Brasil é o verdadeiro “faroeste”, com ou sem o tímido decreto de Bolsonaro

Bang-bang do cinema nunca existiu de verdade nos EUA, mas a ficção lembra o violento cotidiano brasileiro, que continua exigindo formas de fuga da realidade

Cena de assalto no videogame “Red Dead Redemption 2”: violência como algo banal foi uma criação da indústria do entretenimento | Foto: Rosckstar Games

Você entra no “saloon” empoeirado e esbarra feio em um valentão naquela típica porta vai-e-vem. Ele se ofende e lhe dirige alguns impropérios. Diante da sua falta de reação, o peitudo ainda pergunta se você é algum tipo de covarde. Como os dois estão armados com revólveres na cintura, há duas formas de reagir: 1) você ameniza a situação e dá as costas, dizendo para o cidadão seguir a vida dele (ouvindo mais provocações por sua falta de coragem) ou 2) você o encara e aceita ir até a rua para enfrentar um duelo a tiros.

Não, isso não é um delírio de algum defensor da liberação do porte de armas de fogo que se decepcionou com o tímido decreto editado na semana passada pelo presidente Jair Bolsonaro. Inspirada nos clássicos filmes de faroeste, essa cena acontece com frequência no mais popular videogame da temporada, “Red Dead Redemption 2”, lançado no final de 2018. Na verdade, graças à sua qualidade técnica, o jogo é como um filme – a diferença é que o jogador está “dentro” da tela, podendo escolher o que fazer, como naquelas alternativas 1 e 2 citadas acima.

Em “Red Dead Redemption”, a exemplo do que acontecia nas produções de Hollywood, os longos tiroteios, grandes assaltos, duelos e o acesso irrestrito a armas não passam de uma invenção: o faroeste nunca existiu como foi “recriado” na ficção. A conquista do Oeste americano foi realmente um dos capítulos mais dramáticos da história. Em menos de 100 anos (de 1754 a 1845), o novo país avançou 4,8 mil quilômetros em direção ao Oceano Pacífico.

Mas nem mesmo nas épocas mais duras, a violência da vida real foi tão intensa quanto aparece em livros, filmes e agora jogos. O clima de bang-bang saiu da cabeça de escritores que já começaram a fantasiar a conquista daquela região inóspita enquanto ela ainda acontecia e se consolidou, quase um século depois, como um dos temas mais recorrentes na indústria de entretenimento – e não apenas dos Estados Unidos.

Menções ao Velho Oeste sempre pipocam na mídia e nas redes sociais quando se discute a flexibilização das normas que envolvem a posse e o porte de armas de fogo. Essas menções são equivocadas, como não se cansam de explicar os especialistas em história norte-americana. Naquele período, guerras ao norte com as colônias britânicas remanescentes (que se tornariam o Canadá), rápidos atritos com o exército francês de Napoleão na região do Rio Mississipi e o eterno confronto com espanhóis e seus sucessores mexicanos no sul mataram muito mais americanos do que o dia a dia dos caubóis – mesmo contabilizando o sangrento convívio com diversas nações indígenas guerreiras.

Na chamada região da fronteira, afastada do leste “civilizado”, os novíssimos povoamentos contavam com um cotidiano dos mais pacatos, com baixíssimo número de homicídios anuais. Para se ter um exemplo de como o faroeste tornou-se uma mina para o showbiz na forma de fantasia, pegue-se o mais famoso tiroteio da época. Aconteceu na minúscula Tombstone (Arizona), em 1881, dois anos depois da fundação da cidade. Teria durado pouco mais 30 segundos, deixando três mortos e três feridos. O celebrado diretor John Ford, no filme “A Paixão dos Fortes” (1946), dramatizou o episódio tornando-o um tenso e demorado conflito.

Sobrevivente ileso dessa troca de tiros, o xerife Wyatt Earp virou consultor de Hollywood e acabou glamourizado pela indústria do entretenimento – uma espécie de lenda, celebrizada em dezenas de filmes e livros. Mesmo que no relato real daquele dia conste que ele ficou completamente parado. Até hoje, boa parte dos 1,4 mil habitantes de Tombstone, na fronteira com o México, vive dessa fama, mantendo cenários de época para atrair turistas.

Lá na cidadezinha é possível andar a cavalo ou em carruagens por ruas que preservaram (ou recriaram, melhor dizendo) o conjunto arquitetônico do final do século 19, com seus “saloons” e outros prédios típicos feitos de madeira. E claro, com revólveres e um portentoso cinto de munições na cintura.

Fantasia. Negócios. O mito do oeste selvagem e violento parece ter a capacidade de promover algum tipo de sublimação psicológica e, por isso, sempre vendeu tão bem. Como na sensacional série da HBO “Westworld” (2016), na qual personagens de carne e osso pagam caro para frequentar um parque de diversões cujo tema é a simulação de um amplo cenário de faroeste. Lá, a principal atração é poder conviver e, evidentemente, matar a tiros androides que são incrivelmente reais. Esses robôs são dotados de inteligência artificial tão avançada que, claro, vão acabar criando problemas.

