Dilema do MDB: ficar com a aventura de Mendanha ou com a razão de Daniel Vilela?

A razão sugere que Mendanha pode ser “oxigênio” para Marconi Perillo e o tucano pode ser “veneno” para o emedebista 

Os que não podem recordar o passado estão condenados a repeti-lo.” — George Santayana

“Time que não joga não tem torcida”, costumava dizer o pernambucano Marco Maciel, um dos mais importantes políticos do Brasil. De fato, é um direito e um dever dos partidos políticos lançarem candidatos a todos os cargos eletivos.

Daniel Vilela e Gustavo Mendanha: o primeiro parece que quer trilhar um caminho racional e o segundo parece que planeja trilhar o caminho da aventura| Foto: Divulgação

Portanto, se quiser, o MDB de Daniel Vilela, presidente do partido, e Gustavo Mendanha, prefeito de Aparecida de Goiânia, tem todo o direito de lançar candidato a governador de Goiás em 2022. É uma opção e o postulante tanto pode ser um como pode ser o outro.

Num encontro recente com emedebistas, Mendanha disse que apoiará a candidatura de Daniel Vilela como se fosse a sua. Porém, acrescentou que, se o presidente emedebista não quiser disputar, deve abrir espaço para ele. Aos 38 anos, o líder aparecidense — nascido em Goiânia —, supostamente “picado” pela mosca azul, estaria sugerindo que o cavalo está “arreado” em sua porta e que chegou o momento de montá-lo.

Mais cauteloso, Daniel Vilela tem pedido calma ao aliado açodado, que é seu amigo. O presidente do MDB opera, neste momento, a formatação de chapas para deputado federal e deputado estadual. O partido não tem nenhum integrante na Câmara dos Deputados — o que desagrada a cúpula nacional. O tempo no horário gratuito de televisão e os fundos partidário e eleitoral são definidos pelo número de deputados de cada partido. O MDB de Goiás não deu sua contribuição. Está em falta. Por isso, Daniel Vilela está operando para eleger de dois a três deputados federais em 2022. A aliados já disse que ele próprio pode disputar mandato de deputado federal para fortalecer a chapa.

Gustavo Mendanha e Marconi Perillo: um parceria que só é positiva para o segundo | Foto: Divulgação da Prefeitura de Aparecida de Goiânia

A indicação do candidato a governador do partido pode esperar um pouco mais. É o que sugere Daniel Vilela. Por quê? Decisões sobre eleição majoritária exigem mais tempo, porque o quadro político-eleitoral precisa ficar mais claro. Ao mesmo tempo, é preciso sopesar, de maneira racional, as possíveis alianças.

A política não exclui a emoção, mas quem decide sem “consultar” a razão, sem ponderar cenários e possibilidades, tende a se equivocar. A impressão que se tem é que Daniel Vilela está demonstrando mais maturidade do que Mendanha. Louve-se a ousadia do prefeito, que está pondo o pé na porta, mas sem observar com atenção com quem vai de fato caminhar, numa disputa difícil para governador — o que pode enterrar sua bem-sucedida carreira política.

Emedebistas dizem que Mendanha está articulando com o ex-governador Marconi Perillo, do PSDB, e com o ex-deputado federal Sandro Mabel. Comenta-se, inclusive, que estaria se tornando membro da República do Vinho, ao lado do tucano e do presidente da Federação das Indústrias de Goiás (Fieg).

Gustavo Mendanha e Sandro Mabel: o segundo nunca articulou uma candidatura vitoriosa para o governo de Goiás | Foto: Divulgação

Mabel não parece ser um bom conselheiro. Pois, desde que decidiu militar ao lado do emedebismo, o partido nunca ganhou uma eleição para governador. Perdeu todas. Chegou a “colar” em Iris Rezende, apresentava pesquisas positivas, com cenários que pareciam o Céu, mas o veterano emedebista, sob seu aconselhamento, perdeu três eleições para governador. Nem suas pesquisas nem seus conselhos eram “bons”. O ex-deputado era um excelente vendedor de fantasias, mas não se ganha uma eleição complexa, como a de governador, com ilusões.

Marconi Perillo é uma raposa e, como tal, estaria seduzindo Mendanha — que tem escassa experiência política e, pessoalmente, ainda é imaturo. Na primeira eleição para prefeito foi “carregado” nas costas pelo ex-prefeito de Aparecida de Goiânia Maguito Vilela. Na segunda disputa, em 2020, não teve adversários à altura. A rigor, nunca enfrentou um peso-pesado, com ampla musculatura político-eleitoral, como o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, do partido Democratas.

Daniel Vilela (centro), Gustavo Mendanha e Iris-Rezende: o primeiro e o terceiro tendem a caminhar com Ronaldo Caiado | Foto: Jackson Rodrigues/Prefeitura de Goiânia

Na sexta-feira, 21, um repórter do Jornal Opção ouviu vários emedebistas. De vários deles, apurou a mesma coisa: Marconi Perillo pretende ser candidato a senador na chapa de Mendanha. Estaria pressionando por sua “aceitação”. O prefeito não disse que “sim”, mas também não disse que “não”. Um deputado estadual assegura que Daniel Vilela não quer aliança com o tucano-chefe. Seu argumento, segundo o parlamentar, é racional, lógico.

