Centro pode não ganhar eleição em 2022, mas deve ser o fiel da balança na disputa presidencial

Jair Bolsonaro, Sergio Moro e, até, Fernando Haddad certamente vão disputar o apoio do centro político. Aquele que levá-lo pode ser eleito 

Jair Bolsonaro e Sergio Moro: o presidente talvez tenha contribuído para forjar aquele que pode derrotá-lo em 2022 | Foto: Adriano Machado/Reuters

Se for candidato a presidente da República, como o ex-ministro da Justiça Sergio Fernando Moro irá se apresentar aos eleitores? É provável que ainda não saiba. Entretanto, como irá — se aceitar participar da disputa (a família torce para que vá para o exterior) — enfrentar um candidato de direita, o presidente Jair Bolsonaro, a tendência é que se apresente como um político de centro-direita.

Na eleição de 2018, a polarização se deu entre um candidato de direita, Bolsonaro, e um candidato de esquerda, Fernando Haddad, do PT. Levou a melhor o postulante direitista, mas, mesmo assim, o esquerdista obteve uma grande parcela dos votos. A disputa de 2022 será realizada daqui a um ano, onze meses e alguns dias. Menos de dois anos. Mesmo em crise, a esquerda permanece forte. Aliás, deve se falar em esquerdas. Porém, por mais que tenha desgaste, o PT ainda tem força eleitoral no país — tanto que, em recente pesquisa XP Ipespe, Bolsonaro aparece em primeiro, com 31%, e Haddad surge em segundo, com 14%. Sergio Moro segue próximo, com 11%. Em seguida, com 10%, surge Ciro Gomes, do PDT.

Em tese, com Bolsonaro descolando, há uma tendência de polarização entre, mais uma vez, direita e esquerda? Segundo a mesma pesquisa, o quadro pode não ser exatamente este. Embora apareça em terceiro lugar, logo atrás de Haddad — num característico empate técnico, considerando uma margem de erro de 3% —, Sergio Moro, segundo a pesquisa XP Ipespe, ganharia, apertado, de Bolsonaro no segundo turno.

Sergio Fernando Moro e Luiz Henrique Mandetta: uma possível aliança de centro-direita para a disputa presidencial de 2022 | Foto: Reprodução

Por que, se está bem na frente, Bolsonaro pode perder para Sergio Moro? A pesquisa, de caráter quantitativo, não explica. Tentemos, pois, especular a respeito.

Percebe-se que, no momento, Bolsonaro trabalha para atrair parte do centro político para seu lado. Pensa-se que está fazendo isto sobretudo por causa da governabilidade, quer dizer, da aprovação de seus projetos no Congresso Nacional. De fato, o presidente articula para facilitar a aprovação de seus projetos na Câmara dos Deputados e no Senado.

Mas, como político, Bolsonaro está pensando para além das árvores da Câmara e do Senado. Está pensando na floresta da reeleição. Se conquistar apoio significativo do centro político, o presidente conseguirá esvaziar uma candidatura de centro e poderá se apresentar, na campanha, não como um postulante de direita, e sim de centro-direita. É uma grande jogada.

Se ocupar o centro, tornando-se o seu nome, Bolsonaro ficará forte tanto na direita quanto no centro político. Será o candidato da direita e do centro.

Se avançar sobre o centro, conquistando um apoio substancial, Bolsonaro esvaziará uma possível candidatura de Sergio Moro. Portanto, a pesquisa da XP Ipespe é relevante, mas, sendo extemporânea, se tende a capturar a movimentação dos eleitores, na circunstância, talvez não consiga apreender o jogo que está sendo traçado pelos políticos, como o presidente.

Fernando Haddad, do PT, e Ciro Gomes, do PDT | Foto: Reprodução

Retomando agora a questão de Sergio Moro ter chance de ganhar de Bolsonaro no segundo turno? Qual é o motivo básico disto?

