Caso Onyx revela a Bolsonaro que não há país e aliados perfeitos

A realidade começa a revelar ao presidente eleito que, mesmo entre
os “escolhidos”, há problemas e que o “inimigo” às vezes mora ao lado

Jair Bolsonaro e Onyx Lorenzoni, dois radicais de direita, ganhariam muito se lessem a obra do filósofo democrata liberal Isaiah Berlin | Fotos: reprodução

Nascido na Letônia, Isaiah Berlin (1909-1977) radicou-se na Inglaterra, que se tornou sua pátria, embora talvez se possa sugerir que suas pátrias eram outras — a Liberdade e a Filosofia. O filósofo disse que, em certas épocas, o que se precisa é de “menos ardor messiânico, mais ceticismo esclarecedor, mais tolerância com as idiossincrasias”. Em momentos combatentes, de ampla conflagração — especialmente quando direita e esquerda tentam “varrer” o discurso da outra, em busca de uma hegemonia que exclui a divergência respeitosa —, é preciso ter coragem para apostar um caminho que leve a uma maior abertura. É “a liberdade individual, para escolher bem ou mal, que” tem “de ser defendida”. “Libertar um homem” é “libertá-lo de obstáculos — preconceitos, tirania, discriminação — para que” exerça “seu próprio livre-arbítrio. Não” significa “dizer-lhe como usar sua liberdade”. Os trechos entre aspas são uma síntese de seu ideário.

Isaiah Berlin é um sólido adversário da ideia de que é possível “construir” sociedades e indivíduos perfeitos e dos que defendem a tese de que se deve sacrificar o presente na busca por um futuro que não se sabe qual será. Numa carta para a escritora irlandesa Elizabeth Bowen, escreveu, citando Kant, que “da madeira torta da humanidade jamais se fez nada reto”. A busca pelo melhor, como a democracia, é crucial, mas a procura obsessiva pelo paraíso, sacrificando indivíduos e gerações, tende a levar ao inferno (à ditadura, por exemplo). Fruir a vida real, sabendo que é a possível — e claro que se está tratando das sociedades abertas —, é o que importa. O futuro, sabe-se, nem a Deus pertence.

O Brasil, que o escritor austríaco Stefan Zweig chamou de país do futuro, está num de seus momentos “redentores” e as esperanças — sobretudo do povão — são extraordinárias. Há uma expectativa popular de que o presidente eleito, Jair Bolsonaro, vai resolver os principais problemas do país. Dotado de uma energia e uma fé em si mesmo impressionantes, o deputado parece acreditar que, em quatro anos de mandato, poderá levar o país a rumos radicais (não foi eleito para ser moderado).

A expectativa de que a violência será debelada é imensa. Ouve-se nas ruas, onde a voz de Deus se faz presente pela voz dos homens, que Bolsonaro, endurecendo as leis, conseguirá controlar o crime organizado e ampliar a segurança dos cidadãos. O Estado precisa mesmo fazer alguma coisa, pois há uma espécie de guerra não declarada e milhares de “não-combatentes” morrem todos os anos. A interpretação de que a violência tem causas sociais levou os governos do PT a um combate menos sistemático à criminalidade que, de tão profissionalizada, deve ser caracterizada como um “sistema”. Não pode ser combatida com flores. Fica, porém, o alerta de que uma excessiva policialização do Estado pode, por vezes, não atingir tão-somente os criminosos. Um Estado encorpado tende a sacrificar as liberdades de todos os indivíduos. Espera-se, portanto, que mecanismos de contenção — que sejam acatados — não estejam ausentes da política de combate sistemático ao crime. Certa flacidez moral de alguns defensores dos direitos humanos não deve levar à conclusão de que são descartáveis.

O combate à corrupção é outra missão que os brasileiros — parte significativa deles — estão confiando a Bolsonaro. Fica-se com a impressão, e talvez seja mera impressão, de que o povo tropiniquim “espera” mais do Poder Executivo do que dos outros dois poderes da Re­pública, o Judiciário e o Le­gislativo. A aprovação de leis rigorosas — que permitam ações independentes de policiais federais, procuradores da República e magistrados — depende do Legislativo. Claro que, com clamor público e um presidente da República pressionando, as leis podem ser aprovadas de maneira mais abrangente e mais rapidamente.

Pergunta-se: as leis atuais não estão funcionando? Estão. Se não estivessem, o ex-presidente da República Lula da Silva, o ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci e o ex-presidente da Câmara dos Depu­tados Eduardo Cunha não estariam na cadeia. Vários corruptos foram presos, condenados e devolveram dinheiro ao Erário. O que se quer mais? Sangue? Na democracia, a maior invenção humana, não dá pé. Talvez seja possível aperfeiçoar o sistema de devolução do dinheiro das falcatruas. As penas para os corruptos são leves? Talvez não sejam, mas a sociedade cobra que fiquem mais tempo na cadeia — como, quem sabe, uma espécie de lição. Mas a principal “pena” é a devolução do dinheiro público roubado e impedir que continuem militando na política ou negociando com o governo. A torcida para que “mofem” na cadeia, como uma espécie de justiçamento não cruento, pode consolar os honestos, a maioria, mas não leva a nada, exceto a mais custos para o Estado.

