Como a política lida com homens que não vendem suas almas

Biografia de Caiado prova que é possível ser pragmático e obter resultados sem sacrificar seus princípios éticos

O martírio de São Thomas More pode ser uma lição para Ronaldo Caiado? O tempo tratará de confirmar se o ambiente político em Goiás evoluiu ou não I Foto: Wikipedia/Assessoria

Ano novo é sempre um convite a reavaliações pessoais mais profundas, procurando investigar com calma (nem sempre possível) onde houve acertos ou falhas na etapa vencida. Merece cuidado, por exemplo, a reflexão sobre os princípios éticos que guiam os indivíduos e ajudam a moldar a vida em sociedade. De novo: as escolhas foram certas ou erradas durante o ano? Na seara política, essas ponderações ganham relevo ainda maior quando se muda toda uma estrutura de poder, como ocorreu em Goiás em 2018, e se vive a expectativa de uma nova forma de fazer as coisas.

Nessa época reflexiva, a premiada cinebiografia de São Thomas More (ou Tomás Morus, como se ensinava antigamente) é uma excelente pedida. Disponível na Netflix, “O Homem que não Vendeu sua Alma” (1966) foi dirigido por Fred Zinnemann e escrito (originalmente para o teatro) por Robert Bolt. Ganhou seis Oscars, inclusive o de melhor filme, melhor roteiro adaptado e melhor ator (Paul Scofield), contando simplesmente a história de um “noble man” que sacrifica a própria vida em defesa de suas convicções pessoais.

A expressão “homem nobre” vai entre aspas porque, aqui, assume um duplo sentido: Thomas More pertencia à nobreza inglesa no início dos anos 1500 e era também um homem de atitudes nobres, de ética inabalável. Ganhou notoriedade por sua obra literária e filosófica “Utopia”, marco de um idealismo platônico tardio para a política da época – marcada pelo absolutismo. Ele mesmo sabia que o modelo de sociedade que idealizou não seria possível na prática, cunhando um termo que passou a descrever todo projeto que, de plano, entende-se como irrealizável. Utopia é um neologismo dele, com palavras gregas significando algo como “lugar que não existe”.

More imagina uma ilha (chamada Utopia) na qual os homens, em nome de um projeto social elevado, se sujeitam pacificamente a regras políticas e religiosas capazes de toldar seus desejos individuais. A propriedade é coletiva e toda a produção, dividida entre os habitantes da ilha. Isso mesmo, assim como Platão sugere nos diálogos de “A República”, trata-se de uma espécie ancestral de socialismo – e que, por isso mesmo, ajudou a conferir um DNA “utópico” a toda proposta socialista que surgiria em períodos históricos posteriores.

Mas voltemos a “O Homem que não Vendeu sua Alma” para entender como Thomas More se encaixa neste momento de Goiás, no qual Ronaldo Caiado assume o poder, rompendo uma dinâmica político-eleitoral que somava 20 anos de PSDB e 16 anos de MDB. Uma análise que também ajudará a entender a relação entre o que acontece aqui e o que está em curso na decolagem de Jair Bolsonaro na Presidência da República.

A cinebiografia foca no momento crucial da trajetória política de More, quando seu espírito altivo e sua ética irretocável se chocaram violentamente com o establishment do rei Henrique VIII. É uma página histórica ímpar na formação da Inglaterra, quando o monarca decide romper com a Igreja Católica Romana para poder anular seu casamento com Catarina de Aragão (que não lhe deu um herdeiro masculino) e se casar com a amante, Ana Bolena. A decisão (anunciada oficialmente em 1533) fez surgir a Igreja Anglicana, chefiada pelo próprio rei, ilhando ainda mais o reino inglês diante da Europa continental.

Thomas More era o lorde chanceler, um dos principais cargos da corte, contando com a admiração e até mesmo a amizade de Henrique VIII. Entretanto, o filósofo era profundamente católico e diante da negativa do Vaticano quanto ao pedido de anulação do casamento e a decisão real de contrariar o papa Clemente VII, não teve outra escolha: abdicou do alto cargo para seguir sua vida quase clerical, sem se envolver com uma corte que passou a considerar sacrílega.

Mas o grande desafio ético de More aconteceria no ano seguinte. Incomodado com casos como o do seu ex-chanceler, que não aceitavam a anulação do casamento e que, com isso, poderiam colocar em xeque a legitimidade de seus herdeiros com Ana Bolena, Henrique VIII decidiu endurecer. Fez o parlamento aprovar um ato obrigando que todo cidadão, se convocado, fizesse um juramento aceitando a conformidade do novo casamento e renunciando a toda autoridade estrangeira.

Claro que um dos primeiros a ser convocado foi Thomas More que, recusando-se a prestar tal juramento, foi condenado à morte por alta traição, em julgamento ordenado pelo rei. Sua decapitação foi aberta ao público, em um andaime frio montado no palácio de Town Hill. Antes de morrer, recitou com devoção o salmo 51 diante do carrasco. Sua cabeça ficou exposta durante um mês na London Bridge para servir de exemplo a outros insurgentes contra o novo casamento do rei.

Considerado um dos atos mais cruéis da monarquia britânica, o martírio do filósofo-teólogo em defesa da Igreja Católica rendeu-lhe a canonização, 400 anos depois, em 1935. São Thomas More também tornou-se um símbolo do que pode acontecer a homens de convicções fortes que enfrentam a realpolitik. Sua morte é um libelo contra relativizações éticas e, guardadas as devidas proporções que a evolução histórica exige, serve até hoje de exemplo quanto aos cuidados que é preciso ter no jogo político.

