Tendo ou não, estará no centro do debate, com o “sujo falando do mal lavado”. Mas recomenda-se que os candidatos verifiquem os humores das classes médias

O céu de brigadeiro da sucessão nacional vai acabar em breve. A eleição deste ano tende a ser uma guerra. Lula da Silva, do PT, e o presidente Jair Bolsonaro, do PL, a partir de certo momento, vão se atacar, certamente com extrema violência. Será, possivelmente, uma carnificina verbal.

Bolsonaro, para se aproximar de Lula da Silva e tentar impedir que o vença no primeiro turno, vai relembrar todas as histórias dos governos petistas, notadamente a questão da corrupção.

Lula da Silva, para se defender, vai atacar em dois campos, possivelmente. Primeiro, na questão da probidade, conectando o senador Flávio Bolsonaro (PL) ao pai, sobretudo na questão das rachadinhas. Vai se falar também que o presidente supostamente estaria impedindo a Polícia Federal de investigar, de maneira ampla, seus familiares e aliados políticos. Segundo, na questão social, com a sugestão de que não é prioridade do governo.

Os demais candidatos — Sergio Moro (Podemos), Ciro Gomes (PDT), João Doria (PSDB), Eduardo Leite (PSD) — vão criticar tanto Lula da Silva quanto Bolsonaro. Eles terão de falar de si mesmos, para que possam ser avaliados pelos eleitores, porém, por receio de o pleito terminar no primeiro turno, acabarão por centrar a crítica no petista, sem, é claro, deixar de criticar o presidente.

Jair Bolsonaro e Lula da Silva: a guerra eleitoral só está começando | Foto: Reprodução

Resta saber se o discurso contra a corrupção vai mobilizar os eleitores como galvanizou em 2018. O fato de Lula da Silva aparecer em primeiro lugar sugere que o eleitorado de 2022 está menos preocupado com a moralidade. Ao menos no momento. Não se sabe adiante, quando a temática voltar de mais maneira mais contundente.

No momento, os eleitores não estão muito preocupados com eleições — é provável que estejam mais de olho no preço da gasolina — e, por isso, ainda não é possível verificar como vão avaliar a questão da corrupção, se terá peso decisivo no seu voto. Revigorar o tema na campanha, considerando que as classes médias (e não só) “condenam” políticos considerados corruptos, talvez mexa no quadro eleitoral.

Lula da Silva dirá aos eleitores que a Justiça o “inocentou”. A rigor, problemas processuais levaram a se anular as condenações. Resta saber como os eleitores vão avaliar isto. Não há evidências de que Bolsonaro seja, pessoalmente, corrupto. Mas o problema do filho Flávio Bolsonaro, com a rachadinha e a aquisição de uma casa milionária em Brasília, vai respingar na sua candidatura? Talvez sim, talvez não.

Há também o fato de que alguns aliados de Bolsonaro participaram de esquemas de corrupção no governo de Lula da Silva e Dilma Rousseff. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que era aliado dos governos do PT, foi preso e usou tornozeleira eletrônica. Se partilhou dos problemas do governo petista, como “sujeito”, agora, por ter se tornado aliado de Bolsonaro, ganhou salvo-conduto?

A turma do Centrão que anda com Bolsonaro, e andou com Lula da Silva e Dilma Rousseff, certamente será vista com desconfiança por parte dos eleitores. O que está fazendo no governo federal? Ficou “limpa”, de repente, só por ter trocado a esquerda pela direita? São perguntas que muitos irão fazer, sobretudo quando o presidente criticar o ex-presidente.

Pesquisa qualitativa da Fundação Perseu Abramo, encomendada pelo PT, verificou o que pensam eleitores — com renda de até cinco salários-mínimos — que não estão polarizados. Segundo a revista “Veja”, que teve acesso ao levantamento, “os entrevistados disseram que a corrupção é o principal problema da política nacional”. Mas há uma ressalva: eles “responsabilizaram o sistema como um todo, e não um outro partido especificamente, nem ninguém em particular”.

