Caiado é o grande vencedor e Roberto Naves e Gustavo Mendanha são os destaques

O governador se mostrou um grande operador político. Os prefeitos Roberto Naves e Gustavo Mendanha provaram que são hábeis articuladores políticos

Governador Ronaldo Caiado | Foto: Reprodução

Mesmo antes das eleições, vários textos do Jornal Opção mostraram a capacidade de articulação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado. Registrou-se que, embora se mantivesse atento à gestão da máquina pública, o líder do partido Democratas fazia política com habilidade, articulando em todo o Estado. Manteve as alianças anteriores e agregou novos líderes e grupos políticos. Poderia ter se enclausurado no Palácio das Esmeraldas, movendo as peças do xadrez de lá — e havia até um motivo basilar para justificar o insulamento, a pandemia do novo coronavírus, que já ceifou 168 mil vidas em todo o Brasil. Mas optou por dialogar com os aliados de maneira direta, inclusive visitando várias cidades, não raro, mais de uma vez.

Em 2018, Ronaldo Caiado disputou o governo do Estado — era a sua campanha. Em 2020, como “general” eleitoral, mostrou que sabe operar politicamente, ao reformatar sua base política, ampliando-a. Portanto, deve ser considerado como o grande vitorioso da disputa eleitoral deste ano — sobretudo porque ficou patente que é um operador político de primeira linha.

Operação Entorno de Brasília

A base de Ronaldo Caiado elegeu 132 prefeitos e só o Democratas terá, a partir de janeiro de 2021, o controle de 62 municípios. A conta não está, claro, errada. É precisa. Mas há prefeitos eleitos que, mesmo estando filiados a partidos de oposição, são aliados do governador. Um deles é Pábio Mossoró, o prefeito reeleito de Valparaíso de Goiás, município do Entorno de Brasília.

Pábio Mossoró e Ronaldo Caiado: o prefeito derrotou a principal aliada de Marconi Perillo no Entorno de Brasília, a deputada Lêda Borges | Foto: Reprodução

Pábio Mossoró é filiado ao MDB e é ligado ao deputado federal Célio Silveira, do PSDB. Por que Ronaldo Caiado apoiou o prefeito se, em 2022, ele pode apoiar o candidato emedebista — Daniel Vilela ou Gustavo Mendanha — para governador? Porque quem lida com política precisa arriscar. O gestor da cidade do Entorno pode apoiar um postulante do MDB, claro, mas também poderá compor com o governador. Por que não? A vida é dinâmica, não para. O poeta Walt Whitman é certeiro: “Me contradigo?/Tudo bem, então… me contradigo;/Sou vasto… contenho multidões” (na tradução exímia de Rodrigo Garcia Lopes). A vida é ambivalente, contraditória, rica em nuances e reviravoltas.

Sobretudo, ao apoiar Pábio Mossoró, Ronaldo Caiado contribuiu para a derrota da deputada estadual Lêda Borges, do PSDB, uma das políticas mais estreitamente associadas ao ex-governador Marconi Perillo. No Entorno do DF, o PSDB virou pó — não elegeu ao menos um prefeito. Marconi Perillo pretende — ou pretendia — disputar mandato de deputado federal em 2022 tendo a região como base eleitoral. Com sua base destroçada, e atribuindo a derrota em parte ao ex-governador, tido como responsável pela debacle do tucanato, dificilmente ele será candidato na próxima eleição.

Lucas Antonietti: prefeito eleito de Águas Lindas | Foto: Jornal Águas Lindas

No Entorno de Brasília, com sua presença ativa, Ronaldo Caiado contribuiu para uma grande vitória de sua base política e, naturalmente, para o esvaziamento das oposições. Na maior cidade da região, Luziânia, o deputado estadual Diego Sorgatto, do Democratas, obteve uma vitória maiúscula, graças ao seu trabalho, mas também, em parte, ao apoio do governador. Em Águas Lindas — com seus quase 100 mil eleitores —, venceu Lucas de Carvalho Antonietti (o Dr. Lucas da Santa Mônica), do Podemos. Comenta-se que é amigo e aliado do presidente do MDB, Daniel Vilela. Mas sua campanha foi articulada, em grande parte, pelo deputado federal José Nelto, presidente do Podemos, que é ligado ao governador. A tendência é que o médico-prefeito se integre à base governista, até porque Águas Lindas é uma cidade que precisa, de maneira ampla, da gestão estadual.

Operação Goiânia

Em Goiânia, o que ainda não se examinou de maneira detida, Ronaldo Caiado “construiu”, digamos assim, uma espécie de laboratório para 2022. Sabe-se que o senador Vanderlan Cardoso pretendia disputar o governo de Goiás em 2022, tendo um vice do MDB, talvez Daniel Vilela ou Gustavo Mendanha. A aliança estava mais ou menos ajustada.

