Disputa na oposição resulta de uma guerra letal pela hegemonia dos Vilelas contra Iris e Caiado

Dissidência na base do PMDB e do DEM envolve a disputa para o governo do Estado, o que torna a crise mais forte. No governismo, a crise é menos sólida porque só envolve a disputa para o Senado

Daniel Vilela, Maguito Vilela, Ronaldo Caiado e Iris Rezende: a disputa de fundo não é por cargos secundários, e sim pela hegemonia política | Fotos: Fernando Leite / Jornal Opção e Divulgação

Cada eleição tem sua história específica mas contém fiapos de processos anteriores. A política, como a vida, é feita de emendas, de conflitos resolvidos e não resolvidos. No início das discussões eleitorais, as dissidências parecem agigantar-se. Porque todos os líderes partidários querem espaço para si e aliados mais proeminentes e isto ocorre em praticamente todos os partidos mais consolidados. São raros os casos de consenso por antecipação. Veja-se o caso do PSDB nacional. Seus principais líderes, percebendo o vácuo político, querem disputar a Presidência da República em 2018. São aliados e, na prática, rivais. Neste momento, o “inimigo” mora ao lado, não é o adversário com o qual se vai disputar o pleito do próximo ano. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, quer arrancar o “escalpo” dos senadores José Serra e Aécio Neves e, mesmo, de seu principal aliado, o prefeito de São Paulo, João Dória. Para consolidar-se como pré-candidato, busca o apoio do governador de Goiás, Marconi Perillo. Todos são do PSDB, mas são aliados e, ao mesmo tempo, adversários.

Em Goiás, assiste-se a uma pré-campanha acirrada tanto nos bastidores quanto às claras e, também, nas páginas dos jornais. Há um quadro consensual, ou praticamente consensual, de que os quatro nomes mais fortes para o governo do Estado são o vice-governador José Eliton, do PSDB, o senador Ronaldo Caiado, do DEM, o ex-governador Maguito Vilela e o deputado federal Daniel Vilela, ambos do PMDB. Há quem acredite que Iris Rezende, com o apoio de Ronaldo Caiado, também está no páreo. Mas quem convive de perto com o decano peemedebista sugere que não tem mais energia para se movimentar por um Estado que tem dimensão de país, com distâncias longas e, por vezes, vias de difícil acesso. O mais provável é que o tempo de Iris Rezende tenha passado, em termos de disputas estaduais, e ele tenha se tornado um político exclusivamente municipal, quer dizer, de Goiânia. A forte presença de Iris Araújo e Ana Paula Rezende, mulher e filha, respectivamente, significa que precisa de amparo básico para gerir a cidade — hoje, apesar das promessas, relativamente abandonada. O Iris Rezende letárgico que se vê no momento não é o Iris ativo de antes.

Dissidência no PMDB
Porém, o fato de estar desconectado das coisas do mundo contemporâneo, como se fosse um homem mais da história — datado — do que do presente político, não significa que Iris Rezende, com seu grupo, não tenha peso no PMDB. Tem, ainda que não mais estadual, mas Goiânia, bem ou mal administrada, é uma cidade-Estado e, como tal, influente em termos políticos e eleitorais (vive na cidade o maior número de eleitores do Estado — quase 1 milhão). O que se faz na capital, de bom ou de ruim, reverbera nas demais cidades.
Se está vivo politicamente, apesar de que a decadência (e não se está falando de questões físicas, ainda que sejam relevantes) esteja se aproximando, Iris Rezende acaba sendo um problema para Maguito Vilela e Daniel Vilela. Portanto, pode representar uma crise maior para os Vilelas, portanto para o PMDB, do que a dissidência da base marconista (leia adiante).

Como não tem futuro político, Iris Rezende pode jogar tudo na eleição de 2018, tanto para consolidar seu grupo, tendo Iris Araújo como ponta de lança, quanto para tentar dinamitar o grupo interno que avalia como seu principal adversário político — o vilelismo. O prefeito pode apoiar Daniel ou Maguito Vilela para o governo, é claro. Mas pode oferecer dois tipos de apoio: motivado ou desmotivado. Hoje, pelo menos, não tem qualquer motivação para apoiar Maguito e, sobretudo, Daniel Vilela para o governo. Na verdade, ele opera para apoiar Ronaldo Caiado, seu principal aliado político — acima de qualquer um dos Vilelas. Nas eleições de 2014, para governador, e de 2016, para prefeito, o senador do DEM estendeu a mão para Iris Rezende de maneira integral. Os Vilelas foram vistos na campanha, e até de maneira enfática, mas o irismo não percebe assim e sugere que houve corpo mole. Para piorar, o irismo, com Iris Rezende e Iris Araújo como “atacantes” — formam um time de apenas dois jogadores —, afirma, em conversas privadas e mesmo públicas, que o vilelismo, que tacham de maguitismo (consideram Daniel Vilela tão-somente como preposto do pai, o que pode ser um erro de avaliação), é a nova faceta do marconismo. Iris Rezende já disse para mais de uma pessoa que não tolera os elogios públicos que o ex-prefeito de Aparecida de Goiânia faz ao governador de Goiás, Marconi Perillo.