A conclusão dos pesquisadores é que “a criminalização do PT” perdeu força. Mas é preciso ressaltar que, primeiro, a pesquisa é do PT. Segundo, na campanha, com os ânimos exaltados, entre Lula da Silva e Bolsonaro — vai ser uma “pancadaria”, possivelmente desmedida —, os fatos antigos, relembrados com vigor, podem prejudicar a imagem do PT e de seu candidato. Qual será o antídoto do petista? Talvez mostrar, além da rachadinha de Flávio Bolsonaro, que os atuais aliados do presidente tiveram e alguns ainda têm problemas na Justiça. E o Orçamento Secreto pode ser a bomba-relógio da campanha.

O cientista político Sérgio Praça, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), afirma que “a vantagem da narrativa bolsonarista é que há muitos elementos para pintar o PT como um dos partidos políticos mais corruptos da história do Brasil”. O estudioso não discute a questão, mas alguns dos atuais aliados de Bolsonaro, segundo a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a Justiça Federal, chafurdaram no suposto lamaçal do PT. A narrativa de Bolsonaro (contra a corrupção petista) nasce, portanto, “contaminada”, como se fosse uma espécie de bumerangue. Claro, há uma ressalva: o PT vai atacar os antigos aliados, parceiros de bonanças? Não se sabe se terá condições de criar uma narrativa para isto.

Uma segunda pesquisa qualitativa, citada pela “Veja” (que não menciona o instituto, mas informa que circulou no Palácio do Planalto), perguntou a um grupo de eleitores do Nordeste: em quem votará para presidente em 2 de outubro deste ano? “70% responderam que Lula era o candidato preferido”. Porém, quando o ex-presidente foi associado ao PT e aos escândalos de seu governo, “metade dos entrevistados mudou imediatamente de ideia, admitindo a possibilidade de escolher outro” candidato.

Autora do livro “Corrupção e Poder no Brasil: uma História, Séculos XVI e XVII”, a historiadora Adriana Romeiro disse à revista: “A corrupção é do DNA da nossa cultura política: sempre foi um problema da nossa história e esteve disseminada em toda a sociedade. Ela provoca miséria e desigualdade social, uma questão fundamental que impede o Brasil de ser uma nação de primeiro mundo”. A pesquisadora, séria e competente, tem razão em parte. Porém como explicar que o Brasil, apesar da corrupção, conseguiu se tornar o 12º país mais rico do mundo? Outra questão é que, mesmo no primeiro mundo, a corrupção grassa. Um chanceler da Alemanha — país que hoje “coloniza” a Europa via economia — não teve a carreira destruída por causa de sobras de campanha não (ou mal) explicadas? Vladimir Putin, presidente da Rússia, não está sendo acusado de ter 200 bilhões de dólares em países europeus? Se o dado for verdadeiro, ele é o homem mais rico do mundo, superando Elon Musk, Bill Gates e Jeff Bezos.

Os eleitores irão se perguntar, por certo: quem mais contribuiu para implodir a Lava Jato? Tudo indica que, operando em níveis diferentes, tanto Bolsonaro quanto o PT atuaram contra a operação, com a intenção de desmoralizá-la. Mas contaram com o Supremo Tribunal Federal para praticamente enterrá-la. O mesmo STF que, antes, a endossava.

Sergio Moro, o ex-juiz da Lava Jato, hoje está sob ataque, como se fosse “corrupto”, e não aquele que, com coragem inaudita, enfrentou as elites financeiras e políticas do país e, enquanto pôde, reduziu a impunidade judicial no país. As narrativas contra a operação, tanto do lado de Bolsonaro quanto de Lula da Silva, estão funcionando. O ex-magistrado, pré-candidato à Presidência da República, aparece com 7% das intenções de voto — bem atrás do petista e do presidente. De alguma maneira, secundando o que as elites estão fazendo com ele, inclusive na imprensa (notadamente aquela que hoje está associada a um banco de investimentos), os eleitores também, ao menos até o momento, o “condenaram”.