O MDB, com Iris Rezende e Maguito Vilela (pai de Daniel Vilela), passou 20 anos lutando para retirar o grupo de Marconi Perillo do poder. Mas não conseguiu. Porque o tucano montou uma estrutura político-eleitoral e uma estrutura financeira que impediam qualquer um de derrotá-lo.

Se o MDB perdeu cinco eleições para o PSDB de Marconi Perillo, por que seus líderes vão contribuir para sua possível “ressurreição” política? Do ponto de vista da racionalidade, não há lógica no comportamento de Mendanha.

Digamos que Mendanha dispute o governo, com Marconi Perillo como candidato a senador, ao seu lado. Logo depois, de perder, Mendanha estará “fraco”, sem nenhum poder, e o tucano, se eleito, estará forte. Poderá ficar oito anos em Brasília.

Então, uma aliança entre Mendanha e Marconi Perillo beira o irracional. Por isso, Daniel Vilela não a apoia. O emedebista não planeja aumentar a musculatura do político que, durante duas décadas — quase um quarto de século —, contribuiu para fragilizar o MDB e seus líderes. “Mendanha, em defesa de seus interesses pessoais, não pode jogar no lixo a história e os interesses do partido”, sublinha um deputado.

Há outra questão: o desgaste de Marconi Perillo ainda é muito alto — como indicam as pesquisas — e, se apoiar Mendanha, tende a contaminar a imagem do prefeito, que, no momento, é positiva.

Mendanha pode representar oxigênio para Marconi Perillo, mas Marconi Perillo pode representar veneno tanto para Mendanha quanto para o MDB.

Não se pode sugerir que Mendanha é mau prefeito — porque não é. Se ficar oito anos no governo municipal (da segunda mais importante cidade de Goiás), fazendo uma administração exemplar, tende a sair consagrado. O que lhe abrirá as portas de Goiás nas próximas disputas — seja em 2026 ou em 2030. Aos 38 anos, o prefeito tem o tempo como aliado. Vale, portanto, ouvir a voz da experiência.

Diz-se: “Daniel Vilela tem só 37 anos, portanto é um ano mais novo do que Mendanha”. Trata-se de um engano, quiçá um auto-engano de quem diz isto.

Maguito Vilela foi vereador em Jataí, deputado estadual, deputado federal, vice-governador, governador, senador, vice-presidente do Banco do Brasil e prefeito de Aparecida de Goiânia por dois mandatos. Parte dessa experiência foi transmitida de pai para filho, sobretudo a arte de dialogar, de ser diplomático e de não ser intransigente. Ao mesmo tempo, Daniel Vilela foi vereador, deputado estadual, deputado federal, foi candidato a governador e é presidente do MDB. Sua experiência, portanto, é maior do que a de Mendanha — que ainda é um político provinciano. O prefeito deveria ouvi-lo um pouco mais. Talvez seja, neste momento, um conselheiro mais confiável do que as raposas políticas Mabel e Marconi Perillo.

Com uma campanha bem-feita, Mendanha pode se tornar conhecido. Mas, hoje, é pouco conhecido. Tanto que está visitando cidades do interior, como Luziânia, Anápolis e Mineiros, para expor seu nome e sua presença física mesmo. Se quiser mesmo disputar, terá de continuar fazendo isto, ainda que tenha de deixar Aparecida ao deus-dará.

Comenta-se que Mendanha pode sair do MDB, se Daniel Vilela optar por uma composição com o governador Ronaldo Caiado. Fala-se que ele abriu conversações com líderes do Republicanos, do PSL, do PSDB e  de outros partidos. O prefeito nunca confirmou tais articulações. Mas, de fato, ele está pressionando Daniel Vilela, exigindo pressa na definição do candidato a governador.

Ronaldo Caiado estaria convidando o MDB para uma composição política, com a possibilidade de o partido dirigido por Daniel Vilela indicar o candidato a vice-governador e até o candidato a senador. As portas estão abertas — é o que sugere o governador. Os líderes do MDB vão “arrombar” portas abertas e vão trocar um aliado como Ronaldo Caiado por aliados como Marconi Perillo e Sandro Mabel? Com o líder do Democratas, o MDB tem chance de voltar ao poder…

Há quem fale, nos bastidores do MDB, que, no fundo, Mendanha será vice de Ronaldo Caiado em 2022. Ressalve-se: não é o que diz o prefeito. Daniel Vilela seria candidato a deputado federal e, em 2024, candidato a prefeito de Goiânia. São, claro, hipóteses.

O que sugere a razão? A razão indica que o caminho mais apropriado talvez seja aquele que Iris Rezende e Daniel Vilela querem, aparentemente, trilhar: uma aliança com Ronaldo Caiado. Mas é um direito de Mendanha sonhar ao lado tanto de Marconi Perillo quanto de Mabel. Só que o MDB pode ficar mais quatro anos fora do poder — ou seja, 28 anos longe do governo. Daniel Vilela, como líder, vive um dilema: parte para uma aventura — com Mendanha, Mabel e Marconi (todos começando com a letra “m”) — ou segue por um caminho mais seguro? O jovem político está “diante” da história e, em certo momento, terá de decidir até, quem sabe, para salvar Mendanha dos maus conselheiros.

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