A dissidência do PMDB, portanto, é grave para os Vilelas, Daniel e Maguito, se quiserem disputar o governo em 2018. Além da resistência de Iris Rezende, que pode acabar dando um apoio discreto mas eficaz para Ronaldo Caiado, há outros problemas. Sem o senador do DEM como parceiro político, os Vilelas terão de buscar amparo no PT de Antônio Gomide e Rubens Otoni. São dois políticos íntegros e, eleitoralmente, consistentes. Se é assim, por que considerá-los como um “drummond” no meio do caminho dos Vilelas, se o postulante peemedebisdta aceitar um deles, possivelmente Antônio Gomide, como vice para a chapa majoritária em 2018? Porque, embora não sejam políticos desgastados, são filiados ao PT, o partido da terra arrasada, em termos eleitorais. Políticos que se aliarem ao PT em 2018 certamente pagarão um preço muito alto — e não só em Goiás. Os Vilelas, para não ficarem sozinhos — precisam de mais tempo de televisão —, correrão o risco e se alinharão ao PT. A única possibilidade de deixarem o petismo de lado é se Ronaldo Caiado apoiar um dos Vilelas para o governo do Estado.

Ronaldo Caiado certamente não vai apoiar Daniel ou Maguito Vilela para o governo de Goiás. Por um motivo prosaico: 2018 possivelmente será sua última chance de disputar o governo de Goiás. Naquele ano, terá completado 69 anos. Na eleição seguinte, mais velho, certamente não será candidato. Por isso, o momento político do senador é 2018, não 2022.

O que Ronaldo Caiado está tentando, com o apoio de Iris Rezende e Iris Araújo, é pressionar os Vilelas para indicarem o seu vice ou o candidato a senador na chapa majoritária. É uma missão difícil, quiçá impossível. Mas o irismo está em campo com o objetivo de convencer os Vilelas a cederem, o que não querem, pois, se aceitarem apoiar Ronaldo Caiado, perderão a hegemonia que, a duras penas, conseguiram nos últimos dois anos. Se entregarem o PMDB ao senador do DEM significa que falta-lhes mesmo energia para manter o poder, quer dizer, aquilo que conquistaram. A vitória sobre Iris e o irismo, quando Daniel Vilelo derrotou Nailton “Rezendinho” Oliveira na disputa pela presidência do PMDB, terá sido uma vitória de Pirro.

Dissidência governista

Lúcia Vânia, Jovair Arantes e Vilmar Rocha e Wilder Morais: disputa de todos é para permanecer na base governista, não para sair dela

Do lado governista, também há dissidências, que podem se tornar graves ou não. Mas há um aspecto que tem sido pouco analisado pela imprensa: os quase-dissidentes — e a palavra a reter é mais “quase” do que “dissidentes” — lutam mais para ficar do que para sair da base marconista. Não há necessariamente uma batalha para romper, e sim para conquistar ou manter espaço político na própria base.

A senadora Lúcia Vânia, uma das políticas mais importantes do Estado, tanto por seu trabalho em Brasília quanto por sua decência de estadista, quer romper com a chamada “base aliada”, que envolve PSDB, PP, PTB, PSB, PPS, PSD, entre outros partidos? Não quer. O que a presidente do PSB aspira mesmo é, continuando na base, disputar a reeleição em 2018. É simples assim. O problema é que, como a base governista cresceu, há outros postulantes.

O deputado federal Jovair Arantes disse que o PTB deve fazer parte da chapa majoritária — na ou fora da base governista. É uma ameaça? Não. É uma tomada de posição. O petebismo saiu com uma força considerável das eleições de 2016. Elegeu os prefeitos de Anápolis, Roberto do Órion Naves, e de Itumbiara, José Antônio. Os prefeitos de Porangatu, Pedro Fernandes, e de Águas Lindas, Hildo do Candango, pertencem ao PSDB, mas são afinados com Jovair Arantes. O resultado é que o PTB quer indicar o candidato a senador ou o postulante a vice.

O PP, aliado tradicional de Marconi Perillo, planeja bancar a reeleição do senador Wilder Morais (o deputado federal Roberto Balestra, do PP, também está colocando seu nome para senador). O pepista está praticamente em campanha, dialogando com prefeitos de quase todas as cidades e está cada vez mais próximo do governador. Há quem diga que, no frigir dos ovos, aceitará ser suplente do tucano-chefe ou postular a vice-governadoria. Não é o que dizem ele e todos os seus aliados, que montaram uma estrutura gigante para a disputa do Senado.

O PSD, capitaneado em Goiás por Vilmar Rocha, seu presidente, e pelo deputado federal Thiago Peixoto, também cobra participação na chapa majoritária. Há os que defendem que Vilmar Rocha deve disputar mandato de senador e há os que sugerem que Thiago Peixoto deve ser o vice de José Eliton.

Em suma, o que está ocorrendo é o seguinte: todos estão ciscando para fora — tanto os que conversam com Ronaldo Caiado quanto os que conversam com os Vilelas —, mas com o objetivo de ciscar para dentro. Noutras palavras, Lúcia Vânia, Jovair Arantes, Vilmar Rocha e Thiago Peixoto, para mencionar quatro nomes de proa, não querem sair da base. As dissidências, portanto, não são bem dissidências — embora possam se configurar como tais adiante.

Já na aliança PMDB e DEM a disputa principal se dá não pelo mandato de senador, e sim pelo mandato de governador, quer dizer, a batalha é pela hegemonia política. Portanto, na base oposicionista não se trata de uma dissidência superficial, e sim de uma crise de fundo. Há uma disputa pela hegemonia política. Se ficarem com Ronaldo Caiado, aceitando uma vice ou uma vaga para o Senado, os Vilelas sucumbirão politicamente. Atentos, Daniel e Maguito Vilela não são adeptos do haraquiri político… l

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