“Custo de vida” pode ser o maior adversário de Bolsonaro em 2022

Gestor deve trabalhar pra retardar o processo eleitoral, pra governar e apresentar resultados aos cidadãos. Mas Bolsonaro antecipou a campanha, o que prejudica o governo

“Revolução, Revolução, Revolução, bom, mas qual é a ideia nova que nós trazemos?” — Presidente-general Ernesto Geisel, em 1975

Gilson Oliveira é jardineiro do condomínio Housing Flamboyant, em Goiânia, e, em setembro, tirou férias. Não para viajar. Porque o dinheiro não é suficiente para cobrir as despesas mensais e visitar a família, no Tocantins. Sobretudo, amigo de um mestre de obra, vai trabalhar na construção de uma casa num condomínio Jardins. O objetivo é engrossar o orçamento, porque o salário não está dando para “chegar” até o final do mês. Outro colega de trabalho, Danilo, também trabalhou nas férias, em agosto. Irene Moreno, de Sorocaba, disse ao jornal “O Estado de S. Paulo” que, dado o preço da carne bovina, decidiu comprar apenas pé de frango. “Sempre gostei, mas agora virou a mistura possível, pois é o que dá para comprar. A carne bovina perdeu vez em casa. Primeiro é o frango, depois o porco. Dizem que pé de frango faz bem para os ossos, mas eu digo que faz bem para o bolso”, disse a cozinheira ao repórter José Maria Tomazela.

Crise: pé de frango virou “prioridade” | Foto: Reprodução

Dono do Açougue Vitória, em Sorocaba, Aguinaldo Jesus dos Santos relatou ao “Estadão”: “Aquele que comprava carne bovina de primeira está levando o filé de peito [de frango], mas a maioria vai de pé de frango ou moela, que são carnes mais baratas”.

Há uma crise econômica no Brasil, com desemprego, subemprego e salários comprimidos. A economia caminha para uma estagflação — sem crescimento e com inflação (9,68% em doze meses). A junção de baixo crescimento e inflação em alta reflete no prato dos pobres e de parte da classe média. Os mais pobres comem menos e mal. Frutas, por exemplo, se tornam um luxo — assim como o iogurte das crianças. A alimentação se concentra em arroz, feijão (não tão caro quanto fuzil, mas com preços em alta) e, como disse Irene Moreno, pés de frango.

Para 2022, quando se terá eleição para presidente da República, a expectativa de crescimento era de 5%. Agora, analistas estimam crescimento de 1%, ou até menos. O relatório Focus — levado em consideração pelo Banco Central — sugere um crescimento de 1,72%. Muito aquém da estimativa anterior (5%).

Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central: o Estado brasileiro está numa situação pré-falimentar | Foto: Divulgação

O ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, num evento do grupo Derrubando Muros, disse que, “quantitativamente, o Estado brasileiro está numa situação pré-falimentar e que é preciso repensar as prioridades dos gastos públicos para mudar essa situação”. O economista frisa que “o Estado brasileiro é grande para um país de renda média”.

Armínio Fraga assinala que “o Brasil tem uma característica fora da curva global. Quase 80% de seus recursos são gastos com folha de pagamento e previdência. Esse número supera em uns 20% o topo dos demais países”. No momento, o país pega dinheiro emprestado “para pagar juro, o que eleva ainda mais a dívida, hoje acima de 90% do PIB”.

A economista Elena Landau propõe “um Estado progressista, inclusivo socialmente, com mobilidade social, digitalizado”.