E o que More tem a ver com o governador Ronaldo Caiado? A resposta: homens públicos que se notabilizam pela probidade e pela trajetória de vida irretocável, como o novo governador de Goiás, vão sempre lembrar o santo-filósofo inglês. Especialmente após um pleito majoritário, quando suas qualidades e convicções são apregoadas diariamente na campanha e o eleitorado aguarda, ansiosamente, que sejam replicadas de forma integral no governo. O problema (e este é o cerne deste editorial) é que nem sempre as condições reais da esfera de atuação política, dada a infinidade de interesses envolvidos e as dificuldades de ordem financeira, permitem que essas qualidades sejam ativadas integralmente em uma administração pública.

Não, não se está dizendo aqui que Caiado é um Thomas More pronto a ser imolado pela força excruciante da realidade política. Como foi lembrado anteriormente, a evolução histórica e o processo civilizatório não admitem que, hoje, princípios éticos se curvem de modo implacável ante a crueldade – ou seria melhor dizer crueza – do jogo do poder. Os tempos atuais apresentam novos “Henriques” – que, mesmo julgado duramente pela história, conseguiu o intento de sobrepor o poderio do papado em sua Inglaterra e garantir a continuidade da Casa Tudor por pelo menos mais uma geração (sua conturbada sucessão, envolvendo três herdeiros, teve como principal nome, Elizabeth I, a “rainha virgem”, filha de Ana Bolena).

O que se quer dizer com isso é que a atualidade também impõe novos “Thomas Mores”, com habilidade para flexibilizar suas ações, mas que jamais feririam de morte os seus princípios. Como ensina o pragmatismo do salmo 51, conhecido como “Miserere” e que foi a última prece de More, os cristãos devotos devem entender que Deus não sente prazer com a dor sanguinária dos sacrifícios. Para os estudiosos da Bíblia, o mais famoso salmo penitencial prega claramente que, se não houve o resultado esperado com o sacrifício (o reavivamento da fé), o sangue vertido no altar foi completamente em vão.

Caiado sabe bem disso, tanto que construiu com maestria sua trajetória política sem mudar suas convicções e sem se envolver em negociatas que pudessem manchar sua biografia. Mesmo agindo assim, obteve grande destaque em todas as áreas nas quais atuou no circo máximo da realpolitik, o Congresso Nacional. Por isso, o meio político goiano precisa entender logo que negar a capacidade de adaptação e de articulação de Caiado é apenas reproduzir um ataque que seus adversários inventaram durante a campanha.

Esse entendimento é importantíssimo neste momento em que as mais variadas forças políticas se reorganizam no Estado e seus diversos interesses tentarão envolver o novo governador de todas as formas. Trata-se de um movimento natural, pois os espaços deixados pelo grupo político derrotado nas urnas estão agora centralizados praticamente em uma única mão, a do candidato vitorioso. Já há quem diga que Caiado não resistirá e que acabará revendo seu modo de fazer política, pois precisará abrir espaço às forças que o elegeram e a outras que serão necessárias à governabilidade.

Esse é um diagnóstico apressado e, como mencionado antes, injusto com a biografia do novo governador. E mais do que isso: por trás dessa pressa em criticar o que ainda nem começou direito pode estar escondido algum interesse escuso ou, quem sabe, a crueldade de um Henrique VIII. A atitude correta, nesses primeiros movimentos da nova administração, é deixar valer o voto de confiança dado pelo eleitor em outubro.

Ou seja, é preciso dar a Caiado a oportunidade real de implantar o seu estilo pessoal no governo e reconhecer que seu gesto de aproximação com a gestão Bolsonaro é uma prova de seu pragmatismo, inclusive chamando para o primeiro escalão técnicos ligados à equipe do presidente. Aliás, agir diferentemente desse roteiro seria contrariar o que a maioria demonstrou nas urnas. Parafraseando o título dado no Brasil ao filme sobre More, o eleitorado provou em 2018 que não perdoará políticos que vendem ou parecem ter vendido suas almas.

Outro erro comum é tentar engessar a nova gestão em comparativos com os últimos 20 ou 30 anos de governo. Isso é um retrocesso. Goiás sempre foi um Estado vanguardista e os goianos confiam que Caiado possibilitará ao Estado um salto maior ainda em seu desenvolvimento. Salto que, primeiramente, deverá ser para fora do buraco em que as contas públicas estão enfiadas – devido à maior crise econômica do país (pelo que se vê na maioria dos Estados brasileiros), mas também por desarranjos locais que precisam ser sanados imediatamente.

Não deixe de assistir à cinebiografia de Thomas More. A opção do diretor Zinnemann pelo estilo que reproduz uma encenação teatral pode parecer empolada, mas é, na verdade, uma homenagem ao potente texto de Bolt e à qualidade do elenco. Eis o link no serviço de streaming.

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SERGIO BORGES LUCAS

Excelente editorial! O paralelo com a historia de Thomas More, em que pese a dramaticidade, tem sentido. Não é fácil em politica agir como se quer e não como querem (ou esperam!) os outros. E quando digo aos outros, me refiro à todos, aliados e adversários. No caso do Governador Ronaldo Caiado essa dramaticidade será muito atenuada em virtude de alguns fatores peculiares à época que estamos vivendo e suas circunstancias, além é claro, de suas características pessoais. À sua longa historia de retidão, coragem e personalidade, somam-se em primeiro lugar, o fato de ter ganho no primeiro turno. Isto… Leia mais