Decidido, irado e vingador, eleitor é o grande vitorioso da eleição de 2018

Institutos de pesquisas, se não trabalharem com questionários mais flexíveis, continuarão deixando de compreender que os eleitores brasileiros raramente são indecisos

 

Foto: Divulgação

Leitores são críticos radicais das pesquisas, que, sustentam, erraram tanto em Goiás quanto no país. Eles têm razão? Em parte, sim. Em parte, não.

Os institutos de pesquisa — Da­tafolha, Ibope, Real Big Data, Fortiori, Grupom e Serpes — falsificam números para beneficiar este ou aquele candidato? Dadas manipulações eventuais, e não exatamente dos seis arrolados, os eleitores-leitores se tornaram, naturalmente, desconfiados. Mas talvez seja possível sugerir que os “erros” não foram deliberados.

As pesquisas quantitativas, que atraem mais a atenção, têm certo grau de precisão, sobretudo quando não ocorre nada de tão extraordinário. Não há como mudar sua metodologia no todo, pois não está errada, mas é preciso acrescentar perguntas e estabelecer cruzamentos que captem o que realmente pensa o eleitorado.

Pesquisas detectaram que uma parte significativa dos eleitores estava indecisa. Em editoriais, o Jornal Opção sugeriu que, ao contrário, os eleitores estavam mais decididos do que nunca. Quando ouvidos nas ruas, não davam uma informação precisa — porque uma pesquisa rápida, com questionários rígidos, leva a conclusões não abrangentes —, o que imediatamente permitia sua caracterização como indecisos. Os eleitores estavam e estão desconfiados e altamente definidos. Votam, por vezes, por exclusão.

No caso específico de Goiás, houve um terremoto — a operação Cash Delivery, que levou Jayme Rincon, ex-presidente da Agetop, à prisão e praticamente jogou parte relevante do eleitorado contra o candidato do PSDB a senador, Marconi Perillo — depois da eleição, foi preso e, a seguir, liberado —, e seus candidatos a deputado. As pesquisas não estavam erradas, mas uma circunstância, uma ação da Polícia Federal, levou os eleitores a se reposicionarem.

De qualquer modo, aferrar-se às teorias conspiratórias, sugerindo que as pesquisas estavam manipuladas, é mais cômodo do que pensar e concluir que a realidade pode ser, não raro, menos complicada.

Ronaldo Caiado se torna instrumento da mudança

Ronaldo Caiado, espécie de Jair Bolsonaro de Goiás, o governador eleito encarnou a ideia de mudança | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Há momentos na história nos quais eventualmente há uma espécie de sintonia fina entre determinado indivíduo e o sentimento global dos demais indivíduos — uma espécie de inconsciente coletivo. Em Goiás, na eleição de 2018, Ronaldo Caiado (DEM), o governador eleito com uma votação extraordinária, no primeiro turno, galvanizou a ideia de mudança. Tornou-se uma espécie de Jair Bolsonaro de Goiás (em termos de conteúdo, frise-se, é muito superior ao líder do PSL).

José Eliton, do PSDB, Daniel Vilela, do MDB, e Kátia Maria, do PT, fizeram campanhas qualitativas, com propostas adequadas. Ronaldo Caiado optou por falar em mudança e em cristalizar sua imagem como político ético e homem experiente. Mesmo sendo agredido verbalmente, decidiu ouvir silente, respondendo episodicamente, mas não no mesmo tom da crítica acerba. Conectado à história do momento, soube fazer aquele discurso que, ao contrário dos demais, foi de fato observado com atenção.

A cabeça do eleitor funcionou mais ou menos assim: só um candidato, Ronaldo Caiado, simbolizava a retirada do poder do grupo de Marconi Perillo e José Eliton. Tornou-se o símbolo da mudança radical. Convenceu mais, como oposicionista, do que Daniel Vilela e Kátia Maria.

Sexta derrota consecutiva do MDB em 20 anos

Dada a derrota acachapante do PSDB, tanto para o Executivo quanto para o Legislativo, fica-se com a impressão de que se trata do grande perdedor. De fato, é um grande perdedor, mas é sua primeira derrota eleitoral, para o governo e para o Senado, em 20 anos.

A debacle tucana “esconde” outro fato: o MDB perdeu sua sexta eleição consecutiva — entre 1998 e 2018. O partido, concluído o governo de Ronaldo Caiado em 2022, terá ficado 24 anos fora do poder. O PSDB perdeu uma eleição.

