Bolsonaro é golpista? Pode até ser. Mas é mito que as atuais Forças Armadas sejam golpistas

É possível que o presidente tenha lotado seu governo de militares para radicalizá-los e torná-los golpistas. O mais provável é que as Forças Armadas sejam democráticas

O “New York Times”, principal jornal dos Estados Unidos, por meio de seu correspondente Jack Nicas, publicou recentemente: “Faltando [pouco menos de] quatro meses para uma das votações mais importantes da América Latina em anos, um confronto d alto risco está se formando. De um lado, o presidente, alguns líderes militares e muitos eleitores de direita argumentam que a eleição está aberta à fraude. Do outro, políticos, juízes, diplomatas estrangeiros e jornalistas estão soando o alarme de que Bolsonaro prepara o cenário para tentativa de golpe”.

Jack Nicas: correspondente do jornal “New York Times” | Foto: Reprodução

Jack Nicas colheu também a opinião do presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Edson Fachin: “Esses problemas [por exemplo, a história de que as urnas eletrônicas podem ser fraudadas] são criados artificialmente por aqueles que querem destruir a democracia brasileira. O que está em jogo no Brasil não é só uma urna eletrônica. O que está em jogo é manter a democracia”.

As Forças Armadas têm um histórico de golpismo em toda a República, desde a Proclamação em 1889 — há quase 133 anos. O primeiro e o segundo presidentes do Brasil foram generais (marechais) — Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto.

Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto: a República nasceu com o signo do golpismo dos marechais do Exército | Fotos: Reproduções

Em 1930, Getúlio Vargas chegou ao poder, por intermédio de um golpe de Estado, com o apoio de Minas Gerais de Antônio Carlos da Andrada e Olegário Maciel e, claro, dos tenentes (que, em 1964, derrubaram um herdeiro do varguismo — João Goulart, o Jango).

Em 1937, de novo com o apoio dos militares, como o general Goes Monteiro, Vargas radicalizou e gestou uma ditadura — o Estado Novo — que perdurou até 1945. Os adversários ou meros críticos foram perseguidos de maneira implacável.

Os militares, que haviam colocado Vargas no poder, o derrubaram em 1945 e colocaram fim à ditadura.

Com a queda de Vargas, um general, Eurico Gaspar Dutra, que tinha simpatia pela Alemanha nazista, chegou ao poder por intermédio do voto. Por sinal, com o apoio de Vargas.

Miguel Costa, Góes Monteiro e Getúlio Vargas: a Revolução de 1930 foi um golpe civil e militar

Em 1950, Vargas volta ao poder, agora por intermédio do voto dos eleitores. Porém, governou acossado por militares e civis golpistas. Como estava sendo forçado a renunciar, sob acusação de que fazia um governo corrupto, a tal “lama no Catete” (não há evidência de que o gestor tenha se locupletado), o presidente se matou, em agosto de 1954.

Em 1955, Juscelino Kubitschek ganhou a eleição presidencial e só assumiu depois de um contragolpe militar articulado pelo general Henrique Lott. O golpismo militar e da União Democrática Nacional (UDN) tentou impedir sua posse e fez o impossível para atrapalhar seu governo.

Em 1964, os militares e as vivandeiras de sempre, como Magalhães Pinto e Carlos Lacerda, derrubaram o governo de João Goulart, instalando uma ditadura que durou 21 anos, terminando apenas em 1985, com a vitória de Tancredo Neves-José Sarney no Colégio Eleitoral.

Carlos Lacerda e Humberto de Alencar Castello Branco: o jornalista e o general que tiveram peso decisivo no golpe civil-militar de 1964 | Foto: Reprodução

Portanto, é possível concluir que as Forças Armadas, ao longo da história, têm uma tradição golpista e sempre acoplada à articulação de civis.

Democracia balzaquiana é estadual: 37 anos sem golpes

O Brasil vive há 37 anos numa democracia, portanto, tão balzaquiana quanto sólida. É um período longo, considerando a história golpista republicana do país, desde 1889.

Nesses 37 anos, as Forças Armadas não ameaçaram a democracia. Porque, tudo indica, deixaram de ser golpistas. Nenhum dos atuais próceres militares teve papel de relevo na ditadura. Nem mesmo o general Augusto Heleno, um militar qualificado, às vezes vítima de deboche injustificado, teve participação ativa no regime discricionário.

Quando lhe perguntaram por que decidira “acabar” com a ditadura, o general-presidente Ernesto Geisel foi taxativo: “Porque era uma bagunça”. O militar, que era um golpista do primeiro time, descobriu o óbvio: o fato de ser militar não indica que o indivíduo será o “rei da pureza”. Por sinal, Geisel se arrependeu de não ter trabalhado para impedir a cassação de Juscelino Kubistchek, que, segundo ele, não era corrupto.

Golbery do Couto e Silva e Ernesto Geisel: os generais acabaram com a ditadura porque era uma bagunça não muito diferente dos governos dos civis | Foto: Reprodução

Por que a geração atual não é golpista? Por vários motivos. O principal é que as Forças Armadas se modernizaram, se tornaram democráticas e, por isso, decidiram seguir, à risca, os ritos institucionais-constitucionais.