Então, seria uma válvula de escape coletiva imaginar-se num universo sem lei, em que a proteção do estado é quase inexistente e é preciso se garantir com armas de fogo? Que o diga o sucesso estrondoso de “Red Dead Redemption 2”, uma espécie de “Westworld” possível. A Rockstar Games passou os últimos sete anos desenvolvendo esta segunda versão do jogo, levando especialistas a estimarem que esse seja o produto de entretenimento isolado que mais consumiu investimentos na história: algo em torno de 900 milhões de dólares, sendo um terço desse montante aplicado no marketing de lançamento.

A produtora não confirma essas estimativas. O único número consolidado até agora é o de que o jogo vendeu mais de 17 milhões de cópias nos três dias seguintes ao do lançamento, três meses atrás, arrecadando cerca de 750 milhões de dólares. Com as vendas do Natal, é provável que tenha chegado ao fim do ano ultrapassando a casa de 30 milhões de cópias vendidas, com faturamento de 1,3 bilhão de dólares. Tudo em torno da velha fantasia de montar em um cavalo para rodar livremente por pradarias e montanhas, matando bandidos ou homens da lei (se a sua opção for ser um “bad guy”).

Mas retomemos: um universo sem lei, em que a proteção do estado é quase inexistente e é preciso se garantir com armas de fogo. Isso se parece com algum lugar conhecido na vida real? Muitos não terão dificuldade de responder “Brasil”, um dos países mais perigosos para se viver, com quase 60 mil homicídios registrados em 2017. A totalização das estatísticas de 2018 será publicada nas próximas semanas, sem qualquer otimismo de quem acompanha os dados fornecidos por secretarias estaduais de segurança pública. Nesse sentido, é preciso concordar que o Brasil é o verdadeiro “faroeste” imaginado pelos cineastas do início do século 20.

Mas a solução seria mesmo flexibilizar não só a posse como também o porte de armas de fogo? Isso garantiria sossego para os chamados cidadãos de bem poderem ir e vir nas ruas, inclusive nas situações e nos lugares mais perigosos do país? É inocência acreditar que sim, como faz uma parte do eleitorado de Jair Bolsonaro. Especialmente nas redes, esse pessoal aparecia durante a campanha dizendo que, com a eleição do novo presidente, o crime seria fatalmente mitigado no Brasil porque as vítimas poderiam reagir com o mesmo poder de fogo.

Esse raciocínio beira o “non sense” e é provável que resida em uma área da psique muito próxima daquela que predispõe grande parte do público a adorar as fantasias de faroeste. Ou seja, uma imaginação escapista, quem sabe dotada de certo romantismo, que projeta em uma situação inaplicável à realidade, todas as soluções para um problema muito mais complexo. Não se pode viver a vida real como se fosse uma missão de videogame. As soluções de verdade não são banais como a de decidir se é preciso sacar ou não um revólver.

Os bolsonaristas queixaram-se imediatamente que o decreto assinado pelo presidente ficou muito aquém das expectativas. Alegam que a maioria dos crimes acontece em locais públicos e que manter a vedação ao porte de arma não resolve o problema da violência no país. De fato, o decreto foi tímido diante do discurso que o presidente fazia na campanha eleitoral (inclusive com o repetido gesto de simular um revólver com o polegar e o indicador). Mas Bolsonaro apenas flexibilizou alguns requisitos para o licenciamento, possibilitando menos burocracia para quem pretende adquirir uma arma de fogo e mantê-la em casa ou em estabelecimento comercial do qual seja o responsável legal.

O novo presidente, que vem se notabilizando por fazer recuos sempre que suas decisões são contrariadas com polemizações no meio digital, dessa vez não retrocedeu. Sinal de que amadureceu não apenas no que toca diretamente à questão das armas. Parece que também evoluiu quanto à necessidade de maturar os atos presidenciais antes de colocá-los na praça – prevendo reações adversas ou favoráveis que sempre vão surgir e se preparando para absorvê-las.

A expansão das 13 colônias do leste até ocupar todo o oeste norte-americano é mesmo uma história fascinante. Para muitos estudiosos, foi esse movimento a força central na construção dos Estados Unidos como a maior potência econômica e militar do planeta. Uma livraria de Goiânia descobriu um lote antigo das “Sagas do Oeste Bravio”, uma coleção de quatro livros do escritor e roteirista Dale Van Every, e o está vendendo a preço promocional.

Vale a pena a leitura pelo detalhamento da pesquisa feita por Every. O quarto livro, “O Desafio Final” (1963), tratando eventos ocorridos entre 1804 e 1845, traz capítulos esclarecedores sobre a tensa formação social e política dos estados mais importantes da região, a Califórnia e o Texas. Os texanos chegaram a proclamar uma república independente para se livrar do domínio mexicano, sendo esse o pivô da guerra na qual os EUA ganharam um quarto do seu atual território e o México perdeu metade do que era seu.

Sobre a tese de que o oeste não era assim tão violento como aparece nos filmes, vale a leitura de um artigo escrito por Andreas Muller e Ricardo Lacerda para a Superinteressante, de 2013, que pode ser acessado aqui. Eles dizem, por exemplo, que os famosos assaltos a bancos e trens eram uma raridade. Pouquíssimos casos foram relatados na historiografia oficial, mas pipocaram na imprensa e na literatura como deliciosas aventuras para consumo das populações que viviam no leste.

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