Aí houve um aceno, de parte do governo, de que poderia apoiar Maguito Vilela para prefeito de Goiânia, o que também sinalizava uma nova composição política para 2022. Vanderlan Cardoso entrou no circuito e fechou um acordo com o governador Ronaldo Caiado para disputar a prefeitura da capital.

Portanto, Vanderlan Cardoso não será candidato a governador em 2022 e vai apoiar a reeleição de Ronaldo Caiado. Então, numa tacada de mestre, o líder do Democratas conquistou um novo aliado e dividiu as oposições.

Operação Sudoeste

Ao perceber que era preciso ampliar sua base político-eleitoral, Ronaldo Caiado trabalhou as regiões — as cidades-polos —, e de maneira bem ativa, presencial.

Paulo do Vale, prefeito de Rio Verde | Foto: Divulgação

O Sudoeste está se constituindo numa das regiões mais prósperas de Goiás. Na sua cidade mais emblemática, que tem mais de 130 mil eleitores, o prefeito Paulo do Vale, do Democratas, foi reeleito. Trata-se do município-polo e que, por isso, reverbera em todas as demais cidades da área. Há quem a chame de “a capital do Sudoeste”, dada sua ampla estrutura comercial, de saúde e de educação (tem boas faculdades). Em Santa Helena, foi reeleito o prefeito João Alberto Vieira Rodrigues, do Patriota. Ele é filho do deputado federal Alcides Cidinho Rodrigues, do Patriota, um dos principais aliados de Ronaldo Caiado.

O MDB elegeu prefeitos em duas cidades do Sudoeste, Jataí, com Humberto Machado, e Mineiros, com Aleomar de Oliveira Rezende. São importantes política e economicamente, mas não têm o peso de Rio Verde como cidade que reverbera. Rio Verde é, por assim dizer, a Goiânia do Sudoeste. Vale ressaltar que as bases que apoiam o governador em Jataí e Mineiros não ganharam, mas deixaram estruturas sedimentadas.

Aleomar Rezende: eleito pelo MDB em Mineiros | Foto: Facebook

No Sudoeste há outra grande conquista, que nem disputou eleição em 2020. O presidente da Assembleia Legislativa de Goiás, Lissauer Vieira, do PSB, se tornou um dos mais importantes aliados de Ronaldo Caiado. Aos 40 anos, é um político de futuro, tendendo a disputar mandato de deputado federal em 2022.

Operação Sudeste

Na região Sudeste, pode-se ganhar em todas as cidades, mas, se não se vencer em Catalão, nada feito. Na cidade mais emblemática da região, o prefeito Adib Elias, do Podemos, foi reeleito, e com facilidade. Trata-se de um dos principais aliados de Ronaldo Caiado.

Adib Elias: hors concours em Catalão | Foto: Reprodução

Adib Elias impôs uma derrota tanto ao MDB do pecuarista Elder Galdino Pereira, bancado por Daniel Vilela, quanto ao PSDB do deputado estadual Gustavo Sebba, um dos principais aliados de Marconi Perillo.

Em Ipameri e Pires do Rio, foram eleitos Jânio Pacheco (Janinho) e Cida Tomazini, ambos do Podemos e, portanto, aliados do governador. Adib Elias articulou em Ipameri e o deputado federal José Nelto nas duas cidades.

Em Goiandira, com 73,70% dos votos, foi eleito Allison Peixoto, do Democratas.

Operação Vale do São Patrício

No Vale do São Patrício, a eleição mais emblemática é a de Goianésia. Neste município, dois grupos políticos fortes — o MDB de Pedro Gonçalves e o PSDB de Jalles Fontoura e Otavinho Lage — se uniram com o objetivo de derrotar o grupo político do prefeito Renato de Castro.

Ronaldo Caiado, governador, e Renato de Castro, prefeito de Goianésia| Foto: Reprodução

Na última hora, Renato de Castro bancou Leonardo Silva Menezes, do Democratas. Leozão do Renatão começou atrás, mas virou o jogo e ganhou a eleição, derrotando Pedro Gonçalves. Ronaldo Caiado atuou com firmeza na cidade, bancando o candidato escolhido pelo prefeito.

Em Ceres, outra cidade referencial, foi eleito Edmário de Castro Barbosa, do Cidadania, com Dino Ayres, do Democratas, na vice.

Operação Norte de Goiás

Porangatu, cidade-polo do Norte de Goiás, elegeu Vanuza Valadares, do Podemos. Foi uma vitória apertada, por 45 votos. Mas, como no futebol, vitória é vitória, não importa o placar. Ronaldo Caiado se empenhou pessoalmente na campanha da ex-deputada.