Crescimento e desenvolvimento

A um presidente errático, Jair Bolsonaro — que não assume os problemas de seu próprio governo, daí não trabalhar para resolvê-los —, deve-se atribuir, em larga escala, a crise do país. O chefe do Executivo não se acerta com ninguém; nos últimos tempos, nem com seus aliados. Há uma falta de sintonia com o Brasil real, aquele que trabalha e produz. Um líder mais conectado estaria, no momento, contribuindo para atrair mais investimentos. Mas aquilo que a equipe do ministro Paulo Guedes — sugerindo que está reordenando a economia do país — coloca em pé, durante meses, com uma bravata, de matiz autoritário e irracional, Bolsonaro desfaz em questão de minutos.

presidente Jair Bolsonaro

Presidente Jair Bolsonaro: hora de governar e não de participar de comiciatas | Foto: Alan Santos / Divulgação

Na quinta-feira, 16, o Datafolha divulgou uma pesquisa, feita com 3.667 pessoas — ouvidas entre 13 e 15 de setembro, em todo o país —, mostrando que a rejeição da gestão Bolsonaro subiu para 53%. Ou seja, passou de 50% o número de brasileiros que consideram sua administração ruim ou péssima.

Para piorar o quadro, a rejeição de Bolsonaro subiu na faixa de renda entre cinco e dez salários-mínimos. O índice saltou de 41%, verificado em julho, para 50%, em setembro.

O ato de caráter golpista de 7 de setembro, por certo, não agradou os brasileiros — que preferem a democracia.

Mas o que os brasileiros querem mesmo de Bolsonaro é que governe o país e contribua para melhorar a vida de todos. As pessoas querem o presidente numa cruzada pelo crescimento econômico, pela redução da inflação — do custo de vida — e pela redução das desigualdades sociais. Um presidente em permanente comício — as motociatas são, na verdade, comiciatas, assim como o evento de 7 de setembro deve ser visto como um comício extemporâneo — não contribui para a estabilidade política e econômica e para atrair investimentos (empresários querem segurança jurídica, o que o presidente não oferece). Tradicionalmente, gestores trabalham para retardar o processo eleitoral, para que possam governar e apresentar resultados aos cidadãos-eleitores. Bolsonaro, pelo contrário, antecipou o processo eleitoral, o que, de alguma maneira, prejudica as ações do governo.

O que Bolsonaro parece não perceber é que, no lugar do confronto com as oposições e a sociedade civil, sugerindo um golpe político para se manter no poder — para o qual não conta, aparentemente, com as Forças Armadas, notadamente o Exército —, o que pode melhorar sua popularidade, dando-lhe oportunidade de disputar de igual para igual com Lula da Silva (PT), em 2022, é a retomada do crescimento da economia.

Lula da Silva: favorito para a disputa de 2022 | Foto: Reprodução

Lula da Silva é o favorito para 2022, mas não há favas contadas em política e ninguém ganha eleição por antecipação. Hoje, surfando na imensa onda da crise do governo Bolsonaro, o petista-chefe lidera, com folga, as pesquisas de intenção de voto.

Por que Lula da Silva lidera, depois de ter sido acusado de corrupção e passado uma temporada na cadeia? Porque é visto como o anti-Bolsonaro, isto é, o “único”, no momento, capaz de derrotá-lo presidente. Em síntese, é isto. Mas não só: cristalizou-se a ideia de que, no governo do petista, as condições de vida de todos eram melhores. Além disso, apesar de certos arroubos autoritários — como a tentativa de controlar o Ministério Público e regular a Imprensa (há poucos dias, o ex-presidente retomou a tese, com escassas críticas nos jornais e nenhuma nas emissoras de televisão) —, nem Lula da Silva nem Dilma Rousseff falaram em golpe de Estado. Optaram por circunscrever-se à via eleitoral, o que é positivo.

Quando sugere que é melhor comprar fuzil do que comprar feijão — alimento frequente e importante no prato dos brasileiros, ricos e pobres —, Bolsonaro mostra-se mais uma vez desconectado com o Brasil real, aquele que, embora não vá às ruas, nem pró nem contra o governo, pode derrotá-lo em seu projeto de reeleição.

Jair Messias Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Paulo Guedes: um atrapalha e dois trabalham  | Foto: Reprodução

A rigor, se quiser enfrentar Lula da Silva (ou um candidato de centro, que, dependendo do quadro político, pode ascender, superar Bolsonaro e enfrentar Lula da Silva, com possibilidade de vencê-lo. As pesquisas sugerem que os eleitores não querem o presidente nem o ex-presidente; ficam com o segundo para rejeitar ainda mais o primeiro), com possibilidade de derrotá-lo, tem de fugir de sua agenda ideológica e concentrar-se na agenda econômica e social.