É possível que Bolsonaro e Lula da Silva retirem o “time” da corrupção de campo para evitar se contaminarem? Até é. Mas a tendência é que os dois lados se digladiam sobre quais governos roubaram mais. Se o PT criou o Mensalão e o Petrolão, Bolsonaro tem o Orçamento Secreto, cuja elaboração e distribuição de recursos da União ainda não estão devidamente explicadas. Alguma coisa pouco limpa pode surgir daí.

O deputado Alexandre Padilha, do PT de São Paulo, sinaliza que a campanha do PT vai tentar criar outro gancho: “A grande dificuldade de Bolsonaro é que esse discurso [sobre corrupção] não enche a barriga de ninguém, não bota o prato de comida na mesa de nenhuma família, não gera emprego, não reposiciona o Brasil no mundo”.

Há dois detalhes, não notados por Padilha: Lula da Silva parou de crescer — embora permaneça em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto, e seus números não sejam ruins — e Bolsonaro começa a subir, ainda que lentamente. Fica-se com a impressão de que o eleitorado conservador, que estava esperando outra alternativa, talvez de centro, começa a se reposicionar ao lado do presidente. Não só. Há uma ligeira ascensão de Bolsonaro no Nordeste — onde o petista nada de braçada — por causa, tudo indica, do Auxílio Brasil (a Bolsa Família sob novo nome). Ou seja, ao contrário do que sugere Alexandre Padilha, Bolsonaro está de olho na barriga dos eleitores, notadamente dos mais pobres.

A hora da economia

A corrupção, o discurso moral, não vai sair da campanha — dado o fato de que tende a chocar os eleitores, contribuindo para despertá-los, inclusive para outros debates. Mas pesquisas indicam que os brasileiros estão mais preocupados com a economia — com o que tem ou não tem no bolso. O segundo tema que mais interessa aos eleitores é saúde — a pandemia agravou a situação dos mais pobres, muitos deles com sequelas derivadas da Covid-19. A “Veja”, em sua longa reportagem, mesmo tendo mencionado a saúde, não deu ênfase a respeito de como os votantes vão avaliar as quase 700 mil mortes ocorridas em razão da pandemia do novo coronavírus — muitas delas devido à negligência do governo de Bolsonaro. O tema surgirá com força no debate eleitoral e não se sabe como aqueles que perderam entes queridos vão se manifestar, por meio do voto, no dia 2 de outubro, daqui a seis meses e alguns dias.

Os brasileiros estão também preocupados com as questões sociais. A fome está grassando no país. Se não fosse a atuação dos governos federal, estaduais e municipais, e contando com o apoio abnegado de pessoas que não têm interesse político algum, a situação dos pobres seria ainda mais dramática. As pesquisas mostram que, se gera debates acalorados, a corrupção vem em quarto lugar entre as preocupações dos eleitores. Porque, como assinalou Alexandre Padilha, não enche barriga. E também porque há a tendência de os eleitores considerarem, de maneira equivocada, que “todos” os políticos “são sujos”.

A miséria realmente caiu nos governos do PT. Dados da Fundação Getúlio Vargas, arrolados pela “Veja”, indicam que, “em 2003, no primeiro ano do governo petista, 28% da população brasileira (50,8 milhões de pessoas) viviam abaixo da linha da pobreza, ou seja, tinham uma renda mensal inferior a 261 reais em valores atualizado. Treze anos depois, quando o PT deixou o governo, esse índice havia caído para 10,8% (22,2 milhões de brasileiros). Em 2019, quando Bolsonaro subiu a rampa do Palácio do Planalto, havia 23 milhões de pessoas vivendo nessa condição (11% da população). De acordo com o último levantamento da FGV, em outubro do ano passado, no ápice da pandemia do coronavírus, o número de pobres chegou a mais de 27 milhões (13% da população)”.

