Caiado articula governo para os goianos e não só para os políticos

Os que pensam que Caiado “retirou” um grupo do poder para eles “mamarem” nas tetas do governo podem acabar se decepcionando

Ronaldo Caiado está agindo da maneira correta ao priorizar a constituição de um governo mais técnico do que político | Foto: divulgação

Há políticos que não são exatamente gestores e há políticos que são mais gestores, caso de Paulo Hartung, que está deixando o governo do Espírito Santo. E, claro, há os que são políticos e gestores ao mesmo tempo.

O caminho do fracasso de um governante é o pensamento de que, uma vez no poder, tem de fazer política o tempo todo — pensando nas próximas eleições, portanto na manutenção dos velhos e na conquista de novos apoios. Uma vez eleito, para cargo executivo, o político tem de pensar, de maneira mais enfática, em governar, quer dizer, na qualificação da ação de sua gestão.

Ao menos nos bastidores, Ronaldo Caiado, eleito para governar Goiás de 1º de janeiro de 2019 a 31 de dezembro de 2022 — quatro longos anos —, tem sido criticado por dois motivos. Primeiro, por ter constituído um secretariado “importado”. Segundo, por ter escolhido um secretariado de perfil mais técnico do que político.

Cristiane Schmidt, Rodney Miranda, Fátima Gavioli e Ismael Alexandrino Jr. de perfis técnicos, os secretários da Fazenda, da Segurança Pública, da Educação e da Saúde são bem-vindos e não é relevante a sua origem geográfica | Fotos: divulgação

Examinemos o primeiro ponto. Goiás não é uma ilha, não é um feudo. Os goianos são brasileiros. Portanto, um técnico de Brasília ou de São Paulo não deve ser tratado como alienígena. E, se veio para requalificar o Estado, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida de todos, por que rejeitá-lo exclusivamente pelo fato de não ser goiano? Fala-se também que, por serem de fora, não conhecem a realidade de Goiás. Como notou o poeta John Donne, ninguém, assim como um Estado, é uma ilha. Portanto, um técnico preparado consegue apreender, em pouco tempo, a realidade local. Tanto que a secretária da Fazenda, Cristiane Alkmin Junqueira Schmidt, doutora pela Fundação Getúlio Vargas, impressionou uma plateia recentemente ao falar sobre Goiás como se fosse, digamos, uma “goianóloga”. O poeta Reynaldo Jardim dizia que os “goianeiros” são os goianos que chegam de fora para amar, entender e melhorar o Estado. Pois a jovem Cristiane Schmidt, que deu aulas em Columbia como professora visitante, sabe mais de Goiás do que muitos goianos. Não é uma deusa, não vai “salvar” a pátria. Mas tem ideias precisas de como estabilizar fiscalmente o Estado e, ao mesmo tempo, ampliar seu crescimento econômico e seu desenvolvimento.

Caiado está afinando com a sociedade civil

O mundo mudou, mas há quem insista em pensar pelas velhas filosofias. Com os novos recursos tecnológicos, com a facilidade de se ter acesso aos dados — e a possibilidade de conectá-los de tal forma a facilitar sua análise e encontrar soluções —, não é nada difícil entender a configuração econômica, social e cultural de um Estado. Os que estão chegando para contribuir — e não para tirar vantagem — devem ser tratados não como bandeirantes exploradores, e sim como colaboradores úteis. Portanto, devem são bem-vindos.

Quanto ao secretariado mais técnico, o recado que Ronaldo Caiado está “enviando” aos goianos — não só aos políticos — é que está preocupado em governar. O líder do DEM demonstra que entendeu aquilo que os eleitores decidiram nas urnas. Eles querem um governador que, no lugar de fazer política e de usar o setor público para enriquecimento pessoal, se preocupe mais com gestão.

Os políticos que pensam “pequeno” certamente não percebem que Ronaldo Caiado está pensando além deles. O que vai torná-lo mais consistente política e eleitoralmente, depois de quatro anos de governo, não é o fato de compor um secretariado político, de fazer política o tempo inteiro — e sim se fizer um governo que melhore a saúde, a educação e a segurança pública. Para tanto, precisa enxugar o Estado, reduzindo suas despesas, e estabelecer um ajuste fiscal, de curto a médio prazo, para que o governo retome sua capacidade de investimento. O crescimento e o desenvolvimento de Goiás, sempre pensando em melhorar a qualidade de vida de todos, dependem das ações de um governo ajustado.

Em 2022, se tiver feito um governo sólido, que tenha de fato melhorado as contas do Estado, ampliado a qualidade de vida dos goianos e atuado para fortalecer a defesa da probidade administrativa — gestões públicas têm sido máquinas sistêmicas de corrupção, mesmo quando o governador não o é —, Ronaldo Caiado terá condições de ser reeleito. Se atender tão-somente demandas de políticos, dando-lhes cargos para aumentar-lhe o poder de articulação, certamente irá fracassar. As medidas iniciais, como a definição de um secretariado técnico e, aparentemente, sem vícios, sugerem que o governador pretende fazer a coisa certa.

Se Ronaldo Caiado está no caminho certo, o que ajusta para crescer — e não só pelo ajuste em si —, os políticos inteligentes devem convencer seus aliados de que, no lugar de perder, todos vão ganhar. Mas é mesmo provável que alguns políticos estejam decepcionados com o novo governador. Certamente pensam que, retirado um grupo que estava no poder havia vinte anos, chegou a sua vez de “mamar”. O que Ronaldo Caiado está sugerindo, com ações e menos com palavras, é que os tempos são outros. Quer dizer, quem estiver pensando em “mamar” nas tetas do Estado dará com os burros n’água.

Ronaldo Caiado pretende fazer um governo — de caráter republicano — para que todos “ganhem”, não apenas os políticos. Estes, se entenderem a “mensagem”, ganharão inclusive politicamente. Entretanto, se continuarem pensando pela velha filosofia, serão “atropelados” não pelo novo governador, mas pela realidade, quer dizer, pelos goianos.

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