No campo das obras, como mostra o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas — um bolsonarista que age, em termos de concentração de esforços, como se não fosse bolsonarista —, o governo não vai mal. Mas, ao se concentrar na agenda ideológica, não percebe o capital político que pode retirar das ações de Paulo Guedes (Economia), Teresa Cristina (Agricultura), Marcelo Queiroga (Saúde) e Tarcísio de Freitas. A agenda deles, fica-se com a impressão, não é a mesma de Bolsonaro. Mas, sim, é a melhor agenda do governo.

Bolsonaro tem um ano e três meses para provar aos brasileiros que merece um segundo mandato. Mas sua imagem de administrador não está cristalizada, porém a ideia de que governa para uns (os convertidos) e não para todos está consolidada. Há tempo de mudar? Com um político racional, que segue parâmetros lógicos-racionais, o tempo é suficiente para reordenar a agenda, para torná-la eficaz.

Entretanto, como se trata de Bolsonaro, não é crível uma mudança de rumos significativa. Para um Michel Temer aconselhando, sugerindo o caminho do bom senso, há vários aliados, como seus filhos Carlos e Eduardo Bolsonaro, que, sem experiência política (e de vida mesmo), contribuem não para a pacificação, e sim para a exaltação dos ânimos. Às oposições (e ao bolsonarismo) interessam um Bolsonaro aloprado, desbocado e com a imagem de “irresponsável”. Porém, ao país, aos brasileiros — pobres ou ricos —, interessa um presidente racional, sóbrio e sensato. Pode-se torcer contra Bolsonaro — para que seja derrotado, eleitoralmente —, mas é uma insanidade torcer contra a nação. Se os próximos 15 meses forem ruins, não apenas a gestão de Bolsonaro ficará comprometida. O próximo governo terá dificuldade para consertar a casa. A crise atual deriva, em parte, dos equívocos do governo de Dilma Rousseff, do PT.

Os brasileiros, os que pensam no país, sobretudo naqueles que estão passando fome ou são obrigados a trabalhar nas férias, como Gilson, ou comer pés de frango, como Irene, porque não podem comer peito, torcem, por certo, para que o governo Bolsonaro melhore. Para tanto, insista-se, é vital que assuma a Presidência, que deixe os ministros trabalharem, que lute para melhorar a imagem do país no exterior — com fatos concretos, e não marketing —, que invista no social e não incentive a gastança de recursos públicos unicamente para tentar se reeleger.

Fala-se mal do Centrão, mas tal grupo político, um verdadeiro partido, é um fator de moderação. Claro, não controla Bolsonaro — tanto que Michel Temer teve de lhe puxar as orelhas —, mas, de alguma maneira, age como elemento moderador dos arroubos autoritários e persecutórios do presidente. É provável que, se não fossem políticos como Ciro Nogueira, ministro-chefe da Casa Civil (ou ministro dos “Nervos”), e Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, o governo de Bolsonaro seria pior do que é.

Certo, o Centrão tem um componente fisiológico, ou oportunista. Ninguém, afinal, é perfeito e, assim como não dá para trocar o povo brasileiro, não é possível trocar todos os políticos. Eles, a rigor, refletem a média da sociedade. Mas certamente será o Centrão que, entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023, poderá fazer a transição pacífica — espera-se — do governo de Bolsonaro para outro governo. Seja para um político do PT ou para um político do centro político, como João Doria, Ciro Gomes (centro-esquerda) ou Rodrigo Pacheco. Pelo que se disse, Bolsonaro está, politicamente, morto? Não está. Se o país voltar a crescer, se o custo de vida cair, se o consumo voltar a subir — ninguém, dirá Irene, quer comer só pés de frango ou moela —, o presidente passa a ser competitivo.

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