Bolsonaro permanece forte, e, como se disse, está tentando atrair políticos de centro e, em seguida, seu eleitorado. Porque o presidente, que aprecia pesquisas, tanto as quantis quanto as qualis, sabe que há uma forte rejeição ao seu nome entre eleitores de centro, de centro-esquerda e de esquerda. Na hipótese de segundo turno entre Bolsonaro e Sergio Moro, por mais que muitos não apreciem o segundo, a tendência é bancá-lo, para evitar a reeleição do presidente.

Portanto, há a possibilidade de que o centro não tenha um candidato eleitoralmente consistente. Mas é possível que o centro seja decisivo para qualquer um dos candidatos — inclusive Fernando Haddad — ganhar a eleição. Haverá, por certo, uma campanha pelo voto útil no segundo turno — de “todos contra” Bolsonaro. O ex-magistrado Sergio Moro tem problema com o PT, por ter condenado o ex-presidente Lula da Silva à prisão, mas, entre o ex-ministro e Bolsonaro, a esquerda, ao menos parte significativa dela, certamente acompanhará o ex-ministro. O centro ficará dividido, mas, dependendo dos políticos que vão acompanhá-lo, no segundo turno, há a tendência de bancar o ex-juiz, na hipótese, reafirme-se, de uma disputa entre ele e o presidente.

Veja-se o caso de São Paulo, Estado que é governado por João Doria, que pretende disputar a Presidência da República pelo PSDB. João Doria é, sem dúvida, o principal representante do centro. Mas, se for candidato e ficar fora do segundo turno, certamente não apoiará Bolsonaro, embora o tenha bancado em 2018 (aliás, para se eleger, João Doria teve de se tornar bolsonarista de ocasião). Há um forte contencioso entre ambos, quiçá uma cunha incontornável. A tendência é que, numa disputa entre Bolsonaro e Sergio Moro, o governante paulista fique com o segundo.

Uma chapa com Sergio Moro para presidente e o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, do Democratas, na vice é, seguramente, forte. Contempla um quase-político, Sergio Moro, sem desgaste ou mácula moral no currículo — um combatente intransigente da corrupção —, e um político experimentado, popular e de boa imagem pública. Mandetta é, por certo, a porção centro do DEM. Se aceitar a vice, será um aliado valioso e pragmático para o ex-ministro da Justiça. Contribuirá, inclusive, para torná-lo mais realista, para retirá-lo do jardim de infância da política.

Bolsonaro fala num vice evangélico — talvez terrivelmente evangélico. Porque sabe que, em 2022, terá desgaste — há os problemas dos filhos e do governo (a crise econômica, a pandemia, a quantidade de mortes — passando de 150 mil pessoas) — e, por isso, precisará contar, na vice, com quem tem voto e pode atrair votos. Um político evangélico respeitado certamente contribuirá para encorpar sua aliança. Se for do centro político, com capacidade de atrair apoios para além da direita — é um equívoco perceber os evangélicos tão-somente como de direita, devido à pauta comportamental —, Bolsonaro poderá reforçar a musculatura e, até, ser reeleito presidente.

O fato é que ninguém ganha eleição por antecipação. A musculatura de cada um ficará maior ou menor de acordo com o que fizer daqui pra frente. Sergio Moro é o homem da Operação Lava Jato — o político ficha limpíssima. Fernando Haddad pertence ao PT, que não pode ser subestimado, sobretudo se passar a trabalhar por uma aliança de centro — como Lula da Silva quando trouxe o empresário José Alencar para seu vice, em 2002. Bolsonaro, que é mais articulado do que parece, crescerá se atrair o centro para uma aliança sólida.

O fato é que o centro talvez não eleja presidente em 2022, porque a direita permanece forte — tanto que tem dois candidatos sólidos, Bolsonaro e Sergio Moro — e a esquerda tem certo cacife, como prova a relativa vitalidade de Haddad, mas certamente será o fiel da balança. Ganhará, possivelmente, aquele candidato que conseguir o apoio do grupo mais sólido do centro político. Quem não tiver um olho para o centro, acreditando que pode ficar exclusivamente no seu “quadrado”, possivelmente terá menos chance de se eleger para a Presidência da República. Na próxima disputa, outsiders, do estilo Bolsonaro e Sergio Moro, terão, caso queiram se eleger, de se tornar insiders.

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