Centro e esquerda devem ficar fortes para presidente… para enfrentar Bolsonaro

Os possíveis adversários do deputado-militar, no segundo turno, devem ser Ciro Gomes, Geraldo Alckmin, Meirelles ou Marina Silva

Montagem: Célio Galdino

Formado em Economia por Oxford, ex-economista sênior do Banco Mundial e principal comentarista do jornal britânico “Financial Times” — no Brasil, seus artigos saem no “Valor Econômico” —, Martin Wolf é um analista liberal de primeira grandeza. Entrevistado pela repórter Ana Carla Costa, da “Veja”, faz comentários em geral certeiros sobre o país. Há um certo exagero quando trata de examinar o pré-candidato do PSL a presidente, Jair Bolsonaro.

Bolsonaro, na opinião de Wolf, não é flor que se cheire. “Ele me parece completamente maluco, alguém capaz de destruir o país completamente. Perto dele, Donald Trump beira a normalidade e até mesmo a serenidade. Trata-se de alguém que não sabe o que diz e que parece não ter noção do que significa governar”, afirma. O Brasil suportou dois presidentes, Fernando Collor, do PRN, e Dilma Rousseff, do PT, que não são exatamente símbolos de competência política e administrativa. Quase destruíram o país, mas completamente é exagero. Países sólidos, com economias gigantes, suportam qualquer ação equivocada, porque funcionam, em parte, à revelia do poder público. Ainda assim, tanto Fernando Collor quanto Dilma Rousseff deixaram a nação em circunstâncias muito difíceis.

O presidente Itamar Franco, com o apoio de Fernando Henrique Cardoso e Pedro Malan, conseguiu pôr as coisas nos eixos — com a criação do Plano Real, um amplo programa de estabilização da economia. O político mineiro, decente e experimentado — havia sido governador de Minas Gerais e senador —, tinha legitimidade para estabelecer um pacto político e social.

Embora trabalhando de maneira correta para pôr as coisas no lugar, ao presidente Michel Temer, do MDB, falta legitimidade. Itamar Franco era vice de Fernando Collor, mas não tinha voz ativa no governo. Michel Temer, pelo contrário, contribuiu para a montagem do governo de Dilma Rousseff. O mineiro era outsider; o paulista, insider.

Jair Bolsonaro

Há preconceito contra Bolsonaro? Há, sim. Primeiro, porque é militar. Segundo, porque é conservador. Mas talvez seja possível sugerir que o deputado federal participa de discussões infrutíferas e cai nas armadilhas mais óbvias. Como pré-candidato a presidente, deveria se concentrar em debater a crise e, sobretudo, propor soluções desde agora. Um de seus mentores, Paulo Guedes, é um economista de primeira linha. O líder do PSL deveria, no lugar de discutir quinquilharias do fofoquismo, à Donald Trump, deveria falar sobre como gerar empregos, vendendo esperança a partir de dados reais. A questão da falta de segurança não será resolvida a toque de caixa. Problemas reais de certa magnitude não são resolvidos por decreto ou no grito. O poder modera e torna o político mais realista, mas, ao se tornar realista pelas demandas reais da vida, o político perde o aplauso da sociedade. No momento, Bolsonaro — que, ao contrário do que frisa Wolf, não é maluco — está dizendo o que as pessoas querem ouvir, que é possível acabar com a corrupção rapidamente e resolver a violência das ruas e bairros com canetadas.

Paulo Guedes, que está elaborando o programa econômico da campanha de Bolsonaro, é um liberal sem adjetivos. Wolf sublinha que é preciso abrir a economia. É o que o economista do pré-candidato do PSL sugere ao seu pupilo. Portanto, apesar do discurso de radical de caserna, Bolsonaro pode ser menos maluco do que imagina Wolf. Porém, se eleito, seguirá o receituário liberal defendido por Paulo Guedes, ou seguirá, assumindo o nacionalismo típico dos militares patropis, o receituário estatista? Wolf diz que o próximo presidente deve “abrir a economia”. O deputado-militar fará isto e terá base parlamentar para fazê-lo? Faria a Reforma Tributária? Aliado dos militares, faria a Reforma da Previdência? O economista inglês sugere que os candidatos a presidente deveriam defender mais investimentos “em infraestrutura” e criação de “políticas públicas que aumentem a poupança privada”. O próximo presidente, propõe Wolf, deve “colocar o Brasil no caminho da inovação, reduzindo sua dependência das commodities”.