Onyx Lorenzoni

As leis valem para todos — não há exceções. A democracia é o regime de todos, mas não dos “escolhidos” (não se trata de religião). O se­na­dor Aécio Neves (PSDB), se condenado, deve ir para a cadeia. Assim como políticos de quaisquer outros partidos que cometerem crime.

O jornal “Folha de S. Paulo” publicou reportagem revelando que o deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS), futuro ministro da Casa Civil, “recebeu via caixa dois uma segunda doação eleitoral, por ele não admitida até agora. No ano passado, o congressista confessou ter obtido da empresa [JBS, dos irmãos Joesley e Wesley Batista], para a campanha de 2014, R$ 100 mil não declarados à Justiça Eleitoral. O documento agora revelado pela ‘Folha’ mostra que ele recebeu outros R$ 100 mil em 2012. O pagamento a ‘Onyx-DEM’ foi feito em 30 de agosto daquele ano, em meio às eleições municipais. Segundo os colaboradores, o dinheiro foi repassado em espécie”.

Comparado aos milhões de outros afortunados, os 200 mil reais “de” Onyx Lorenzoni parecem migalhas. Entretanto, para um paladino da moralidade — apadrinhado por um político que diz rejeitar corruptos —, não pegou bem, por assim dizer, a desmemória do político do Rio Grande do Sul.

Como nunca governou, Bolsonaro lidou, nos últimos anos, com problemas mais retóricos, os quais podem ser enfrentados de maneira retórica. Porém, ao assumir o governo, em janeiro, estará no comando de um país que figura entre os dez mais ricos do mundo, com mais de 200 milhões de habitantes. Uma potência, por certo. O governo federal, uma máquina gigante e pantagruélica, é controlável em termos — sobretudo com a vigilância do Ministério Público e da Imprensa —, mas, aqui e ali, sempre escapam problemas.

Mesmo antes de assumir, Bolso­naro começa a perceber que, até entre seus escolhidos, não há a perfeição aparentemente almejada. Como possivelmente outros problemas surgirão, inclusive no campo da probidade, o presidente eleito deverá clamar não por uma “imprensa amiga”, e sim por uma imprensa altiva, que, crítica, poderá ajudá-lo a fiscalizar o governo. A “Folha de S. Paulo”, que não tem cara de mordomo de cinema, não é o “inimigo”. Quando se trata de governos, o “inimigo” mora, com frequência, ao lado e, por isso, é insuspeito.

Bolsonaro certamente tem consciência de que a lua de mel de um governante com o público — mesmo com aquele que avalia como “cativo” — tende a durar cada vez menos. Sobretudo se a economia não crescer e se alguns de seus parceiros ficarem com a imagem de pouco “católicos”.

Winston Churchill e Isaiah Berlin trocavam ideias — e o segundo chegou a revisar um dos textos do primeiro — e se respeitavam. O filósofo “admirava em Churchill” a “sua inabalável firmeza de propósito”. Lula da Silva se tornou um grande leitor na prisão, dizem. Bolsonaro não parece afeito a leituras. Se tiver paciência, deveria ler “Isaiah Berlin — Uma Vida” (Record, 362 páginas), de Michael Ignatieff. Conhe­cendo o ideário do pensador anglo-letão, Bolsonaro poderia se confortar com a ideia de que, se uma sociedade perfeita é impossível — olha o Onyx, aí, povo da Mangueira! —, uma sociedade democrática, tolerante (na qual não se diga que pessoas, como a petezada, devem ser “varridas do mapa”), é mesmo a melhor coisa.

A China de Bolsonaro

A China, sabe-se, inventou o comunismo de mercado ou o capitalismo de Estado. Os comunistas controlam o Estado, sob uma democradura, mas permitem uma economia de mercado em expansão. Não à toa o país se tornou o segundo mais rico do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Ah, sim, as pessoas são muito mais pobres do que na terra de Henry James e Ella Fitzgerald (os steites, por sinal, têm 46 milhões de pobres — ou 15% da população).

Pois, mesmo sem querer, Bolsonaro está, por linhas tortas, copiando o modelo chinês. Na economia, o futuro ministro da Fazenda, Paulo Guedes, provavelmente terá uma autonomia fabulosa. Tanto que está montando uma equipe inteiramente liberal — o que sinaliza para um governo que, além das privatizações, vai apostar num crescimento econômico acelerado. Entretanto, a outra equipe do presidente eleito não parece nada liberal. Os militares que acompanham o líder do PSL estão mais próximos do presidente Ernesto Geisel, um estatista juramentado, do que do presidente Castello Branco, que nomeou dois ministros liberais, Octavio Gouveia de Bulhões, na Fazenda, e Roberto Campos, no Planejamento, com o objetivo de enxugar o Estado e levar o país ao crescimento econômico. O país cresceu num ritmo chinês no governo do presidente Emílio Médici graças, em larga medida, aos reajustes brutais da dupla Bulhões-Campos. Delfim Netto ficou com os louros, mas pegou o bonde andando, azeitado.

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Adalberto de Queiroz

Um editorial que deve ser lido com reflexão de conservador, porque lúcido e de grande densidade. Parabéns!