Caiado prova que, com oscip Comunitas analisando dados, prioridade é governar tecnicamente

O discurso de terra arrasada pode ajudar jornais a produzir manchetes mas espanta possíveis investidores em Goiás

Ronaldo Caiado e Wilder Morais, políticos maduros e responsáveis, sabem que o sucesso do governo advirá menos de críticas e muito mais da eficiência de seus projetos| Foto: Reprodução

Ao governar Goiás, entre 2007 e 2010, Alcides Rodrigues (então no PP), a criatura, se tornou adversário figadal de seu criador, Marconi Perillo (PSDB). Criou-se a tese de que o tucano havia contribuído para um endividamento incontrolável, o que inviabilizava o crescimento e o desenvolvimento do Estado. O debate inicialmente era mais um bate-boca ampliado pela Imprensa.

Aliados de Marconi Perillo decidiram pedir a uma instituição independente, a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, que examinasse os dados da dívida de Goiás. Criada em 1973, a Fipe é ligada ao Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo. Dos dados da investigação pode-se concluir pelo menos duas coisas. Primeiro, a divulgação de informações bombásticas, feita com estardalhaço, tinha menos o objetivo de esclarecer os fatos e mais o de destruir adversários políticos. Segundo, a verificação da Fipe comprovou o óbvio: o grosso da dívida corresponde a vários governos — não é uma criação recente — e não é responsabilidade exclusiva de um ou de outro governante. A dívida é de todos ou de quase todos. No geral, em que pese questões pontuais, foi feita para alavancar o desenvolvimento e o crescimento do Estado.

A rigor, portanto, o governo de Goiás não estava “quebrado”. Na verdade, e parece herético dizer isto, governos estão sempre “quebrados”. Porque, ao contrário da iniciativa privada, o objetivo da gestão pública não é ter lucro financeiro. Seu lucro, se se pode dizer assim, é social e, só mais tarde, econômico. Governos investem a fundo perdido, em áreas extremamente dispendiosas, e às custas de empréstimos (leia adiante o motivo disto) nacionais ou internacionais. Com os incentivos para empresas se instalarem em Goiás, o governo perde receita num primeiro momento. Mas ganha, já no curto prazo, empregos e mais recursos (menos impostos é melhor do que nada). Sobretudo, vai se consolidando uma economia mais diversificada e integrada. A Mitsubishi ganhou incentivos fiscais para se instalar em Catalão e hoje contribui para tornar a arrecadação da prefeitura uma das maiores de Goiás — além de gerar empregos diretos e indiretos. A montadora de automóveis japoneses, assim como as empresas de mineração, contribui para diversificar e conectar as ramificações da economia local.

Análise técnica da oscip Comunitas

No momento, prepara-se a transição do governo de José Eliton, do PSDB, para o governo de Ronaldo Caiado, do DEM. O senador assume em 1º de janeiro de 2019 — daqui a dois meses. O seu principal técnico na equipe de transição é o senador e engenheiro Wilder Morais (DEM) — um dos empresários mais bem-sucedidos do país, um self-made man e um workaholic (ninguém vence no mercado da construção civil se não trabalhar de maneira intensa e competitiva).

A transição pode ser feita de maneira integrada ou de maneira sensacionalista. Ao contrário de determinados aliados, Ronaldo Caiado e Wilder Morais são pragmáticos e não se interessam por excessos. Por isso, querem, além dos dados precisos — absolutamente reais —, uma interpretação fidedigna dos problemas (sempre existem) e um caminho racional para resolvê-los. Não basta ter um diagnóstico, para possíveis formulações críticas — o típico discurso de terra arrasada —, e parar por aí. É preciso, com os dados nas mãos, formular uma política tanto de crescimento quanto de desenvolvimento. Por exemplo: como enxugar custos e evitar aumento de impostos? O equilíbrio entre receita e despesa é, sabem economistas e gestores, crucial para o sucesso tanto de uma empresa quanto de um governo.

O que Ronaldo Caiado quer, e o governador eleito está certo, é obter dados transparentes — e uma observação adequada do que pode acontecer nos próximos quatro anos, com ou sem determinada ação — que possibilitem o planejamento de seu governo. Porque, sem dados objetivos e um caminho a seguir, não se tem como agir. Dados forçados, para indicar que a situação é ótima ou que a situação é péssima, não contribuem em nada para quem quer e precisa de fato governar. O líder do DEM prova que está agindo de maneira equilibrada.

