Ataques a Michelle Bolsonaro resultam de misoginia disfarçada de política?

Temas cruciais, como o crescimento econômico e a geração de empregos, às vezes têm sido trocados por fofoca disfarçada de zelo com o Erário

Jornais, revistas, portais de informação e emissoras de televisão sugerem que há uma “crise” no governo do presidente Jair Bolsonaro. De um lado, os supostos desenvolvimentistas, como o ministro Rogério Simonetti Marinho, que querem gastar mais, o que, na opinião deles, irá reforçar a economia, potencializando os investimentos privados. Do outro lado, estão os liberais, como o ministro da Economia, Paulo Guedes, que planejam aumentar a arrecadação — daí a discussão a respeito do imposto sobre transações financeiras — e manter estáveis os gastos do Estado. Países em crise de caráter recessivo precisam encontrar um denominador comum: gastar, para incentivar a iniciativa privada, e ao mesmo tempo conter, em parte, a gastança do governo.

Rogério Marinho e Paulo Guedes: adversários só às vezes cordiais na questão dos gastos públicos do governo de Jair Bolsonaro | Foto: Reprodução

O canto da sereia de Rogério Marinho, conectado à ideia de uma reeleição mais factível, daqui a dois anos, é mais agradável aos ouvidos de um político como Jair Bolsonaro. Entretanto, como ouve militares, artífices do bom senso, o presidente sabe que precisa aceitar que Paulo Guedes, ao falar em contenção de gastos, não quer derrotá-lo em 2022 e não tem nada de cruel com o povão. Por vezes, o economista, um chicago-old da escola de Milton Friedman, é muito duro e parece advogar os negócios da banca, do mercado financeiro. Mas todo governo precisa de um gestor, sobretudo no ministério crucial, o da Economia, que aponte a necessidade de contenção de gastos. A gestão pública precisa de um guia de como gastar menos e, sobretudo, bem. De qualquer forma, Bolsonaro age corretamente ao ouvir os dois lados da questão (que são mediados pelos generais, como os competentes e perspicazes Walter Braga Netto e Luiz Eduardo Ramos). Não procede que a economia voltará a crescer graças unicamente aos investimentos privados. Em tempos de crise, principalmente, o Estado tem mesmo de funcionar como indutor, e não como mero observador ou mediador.

O crescimento da economia é uma necessidade, porque há milhões de desempregados e, devido à recessão potencializada pela crise da pandemia do novo coronavírus, a renda de vários trabalhadores e de subempregados caiu drasticamente. Há também a questão de que parte dos jovens, dada a crise estrutural, terão dificuldade de conquistar o primeiro emprego — o que criará uma leva de novos desempregados. Há casos, divulgados pela imprensa, de pessoas desempregadas há vários anos. Não só por falta de qualificação profissional, mas também, e fundamentalmente, porque a economia, sem crescer, não oferece novas oportunidades de trabalho.

O fato é que o governo de Bolsonaro está procurando um caminho e talvez seja menos ruim do que parece (fez, por exemplo, a Reforma da Previdência e tende a fazer a Reforma Tributária). O que mais atrapalha nem é seu direitismo — a democracia é sólida quando direita e esquerda têm oportunidade de eleger presidentes (reduz a ideia de golpismo) —, mas sua língua viperina. Os ataques a jornalistas, por exemplo, são estupidades, diria, se vivo, Mário de Andrade. Verdadeiros suspantos, acrescentaria o prosador e poeta paulista. A função do jornalista é mesmo fazer perguntas críticas, às vezes desagradáveis. Presidentes da República com real vocação democrática podem até se irritar, mas raramente reagem com grosseria. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso certamente jamais diria que sua vontade era dar “porradas” em jornalista impertinente. Bolsonaro disse. O presidente também fez insinuações desairosas sobre Patrícia Campos Mello, a extraordinária repórter da “Folha de S. Paulo”. Felizmente, a misoginia ganhou ampla e rápida condenação por parte da sociedade.