Outsiders e Meirelles

Na quarta-feira (23/5) no Franz Café do Setor Marista, enquanto conversava com o ex-deputado Vilmar Rocha, presidente do PSD em Goiás e apoiador de Geraldo Alckmin, pré-candidato a presidente da República pelo PSDB, um repórter do Jornal Opção ouviu garçonetes e pessoas que se aproximavam da mesa para vender— chicletes, panos de prato e brinquedos. Inquiridas sobre política, todas torciam o nariz. “Não sobra ninguém” — é a conclusão geral. Portanto, ao dizer que o brasileiro perdeu “a confiança em todos os políticos”, Wolf está falando a verdade. “Essa percepção abre espaço para outsiders e neófitos cuja incompetência é, em geral, muito danosa para qualquer país.”

Se os outsiders, políticos que não se consideram políticos — insiders “fingindo” que são outsiders, na verdade —, ganham o aplauso popular, sobretudo por não terem histórico, nem positivo nem negativo, o que podem fazer insiders como Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles (que não pode ser vendido como outsider devido às alianças, ao MDB) e até mesmo Ciro Gomes?. Muito pouco, quase nada.

O engenheiro Henrique Meirelles é, em larga medida, responsável pelos maiores acertos do governo de Michel Temer. Primeiro, porque tomou as medidas certas para ajustar o que é possível ajustar no governo. Segundo, deu respeitabilidade nacional e internacional à gestão do emedebista, cuja credibilidade é baixa. Pré-candidato a presidente pelo MDB, Meirelles tem vocação para o governo, para a adoção de medidas duras e apropriadas, mas resta saber, se no momento em que o populismo volta a dar as cartas — com Bolsonaro na comissão de frente, apesar do economista liberal a tiracolo —, se tem vocação efetiva para a política, para fazer campanha eleitoral. Disposição é uma coisa; vocação, outra. Ele parece ter mais disposição do que vocação. É responsável, parece íntegro, mas, se depender dele, será muito difícil fazer uma campanha agressiva e dialogar com os eleitores. Em síntese, é provável que Meirelles daria um bom presidente da República. Mas, antes disso, precisa se tornar um bom candidato a presidente, o que, até agora, não parece que está conseguindo ser.

Centro político

Num momento em que o centro político está enfraquecido — nenhum de seus “representantes” aparece realmente bem nas pesquisas eleitorais, porque são vistos como políticos tradicionais, raposas capazes de tudo, inclusive de assaltar o Erário —, a possibilidade de dois candidatos de centro, de partidos com amplo desgaste, o PSDB (Alckmin) e o MDB (Meirelles), contribui especialmente para enfraquecê-los. É possível que, no lugar de conquistar votos novos, um tire votos do outro. A saída? Talvez uma aliança entre Alckmin, para presidente, e Meirelles, para vice. Aí, para além da fadiga de material, somariam estruturas poderosas — que poderiam incluir outros partidos, como o DEM (que não tem chance alguma com o sorvete de chuchu de fim de feira, Rodrigo Maia) — e, com ampla influência nos Estados, poderiam anular a força sem laços-lastros dos outsiders, como Bolsonaro.

Tese de Wolf: “É preciso alguém no­vo, mais alinhado ao centro, que con­temple os anseios da população e tenha legitimidade para empreender as reformas que são fundamentais”. A repórter inquire: “Quais características deve ter esse político de centro?”. Wolf: “Credibilidade. Que não se­ja vis­to como corrupto e tenha ca­pa­cidade de execução”. Quem: Al­ckmin ou Meirelles? No momento, não estão bem. A imagem de Al­ckmin não é das melhores. A de Meirelles não é ruim, mas a população, apesar de ele ter sido ministro da Fazenda, não o conhece. Mas o jogo mesmo, aquele pesadão, que fica nas mãos de profissionais da política nos Estados, ainda não começou. O centro, assim como a esquerda, não está morto. Os outsiders, como Bolso­naro, estão vivíssimos. Resta saber se resistirão até outubro ou à batalha do segundo turno.