Na eleição de 2018, ao lançar Daniel Vilela, de apenas 34 anos, o MDB tentou cristalizar a ideia de que, ao se renovar, poderia contribuir para a renovação política no Estado. Entretanto, mesmo dando o segundo lugar ao deputado emedebista, os eleitores decidiram que Goiás renovava com outro político, Ronaldo Caiado.

Derrota de Iris Araújo reforça ocaso de Iris Rezende

Iris Rezende e Iris Araújo: a baixa votação da mulher do prefeito é um poderoso alerta vermelho para 2020| Foto:  Jornal Opção

A queda de Marconi Perillo, que ficou em quinto lugar para senador — perdendo para Vanderlan Cardoso (PP), Jorge Kajuru (PRP), os eleitos, Wilder Morais (DEM) e Lúcia Vânia (PSB) —, camufla uma decadência, a de Iris Rezende.

Em 2014, Iris Araújo perdeu a eleição para deputada federal, mas seu marido, Iris Rezende (MDB), não estava na Prefeitura de Goiânia. Obteve 66.234 votos (2,18%). Em 2018, com Iris Rezende no Paço Municipal, Iris Araújo obteve 39.976 votos (1,32%). A decadência é visível: a emedebista perdeu 26.258 votos de uma eleição para outra.

Na Prefeitura de Goiânia, em quase dois anos, Iris Rezende perdeu sintonia com a cidade, quer dizer, com seus moradores. O prefeito está decepcionando. A votação de Iris Araújo é a resposta dos eleitores, notadamente os da capital, à gestão de seu marido. É um recado.

Comemorando a “queda” de Marconi Perillo — esquecendo-se de que o fundo do poço de um político às vezes tem mola —, o decano emedebista, de quase 85 anos, parece não perceber seu próprio ocaso. A derrota do tucano-chefe, a queda de um poderoso, poderá ser seguida pela derrota de outro poderoso, em 2020. Afastado o tucano, o alvo passa a ser outro, talvez Iris Rezende.

Renovação na Câmara dos Deputados e na Assembleia

Jovair Arantes, do PTB: ninguém esperava a derrota do mais municipalista dos deputados federais de Goiás | Foto: Fernando Leite

A prova de que os eleitores estão decididos e bem informados é que, de maneira rigorosa, mudaram a configuração da Câmara dos De­putados, do Senado e da As­sembleia Legislativa. A política tradicional dava como certa a vitória de políticos como Jovair Arantes, Giuseppe Vecci, Eliane Pinheiro, Chiquinho Oliveira — os quatro com forte apoio de prefeitos e com amplas estruturas. Na visão convencional, estavam eleitos. Os eleitores — em parte devido à Operação Cash Delivery — disseram, nas urnas, que não estavam.

Ninguém controla mais os eleitores. Na eleição deste ano, usaram seus votos como instrumento de mudança, o que, para muitos, tem um sabor de vingança. De justiçamento. A rigor, o grande vencedor do pleito de 2018 é o eleitor.

Bolsonaro e Haddad ficaram mais democratas

Jair Bolsonaro e Fernando Haddad adotaram, no segundo turno, um discurso mais democrático e menos rigído | Fotos: Reprodução/Globo News e Ricardo Stuckert

Os candidatos do PT, Fernando Haddad, e do PSL, Jair Bolsonaro, não têm muito apreço pela democracia. O petista fala em democracia, sugerindo que o capitão do Exército não é democrata. A rigor, o petismo tentou, em seus quatro governos, medidas de contenção da democracia — como o controle do Minis­tério Público (chegou a aliar-se a forças coronelistas) e da Imprensa, por meio de uma regulação que não difere das ações de países autoritários. A sociedade, inclusive com o apoio da Imprensa, conseguiu barrá-lo.

Bolsonaro tem arroubos autoritários, mas, como nunca esteve no poder, não se sabe o que realmente pretende.

Mas o segundo turno, indicando que nenhum dos dois tem o apoio da maioria da sociedade, mudou o comportamento, ainda que parcialmente, dos postulantes. Ambos passaram a se apresentar como defensores da democracia e deixaram, inclusive, de defender uma nova Constituição (Haddad afirma que, se eleito, não indultará Lula da Silva). Há quem pense que se trata de um logro. Mas pelo menos houve um reposicionamento, e a partir de uma ação da sociedade — dos eleitores —, que optou por observar mais os dois candidatos no segundo turno.