O que se sugere é que o governo Bolsonaro seja examinado também por seus atos, sem esquecer, claro, das palavras (que são condutoras de ações). O governo é ruim? Na média, não é. A gestão híbrida do nacionalista Bolsonaro e do liberal Paulo Guedes — assemelha-se (não se está insinuando que são iguais), em parte, ao governo (comunista) e à economia da China (capitalista) — está tentando acertar, em cenários, nacional e internacional, não inteiramente favoráveis. Uma das funções da imprensa é apontar, com precisão, os acertos e os erros dos responsáveis pelo Erário. A concentração nos equívocos, que por certo os há, resulta da falta de equilíbrio com o qual a mídia trata o governo e Bolsonaro. A retomada do equilíbrio — tanto de Bolsonaro quanto do jornalismo — talvez contribua para criar um ambiente mais propício para o investimento privado tanto local quanto externo. Talvez. Apesar das recaídas (quiçá uma volta ao seu elemento), o presidente está mais equilibrado, brigando menos, relacionando-se melhor com os poderes Judiciário e Legislativo. A aliança com o centro é mal vista por alguns de seus críticos. Mas prova uma opção pela política, pela democracia — uma sinalização de que o golpismo anterior, como fato real ou bravata, foi, aparentemente, abandonado (espera-se que em definitivo). Claro que precisa melhorar ainda mais, suavizando sua linguagem e apostando mais na diplomacia. Palavras duras, às vezes de baixo nível, causam um mal-estar gigante e, em regra, incontornável.

“Micheque” Bolsonaro e Fabrício Queiroz

Bolsonaro é criticadíssimo — até por aliados, como o filósofo Olavo de Carvalho — nas redes socais. Seus aliados, que são milhares, espontâneos ou não, o defendem. O fato é que, apontado como teflon, o presidente parece não se importar tanto assim com críticas e “ataques”, atribuindo tudo a uma espécie de orquestração “comunista”. Ninguém é santo em política, mas não se pode atribuir tudo à esquerda. Soldados invernais da Guerra Fria, como Olavo de Carvalho e Carlos Bolsonaro (a direita já teve um Carlos mais aquinhoado em termos de inteligência e humor corrosivo— Lacerda), acreditam que os comunistas estão à solta e, se brincar, tomam o poder no Brasil. Nem militares ultra radicais pensam deste modo. Os comunistas não têm força na política brasileira. O PT é, sim, de esquerda, mas sua cúpula nada tem de comunista — é tão socialdemocrata quanto a cúpula do PSDB. Dizer que os comunistas têm “força” é uma maneira de aglutinar militantes, que, no caso dos bolsonaristas, têm sido arregimentados para combater, na verdade, representantes das instituições, como o Supremo Tribunal Federal e o Legislativo.

O que mais irrita Bolsonaro são perguntas de jornalistas — o que revela uma vocação intempestiva e, quem sabe, antidemocrática. O presidente precisa aprender a não reagir com violência — verbal, por enquanto, mas já insinuou ter vontade de “dar porradas” num repórter de “O Globo” — ante aquilo que lhe gera desconforto. Suas aleivosias contra a repórter Patrícia Campos Mello indicam que, quando se trata de mulher, o presidente é ainda mais desrespeitoso e tosco. O uso da temática sexual é uma tática tão nociva quão antiga para “desclassificar” as mulheres. Uma atitude típica do machismo latino-americano e, talvez, universal.

Michelle e Jair Bolsonaro: chamá-la de “Micheque” e deixá-lo em paz talvez revele a misoginia nada sutil das redes sociais | Foto: Marcos Corrêa/PR

Se Bolsonaro é teflon — na verdade, ninguém é (o fato de ter ampliado sua popularidade não significa que seja imbatível eleitoralmente, e, frise-se, as eleições vão ser realizadas só daqui a dois anos) —, talvez sua mulher, a primeira-dama Michelle Bolsonaro, não seja. Por isso, para atingir o presidente, criou-se uma espécie de “sistema” nas redes sociais para atacá-la. Trata-se, claramente, de misoginia. Curiosa ou sintomaticamente, ao menos até agora, as feministas não têm se manifestado organicamente em sua defesa, ao menos na defesa de uma mulher que vem sendo agredida de maneira violenta e gratuita. O feminismo brasileiro seria seletivo? Só defende as mulheres de esquerda ou, no máximo, incluindo as de centro? As mulheres de direita — e, a rigor, nem se sabe se Michelle é realmente de direita — não merecem a defesa das feministas? Fica evidenciado, então, que o feminismo é um “argumento” típico das esquerdas? Parece que não é bem assim, mas convém que as feministas se manifestem a respeito da brutalidade com que a primeira-dama vem sendo tratada nas redes sociais.