Vanuza Valadares: primeira prefeita mulher de Porangatu | Foto: Reprodução

A vitória no município teve um sabor triplo. Primeiro, pelo fato de Vanuza Valadares ter sido eleita. Segundo, por ter sido imposta uma derrota ao MDB de Márcio Luis da Silva, um candidato que se revelou forte. Terceiro, porque o candidato do PP, o prefeito Pedro Fernandes, é, na verdade, ligado ao PSDB de Marconi Perillo.

Operação Anápolis

Certa feita, quando Antônio Gomide era apontado como favoritíssimo para prefeito de Anápolis, o prefeito Roberto Naves, do Progressistas, disse para um repórter do Jornal Opção: “Quero enfrentá-lo”. Ante o pasmo do jornalista, acrescentou: “Sei que posso vencê-lo”.

Roberto Naves: uma das estrelas da política de Goiás | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Roberto Naves é um fenômeno dos mais curiosos. Primeiro, firmou-se como gestor, mostrando aos cidadãos anapolinos que sabia administrar para beneficiar todos e não apenas patotas ideológicas, como é o caso do PT. Depois, provou ser um articulador de primeira, montando uma frente política ampla e leal. Ele e Ronaldo Caiado gostam de política, apreciam a gestão pública e são verdadeiros workaholics. Enquanto muitos dormem sobre os louros do passado, eles fazem política, por saberem que o destino é “construído” pelos que trabalham em tempo integral, por ser “amigo” dos que não desistem, dos que sabem que o possível é construído em cima do que é considerado impossível.

Resultado: Roberto Naves quase foi eleito no primeiro turno. O prefeito obteve 46,64% dos votos de Anápolis (82.139 votos). Antônio Gomide ficou com 28,87% (50.843 votos). O líder do Progressistas teve 31.296 votos a mais do que o líder do PT. Uma vitória pra lá de retumbante.

Depois de Goiânia, Anápolis é a cidade mais emblemática de Goiás — uma fábrica de governadores (Henrique Santillo, Irapuan Costa Junior e Ronaldo Caiado). Com sua obstinação, e uma rara capacidade de ficar atento, Roberto Naves pode ser a grande opção da base governista para 2026.

Operação Sul

Em Itumbiara, cidade mais emblemática da região Sul, havia o consenso de que, desta vez, o prefeito seria Gugu Nader, do PSL. Ronaldo Caiado articulou uma aliança poderosa e contribuiu, de maneira decisiva, para a vitória do empresário Dione Araújo (Dione da Famóveis), do Democratas.

Dione Araújo: grande vitorioso em Itumbiara | Foto: Reprodução

Dione Araújo começou em quarto lugar, atrás de Gugu Nader, Rogério Rezende e Murilo Borges (que faleceu durante a campanha), e acabou eleito. Mas eleito com 33,13% dos votos, superando Gugu Nader, que ficou com 27,95%. O governador esteve na cidade, conversou com líderes políticos e empresários (como Alberto da Caramuru). Teve um papel central na virada eleitoral.

Vitória acachapante

O governo obteve uma vitória acachapante em 9 das 12 cidades de Goiás com mais de 70 mil habitantes: Anápolis (269.556 eleitores — tudo indica que Roberto Naves vence no segundo turno), Rio Verde (132.809),  Luziânia (117.695), Águas Lindas (94.752, Valparaíso (prefeito Pábio Mossoró e Ronaldo Caiado estiveram no mesmo palanque), Itumbiara (72.204), Senador Canedo (71.061), Catalão (71.060), Formosa (70.606).

O governismo perdeu em Aparecida de Goiânia, Trindade e Jataí (que tem quase 70 mil eleitores). Mesmo assim, excetuando Aparecida — onde o prefeito Gustavo Mendanha reina absoluto —, deixou bases sedimentadas nos municípios.

MDB e PSDB

Se o PSDB virou pó, elegendo prefeitos em cidades com menos de 37 mil eleitores, o MDB mostrou que tem força, ao eleger prefeitos em Aparecida de Goiânia, Jataí e Mineiros e provando que é  altamente competitivo em Goiânia. Os fados indicam, então, que o principal adversário de Ronaldo Caiado em 2022 sairá de seus quadros.

Gustavo Mendanha: um dos players da política de Goiás | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Já o PT de Rubens Otoni, Antônio Gomide, Kátia Maria e Adriana Accorsi (por sinal, bem votada em Goiânia) não foi bem nas eleições deste ano.

O grande vencedor

Em suma, Ronaldo Caiado, o político, venceu. E provou que é um político que dialoga com suas bases, ou seja, que tem grupo e que o defende. Roberto Naves, de Anápolis, e Gustavo Mendanha aparecem como os grandes destaques.

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