Sublinhe-se que próceres das Forças Armadas, como o admirável comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, deram depoimentos pró-democracia. Parece conclusivo que os militares de proa não são afeitos à ditadura. Querem, isto sim, um governo mais duro com a criminalidade e com a corrupção.

Surgimento de novos líderes, como Vanderlan e Baldy

Alexandre Baldy, ministro das Cidades, contribuiu para a eleição de um senador e de dois deputados federais | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

A política ensina, ao longo da história, que candidatos muito bem votados nem sempre se tornam líderes e há casos de candidatos que, mesmo derrotados, permanecem como líderes.
O ministro das Cidades, Alexan­dre Baldy, não disputou mandato em 2018. Mas contribuiu, de maneira decisiva, para a eleição de um senador, Vanderlan Cardoso, e de um deputado federal, Adriano do Baldy. Seu partido, o PP, elegeu outro deputado federal — Professor Alcides Ribeiro, principal responsável por sua campanha vitoriosa.

Dependendo de como se posicionar nos próximos quatro anos, Baldy se credenciará para a disputa do governo em 2022.

Daniel Vilela, mesmo tendo sido derrotado, representa o futuro do MDB — até por ser mais jovem do que a maioria dos emedebistas mais representativos. Se permanecer no comando do partido, estará credenciado para a disputa de 2022.

Vanderlan Cardoso, primeiro colocado para senador, é outra aposta para o futuro. Aos 56 anos, ainda é um político relativamente jovem. É provável que dispute, com chance de ganhar, a Prefeitura de Goiânia em 2020. Eleito senador, Jorge Kajuru (PRP), se for candidato a prefeito, é um perigo para os adversários.

A “crise” da transferência de voto 

Os eleitores desmontaram a ideia de que líderes políticos de Goiás transferem votos para seus candidatos. Daniel Vilela não absorveu a popularidade de seu pai, Maguito Vilela, que foi prefeito aprovadíssimo de Aparecida de Goiânia. Max Menezes (MDB) perdeu para deputado estadual mesmo tendo o apoio de Maguito e do prefeito de Aparecida, Gustavo Mendanha. Iris Rezende montou uma estrutura gigante para bancar sua mulher, Iris Araújo, de 75 anos, para deputada federal e, mesmo assim, ela perdeu.

Delegado Waldir e Flávia Morais: campeões de voto em duas eleições

Delegado Waldir Soares, do PSL: campeão absoluto de votos em duas eleições seguidas

Nas eleições de 2014 e 2018, para deputado federal, há dois grandes vitoriosos. Naquela e nesta, Delegado Waldir Soares (PSL) e Flávia Morais (PDT) sagraram-se os mais bem votados. Delegado Waldir elegeu a si — superando o quociente eleitoral em muito — e a outro integrante do PSL. Flávia Morais aumentou sua votação, para mais de 160 mil votos, sem precisar de votos de aliados.

O médico Zacharias Calil (MDB), com uma estrutura incipiente mas com uma campanha presente nos bairros e nas suas — o tempo de televisão era curto —, foi o terceiro mais bem votado. O notável cirurgião obteve o chamado voto de opinião.

Evangélicos elegem um senador e dois deputados federais

Vanderlan Cardoso: campeão de votos para senador | Fernando Leite/Jornal Opção

Não dá para desconsiderar a força dos evangélicos na política de Goiás. Vanderlan Cardoso, para o Senado, João Campos (PRB) e Glaustin da Fokus (PSC), para a Câmara dos Deputados, e Henrique César (PSC) e Jeferson Rodrigues (PRB), para a Assembleia Legislativa, foram eleitos com excelente votação. Trata-se de uma força considerável — ampliada pelo fato de que, com a vitória de Ronaldo Caiado para o governo, seu suplente, Luiz Carlos do Carmo MDB), assume o mandato de senador, em 2019.

Henrique César: eleito deputado estadual mais bem votado de Goiás

Vanderlan Cardoso, João Campos, Glaustin da Fokus e Henrique César são da Assembleia de Deus. Jeferson Rodrigues pertence à Igreja Universal.