Flávio Rocha, ou Flávio da Riachuelo, apresenta-se como um outsider liberal, quer dizer, de centro-direita. Avançado no campo econômico e conservador no plano comportamental, o empresário é o pré-candidato do PRB, partido ligado à Igreja Universal.

Marina e Ciro

Álvaro Dias, do Podemos, é, politicamente, mais experimentado. É um insider que se comporta, na pré-campanha, como outsider. É um pré-candidato a presidente que deixa a impressão de que é candidato a governador do Paraná. É um nome de centro (no máximo, centro-esquerda), e sua “barreira” talvez seja Ciro Gomes. Eles dois são parecidos, mas o líder do PDT é mais “nacional”, empolga mais. Fala-se, em tom jocoso e excessivo, que, com seu vozeirão, Álvaro Dias só empolga apresentadores de rádio e televisão.

É fato que os eleitores são cada mais independentes e críticos. Querem votar em candidatos com histórico limpo, sem envolvimento em falcatruas. Mas as campanhas com base em amplas estruturas ainda são capazes de mobilizar uma grande massa de eleitores, que podem decidir uma eleição. O que dizer de Ciro Gomes, do PDT, Marina Silva, da Rede, e Fernando Haddad, do PT?

Marina Silva comporta-se como se fosse possível ganhar uma eleição para presidente da República sem a formatação de um amplo leque de alianças — até um outsider como Bolsonaro está peregrinando pelos Estados em busca de aliados. Ela deixa a impressão de que não precisa de ninguém, exceto dos “escolhidos” da Rede. O que pesa a seu favor é a decência pessoal.

Ciro Gomes é um político tradicional do Nordeste (insista-se, com presença nacional), mas posa de moderno e, por vezes, radical. Está numa encruzilhada. Ora busca um empresário para vice, ora pensa em alguém do PSB — o que levaria a uma aliança de esquerda, e não de centro-esquerda, o que não ampliaria a conquista de apoios eleitoralmente consistentes nos Estados. Ele quer ficar palatável a todo o país, sugerindo que é confiável para governar e que não vai cometer loucuras. Parece na iminência de lançar uma carta ao país, assim como fez Lula em 2002. É menos radical do que parece. Uma composição do PDT com o PSB e o PT reforçaria a musculatura do pré-candidato. Mas o PT tende a lançar candidato, possivelmente Fernando Haddad ou Jaques Wagner, para fazer a defesa do partido (e de Lula da Silva) nas eleições. O fato é que Ciro Gomes não pode ser subestimado, pois o eleitorado parece perceber que se trata de um político que tem coragem de fazer as coisas mais difíceis e, portanto, de enfrentar a súcia que tem governado o país nos últimos anos.

O fato é que está cedo para julgamentos peremptórios. Mas, como sugerimos, o centro e a esquerda devem ficar mais fortes durante a campanha. A disputa possivelmente se dará entre o centro e Bolsonaro no segundo turno, ou entre Bolsonaro e a esquerda. Intelectuais apostam que o pré-candidato do PSL irá se desidratar durante a campanha, mas e se isto não acontecer? Subestimar o postulante do PSL origina-se de que seus críticos não estão com o ouvido atento àquilo que as ruas estão dizendo. O sucesso de Bolsonaro é, no momento, o protesto, ligeiramente silencioso, das ruas.

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Adalberto de Queiroz

Muito bom este editorial.

Ali Mendes

Penso que Alckmin tem o que o Brasil mais precisa hoje: autoridade, bom senso, diálogo, honestidade e boas propostas para trabalhar a favor das nossas necessidades. O Brasil precisa de um rumo certo e seguro e, eu não arrisco outro! Por isso, eu voto Alckmin nessa eleição.

Marcia

Meu voto em outubro vai pro Alckmin. Além de achar que ele é o que mais tem experiência para o cargo de presidente. Acompanhei seu trabalho em São Paulo e quero que ele faça o mesmo pelo Brasil.

Jander

Eu acredito na candidatura de Geraldo Alckmin, é o candidato mais coerente e honesto entre todos.