Como são altamente preparados intelectualmente, com amplo conhecimento da história do Brasil, os militares de proa da Aeronáutica, do Exército e da Marinha sabem como a imagem das Forças Armadas está fixada quando se trata do período de 1964 a 1985.

A imagem dos presidentes militares, assim como a de vários generais e coronéis, saiu chamuscada, de maneira indelével, e sem possibilidade de recuperação. Porque, quanto mais se libera documentos, que estão no país e no exterior, se percebe que a ditadura civil-militar, notadamente entre 1968 e 1974, foi mais cruenta do que até historiadores imaginavam. Não houve, no Brasil, “ditabranda”. Qualquer ditadura é nefasta. Nenhum é positiva.

Mesmo os dois “melhores” presidentes militares foram, obviamente, ditadores. O fato de terem sido um pouco mais moderados não confere a ambos um lugar melhor na história recente do país. Castello Branco promoveu cassações e prisões, e morreram pessoas (além das torturas) sob sua Presidência. Ele cassou o mineiro Juscelino Kubitschek (que era senador por Goiás) e o goiano Mauro Borges, para citar apenas dois exemplos. O autoritarismo começou no seu governo.

Geisel freou a violência dos militares dos ditos porões — que, a rigor, não eram porões, pois pessoas foram assassinadas (não morreram em combate) em quartéis —, mas não inteiramente.

O jornalista Vladimir Herzog e o operário Manuel Fiel Filho foram “suicidados” — assassinados é o termo apropriado — em quartel do Exército, em São Paulo, no governo de Geisel. O presidente afastou o comandante do II Exército, freou em parte a tigrada, mas não totalmente. Frise-se que, entre os governos de Emílio Garrastazu Médici e de Geisel, o Exército matou vários guerrilheiros que, presos, não ofereciam mais nenhum perigo à segurança nacional.

É um fato que a esquerda armada não queria instalar uma democracia no Brasil, e sim uma ditadura, supostamente a do proletariado. Porém, assassinato de pessoas indefesas, inteiramente sob o controle do Estado, é crime. Deram uma ordem, a partir do Palácio do Planalto e passando pela cúpula do Exército, para matar os membros do Molipo, porque haviam sido treinados em Cuba — portanto, seriam guerrilheiros “extraordinários” —, e os prisioneiros da Guerrilha do Araguaia. Livros recentes postulam que determinados militares que atuaram de maneira bárbara no Araguaia, como o Major Curió, recebiam ordens formais, ainda que, possivelmente, não escritas, para não levar os capturados para os quarteis e penitenciárias. Era para liquidá-los e assim foi feito.

João Figueiredo e José Sarney: transição para a democracia | Foto: Reprodução

No governo de João Figueiredo, o sucessor escolhido a dedo por Geisel para promover a Abertura, deu-se o atentado do Riocentro, no Rio de Janeiro. Militares da linha dura, altamente protegidos, pretendiam explodir bombas numa comemoração do Dia do Trabalhador, no qual artistas cantariam.

Porém, uma bomba explodiu de maneira inadvertida e matou um sargento e feriu um capitão (hoje general). O chefe da Casa Civil, o general Golbery do Couto e Silva, sugeriu uma investigação rigorosa e punição para os culpados.

Mas João Figueiredo optou por negociar com a linha dura. Não puniu os culpados pelo Riocentro, mas teria, a partir de então, controlado a tigrada.

O fato é que a imagem dos militares que geriram o país de 1964 a 1985 é ruim (apesar do crescimento quase chinês, nos anos de Médici, os mais cruentos) — de maneira incontornável. E os atuais militares, que estudam história — há pessoas de primeira linha nas Forças Armadas (e é preciso perder o preconceito em relação a elas) —, sabem disso.

Por saber o tanto que uma ditadura desgasta a imagem das Forças Armadas — e não a imagem de quem clama por ela — é que a maioria dos oficiais não são apóstolos de um novo regime discricionário. Observe-se que vários civis que foram decisivos no regime militar depois se travestiram de democratas e refizeram suas imagens — casos de José Sarney e Antonio Carlos Magalhães.

Jair Bolsonaro: é possível que o golpista, se golpista for mesmo, seja o presidente, mas não as Forças Armadas | Foto: Reprodução

Então, se a ditadura não é positiva para a imagem dos militares e das Forças Armadas, a atual geração, que é preparada e tem o senso da história, vai embarcar na canoa furada dos golpistas? É bem provável que não.

De fato, há militares golpistas, alguns aliados do presidente Jair Bolsonaro, mas a maioria certamente não é. Pelo contrário, são democratas.

Paulo Nogueira, comandante do Exército; Walter Braga Netto, ministro da Defesa; Jair Bolsonaro, presidente da República; Baptista Júnior, comandante da Aeronáutica, e Almir Garnier Santos, comandante da Marinha | Foto: Divulgação

Por que Bolsonaro “lotou” seu governo de militares? Quem sabe por confiar mais em militares do que em civis. Mais provavelmente, para torná-los golpistas. Para radicalizá-los.

É possível que o golpista, se golpista for mesmo, seja Bolsonaro, mas não as Forças Armadas.

De qualquer forma, vale o ditado: o futuro nem a Deus pertence…

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