Observe-se que uma crítica de Jorge Kajuru aos evangélicos pode ter lhe custado o primeiro lugar na disputa por uma vaga no Senado. O poder de articulação e de coesão dos evangélicos, estribada na defesa inflexível de certos princípios — família, contra o aborto e a ideologia de gênero —, não deve ser subestimado. A firmeza moral dos evangélicos, contra uma suposta flacidez moral de outros grupos políticos, ganhou votos.

Goiano pode ser menos conservador do que se pensa

A maioria dos eleitores goianos é conservadora? Talvez seja menos do que se imagina. Votar em Jair Bolsonaro pode representar mais desejo de mudança do que uma posição típica do conservantismo. A restrição ao PT talvez se deva menos a uma posição arcaica ou retardatária — como o conservadorismo é visto — e muito mais ao fato de o partido ser associado à corrupção e ter envolvido o país numa crise econômica desmedida.

O voto “em” Bolsonaro pode não representar um voto “de” Bolsonaro. O capitão do Exército parece ter sido escolhido pelos eleitores brasileiros — não só pelos goianos — para passar um recado ao meio político que pode ser resumido numa palavra, seguida de exclamação: “Basta!” Espera-se que, se eleito, o militar reformado entenda o recado das ruas e das urnas.

Sedução da imprensa pelas pesquisas abala o jornalismo

O trabalho da Imprensa, no primeiro turno, não deixou de ser meritório. Ressalve-se que faltaram grandes reportagens — que devem ir além dos escândalos e das pautas confrontando os candidatos —, mas um dos problemas mais graves é a “pesquisite”, a dependência das pesquisas.

O jornalismo, a partir de determinado momento, ficou preso aos resultados dos levantamentos dos institutos de pesquisa. A GloboNews, que cobriu relativamente bem o primeiro turno, perdeu longo tempo discutindo pesquisas, às vezes a partir de comentários perfunctórios, inclusive de Mauro Paulino, do Datafolha. Chegou-se ao acinte de, ainda no primeiro turno, com Bolsonaro lá na frente, com Haddad em segundo, mas descolado dos demais, perder-se um tempo enorme com simulações de segundo turno que incluíam Ciro Gomes — tem mais seguidores nas redes sociais do que eleitores —, Geraldo Alckmin e Marina Silva.

Os jornais, os jornalistas, as emissoras de televisão perderam-se, em larga medida, porque distanciaram-se dos eleitores reais, pois as pesquisas eventualmente deixam de “apreender” a voz verdadeira deles. No afã de apoiar candidatos ditos progressistas, como Haddad e Ciro Gomes, jornalistas, até repórteres qualificados, deixam de ouvir a voz às vezes não barulhenta dos eleitores. Reportagens mais detidas, indo além das pesquisas, poderiam ter explicado melhor aos leitores e telespectadores o resultado que saiu das urnas. Por que Dilma Rousseff (PT) e Eduardo Suplicy (PT), candidatos a senador por Minas Gerais e São Paulo, perderam a eleição, se, durante boa parte da campanha, figuraram em primeiro lugar? Por terem se fiado apenas nas pesquisas, os jornais e as emissoras de televisão não puderam esclarecer o que aconteceu.

O jornalista precisa perder, ao menos como profissional, o preconceito em relação ao eleitor que avalia como conservador. É preciso ouvi-lo. É necessário entender suas pautas e, até, idiossincrasias. Como disse o leitor-eleitor Natércio Filho, um passeador de cachorros de Goiânia, os jornais não podem culpar apenas as pesquisas por seus erros de avaliação. A voz das ruas não raro é a voz das urnas. O jornalista precisa ancorar-se menos em ideologia e comportar-se de maneira similar ao antropólogo, que, no lugar de condenar, busca compreender a especificidade de uma cultura, de um povo, de um comportamento. “Condenar” o eleitor “de” Bolsonaro como conservador, sem perceber o caráter mais amplo de seu protesto — uma defesa de um país mais ético e menos corrupto —, é deixar de entendê-lo. O eleitor convida o jornalista a compreendê-lo. Mas, se o jornalista continuar se comportando como ideólogo, atuando a serviço de partidos, ainda que indiretamente, vai se distanciar cada vez mais do Brasil real, dos eleitores reais.

O eleitor está decidido, irado, radicalizado, insatisfeito e decidiu usar o voto como arma de uma vingança individual. Este eleitor que “pune” os políticos é mais do que conservador ou progressista. Isto precisa ser explicado e discutido.

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