Os dados indicam que a miséria cresceu. Porém, quiçá por falta de espaço, a “Veja” não discute se isto ocorreu porque o governo Bolsonaro atuou mal na seara social ou se a causa principal foi o impacto da Covid-19 em toda a economia, inclusive nas atividades do mais pobres. A pandemia travou grandes negócios, mas quebrou muito os pequenos negócios, aqueles que empregam os mais pobres.

O cientista político Sérgio Praça sublinha que “a pessoas não se importam se o presidente é responsável por tudo na economia. Mas elas votam como se ele fosse”. O cientista político tem razão: é assim mesmo. Mas não leva em questão o fato de que, para parte dos eleitores, Bolsonaro não é responsável por determinados problemas, como a alta do preço da gasolina. Em parte, não é mesmo. Porque a crise internacional provocou a elevação do preço do petróleo. Porém, quando culpa os governadores pelos aumentos, o presidente compartilha a crise, eximindo-se, para muitas pessoas, de sua responsabilidade. Já foi explicado que os governadores não têm culpa no cartório, mas muitos eleitores acreditam que têm. Assim como Lula da Silva, anos antes, Bolsonaro é meio teflon. Entretanto, quando a crise atinge o bolso das pessoas, ninguém consegue ser teflon até o fim. Basta verificar que, apesar de uma ligeira (e lenta) ascensão, o governo do presidente continua mal avaliado pela população. A liderança de Lula de Silva, por enquanto confortável, é, em parte, reflexo do governo mediano de Bolsonaro. As pessoas parecem perceber que o chefe do Executivo não cria expectativas positivas, ficando mais no discurso. O que certamente pensam é: por que dar um mandato a quem parece prometer mais do mesmo? Ou seja, muito pouco. Bolsonaro é o governante do conflito, quando deveria ser, como homem de Estado, o político do diálogo. No governo, fala para convertidos. Agora, chegando a campanha eleitoral, terá de falar para todos — o que é mais complicado.

Vale um último comentário a respeito da conclusão da “Veja”: “O fato é que nenhum dos dois candidatos [Lula e Bolsonaro] enfrentou de verdade o problema da miséria, optando pelo caminho mais fácil de cuidar dos sintomas em vez de tentar curar a doença”. É o típico comentário de liberais que ignoram a realidade do país, e pensam como se estivessem na Noruega, na Suécia e na Dinamarca. No Brasil, país que teve escravidão e que, 132 anos depois da abolição da escravatura, ainda não conseguiu transformar todos os brasileiros em cidadãos, há demandas sociais que precisam ser atendidas pelo Estado. Enquanto existirem pessoas não incluídas a uma vida digna — o mercado, por si só, não vai inseri-las na sociedade —, será preciso mesmo “cuidar dos sintomas”. É imperativo.

Finalmente, respondendo à pergunta do título do Editorial, a corrupção terá peso nas eleições deste ano. Talvez o tema não seja tão decisivo quanto em 2018. Porém, se galvanizar a opinião pública, dependendo do uso do marketing político, é possível que fique no centro do debate. Mas o empobrecimento de parte das classes médias — a que voltou a usar ônibus, deixando o automóvel em casa, pôs os filhos na escola pública e não tem mais como pagar o plano de saúde — pode ser decisivo na disputa eleitoral deste ano. As classes médias, espécie de proletariado do Brasil, não têm defensores. Aquele que adotar um discurso confiável — ou parcialmente confiável — para os que estão no “meio” da sociedade, se sentindo não representados ou sub-representados, pode acabar sendo eleito presidente. Membros das classes médias têm a impressão de que políticos falam para os pobres e para os ricos, mas jamais fazem a sua defesa.