A Comunitas, que não tem fins lucrativos, foi criada pela antropóloga Ruth Cardoso — primeira mulher do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso. A oscip vai analisar os dados do governo e apontar caminhos para o crescimento e para o desenvolvimento. Ronaldo Caiado fará uma reforma administrativa? O exame criterioso das informações vai indicar a necessidade ou não da reforma.

A brilhante economista Ana Carla Abrão, secretária da Fazenda de parte do governo de Marconi Perillo, disse ao Jornal Opção que a folha de pagamento do funcionalismo público consome 76,8% de toda a arrecadação do governo de Goiás. Oficialmente, não é assim; na prática, é — quer dizer, escapa-se ao limite prudencial. Os chamados “penduricalhos”, que deveriam ser provisórios, na verdade se tornam salários. Há uma categoria que, na teoria, ganha 33 mil reais, mas na realidade recebe mensalmente 42 mil reais. Somando os 76,8% da folha dos servidores com o custeio da máquina e o serviço da dívida, chega-se a quase 100% da arrecadação; praticamente não sobram recursos para investimentos. Ana Carla Abrão, doutora em economia pela Universidade de São Paulo e expert em mercado financeiro, tem conversado com Ronaldo Caiado.

Como não há recursos do próprio Estado para investir, por exemplo em pavimentação e recuperação de rodovias, é preciso buscar empréstimos. Todos os governos tomaram e, se quiserem construir obras, continuarão tomando empréstimos. Uma reforma administrativa, que não se circunscreva a reduzir secretarias, terá de mexer na folha dos servidores, com o objetivo de reduzi-la. Mas será possível? Talvez seja, desde que se busque o apoio da sociedade, porque a crise com os setores corporativos será — se se tentar fazer alguma coisa para beneficiar todos os goianos (são 6,4 milhões) e não apenas funcionários públicos (são 150 mil) — de grande dimensão. A firmeza e a determinação de Ronaldo Caiado são fatos, mas reorganizar o setor público é um trabalho, digamos, de Hércules.

A verificação e a análise dos dados pela Comunitas são importantes sobretudo porque se fará um trabalho independente, objetivo e não político. Portanto, políticos e funcionários públicos, ao perceberam o caráter técnico das conclusões, reclamarão menos. Que Ronaldo Caiado, com o apoio de Wilder Morais, tenha convidado uma entidade técnica e autônoma, de São Paulo, para examinar as contas de Goiás mostra sua seriedade. Fica evidente que seu objetivo é governar a partir de dados e análises confiáveis. Não está politizando o que o governo anterior fez ou deixou de fazer. Prova que quer e vai governar, que não vai transformar a praça pública em campo de batalha com seus antecessores. O que indica amadurecimento e, sobretudo, um alto grau de responsabilidade.

Terra arrasada: bom pra jornal e ruim pro Estado

O discurso de terra arrasada — vibrante para manchetes de jornais — pode atingir menos o governante que está saindo e muito mais o Estado de Goiás e, por extensão, o gestor que está chegando. Empresários nacionais e internacionais costumam buscar indicadores econômicos responsáveis, dados equalizados, quando pretendem investir em determinada região. Mas notícias de caos, de que tudo vai mal, por vezes podem desestimulá-los a aplicar seu capital em Estados com problemas fiscais graves. Goiás não é, evidentemente, Shangri-la, mas sua situação financeira é muito melhor do que a de Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Se há problemas, devem ser escancarados para a sociedade, mas com fidelidade e integridade — o que uma oscip técnica, que não pretende politizar sua investigação e conclusões, tem condições de fazer.

Políticos responsáveis e propositivos como Ronaldo Caiado e Wilder Morais, da escola racionalista, sabem que quem governa olhando para o passado nunca segue adiante de maneira equilibrada.

O sucesso (inclusive político) do governo não advirá de suas críticas, e sim de ações acertadas. Olhar para frente e governar com eficiência são o que realmente importa. O resto é mesquinharia dos aduladores de praxe, que tentam ganhar alguma coisa, nem que sejam migalhas, com a propagação tanto do discurso do caos quanto do discurso do ódio. Ronaldo Caiado está adiante, até muito adiante, de alguns de seus aliados. Desde a campanha.

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