Fabrício Queiroz e sua mulher, Márcia Aguiar, depositaram cheques no valor de 89 mil reais na conta de Michelle Bolsonaro. De fato, é preciso explicar os motivos pelos quais o casal fez os depósitos. Até agora nem a primeira-dama nem o presidente se explicaram a respeito dos valores. Os dois devem explicações e é bem possível que só Bolsonaro poderá dá-las. Ela possivelmente não sabe do que se trata, ao menos não em toda a extensão dos fatos. Não se deve realçar que se trata de uma vítima — até porque não se sabe o que realmente aconteceu —, mas certamente não é a peça chave da história.

A partir das informações sobre os depósitos, divulgadas pela revista Crusoé e por outras publicações, Michelle Bolsonaro começou a ser chamada de “Micheque” nas redes sociais. Chamá-la de “Micheque” pode até não ser uma ofensa grave, mas as palavras que a acompanham, reforçando-a, em geral são chulas e toscas. O grupo de rock Detonautas produziu uma música, com o título de “Micheque”, e, tudo indica, será processado pela primeira-dama. Por que descarregar todo o peso do problema em Michelle Bolsonaro? Por que é mulher? Nem tudo é misoginia e o que é “erro” tem de ser apontado como “erro”. A rigor, a música do Detonautas não pega tão pesado, mas porque não “homenagear” Bolsonaro, chamando-o de “Bolsicheque”? A sonoridade de “Micheque” é mais adequada? Talvez. Mas o problema não parece ter sido criado por Michelle Bolsonaro, e sim pelos Bolsonaros — tanto Jair quando o senador Flávio Bolsonaro, o ex-primeiro-amigo de Fabrício Queiroz.

Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz: o ex-primeiro amigo do senador certamente tem o que revelar, mas possivelmente nada ou muito pouco sobre Michelle Bolsonaro| Foto: Reprodução

Quando Dilma Rousseff sofreu impeachment, há quatro anos, as grosserias contra a ex-presidente tomaram as redes sociais. A civilidade — respeito mínimo ou adequado ao ser humano — foi esquecida. Prevaleceu a brutalidade, a falta de delicadeza. O monstro não era a petista, mas quem tentava demonizá-la, excedendo nos ataques (e charges estúpidas), quase todos de uma barbaridade impressionante e ilimitada. Nas redes sociais, sobretudo no Twitter, Michelle Bolsonaro foi criticada — ou melhor, vilipendiada — por milhões de publicações, entre agosto e setembro. O cientista político Felipe Nunes disse à “Veja” que “o ‘Micheque’ pegou. A grande fragilidade da imagem do governo está associada à sua família. A campanha do ‘Micheque’ funcionou porque é produzida para a linguagem de internet, que é mais leve, simples e sarcástica”. Pode ser que a revista não tenha publicado a fala completa do doutor em ciência política, mas, pelo divulgado, fica-se com a impressão de que está comemorando o acinte — de matiz misógino — contra Michelle Bolsonaro.

O Jornal Opção em nenhum momento está sugerindo que Michelle Bolsonaro, por ser mulher ou primeira-dama, não deva ser criticada — em especial se estiver “errada”, se tiver se aproveitado de dinheiro público, por exemplo. O que se está sugerindo é que a crítica mantenha o nível e não desça ao palavrório desregrado, aquele que parece tanto agradar Bolsonaro. O que se recomenda de verdade é que se mantenha a crítica, sem excesso, e se exclua os ataques. Não se “limpa” o mundo produzindo mais “sujeira”.

A imprensa não precisa abandonar a discussão sobre Michelle Bolsonaro, em relação aos 89 mil reais depositados em sua conta, mas deveria trocá-la (ou substitui-la) por temas mais candentes, como o crescimento econômico e a geração de empregos. O início do Editorial é uma sugestão de que o essencial está sendo trocado pelo acessório.

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