Aliança com Lula pode ser haraquiri de Alckmin e crítica do PT pode fortalecer Moro

O PT não transige na questão de sua hegemonia e quer retirar Alckmin da disputa em São Paulo. A crítica do partido a Sergio Moro pode se tornar um equívoco eleitoral

Quando articulam alianças, os políticos negociam o presente, e não o passado. Por isso de nada adianta mostrar o que um disse do outro em eleições anteriores. A nova conjuntura é que determina quais acordos são adequados. O PT de Lula da Silva atacou o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin durante anos. Assim com o tucanato criticou o petista-chefe com aspereza.

Mas, numa aliança entre Lula da Silva e Alckmin, quem realmente sairá ganhando?

Se Lula da Silva for eleito, em 2022, Alckmin será um vice poderoso ou decorativo? Em 2026, com 81 anos, o petista apoiará o ex-governador para a Presidência da República ou disputará a reeleição?

O mais provável é que Alckmin, que terá 74 anos em 2026, não disputará a Presidência. Porque o PT, como um partido que preza a questão da hegemonia, lançará Lula da Silva de novo ou bancará outro nome, como Fernando Haddad.

Lula da Silva e Geraldo Alckmin: uma aliança que pode ser benéfica para o primeiro e nem tanto para o segundo. PT poderá ficar imensamente forte se conquistar o Brasil e São Paulo, o que tende a enfraquecer as oposições e a democracia| Foto: Reprodução

O que realmente torna Alckmin tão “interessante” a Lula da Silva? A resposta mais comum é que o “conservadorismo” de Alckmin “modera” o relativo radicalismo do PT. Em tese, ante o eleitorado, o PT quer simular que “é” mais tucano do que petista. Por quê? Talvez porque o tucanato estabilizou a economia, entre 1992 e 2002 — o que possibilitou o sucesso dos dois primeiros governos petistas, entre 2003 e 2010.

Há questões que, se o PT está levando em conta, Alckmin parece que não está. São Paulo, com sua economia gigante, é dono de um PIB superior aos de vários países, inclusive da América Latina. Se fosse um país, seria o terceiro, em termos econômicos, da América Latina. Registre-se também que o Estado conta com 33 milhões de eleitores (por isso Bolsonaro está tentando colocar o ministro Tarcísio de Freitas como candidato a governador de São Paulo).

Por que, então, alguém troca a possibilidade de governar uma grande economia como São Paulo — um verdadeiro país, insista-se — para (tentar) ser vice-presidente? Talvez vaidade. O currículo, do ponto de vista histórico, fica mais “rico”. Do ponto de vista racional, não é uma jogada inteligente.

Porém, retirar Alckmin da disputa do governo de São Paulo — é o favorito —, se confirmada, é uma jogada de mestre do petismo. O PT tenta, há décadas, governar o Estado, mas esbarra na força dos líderes do PSDB, como Mário Covas, José Serra e Alckmin. Agora, se Alckmin sair do páreo — tornando-se cabo eleitoral do PT —, o petismo terá chances reais eleger de Fernando Haddad para o governo estadual. Márcio França, do PSB, pode não ser páreo para o ex-prefeito petista.

Alckmin é cotado para se filiar ao PSD, ao PSB e ao Solidariedade. Habilidosamente, o PSB exige, para bancar Lula da Silva, que o PT apoie seus candidatos a governador em São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Acre.

O PT aceitará? Tudo indica que não. Porque, como adepto do hegemonismo a qualquer custo, não abrirá mão de alguns Estados. São Paulo é um deles.

Qual é a do PT? Inteligentemente, seus líderes querem controlar o Brasil, com Lula da Silva, e São Paulo, com Fernando Haddad. Sem São Paulo, a oposição terá menos força para contestar um possível governo petista.

A prova de que ao PT interessa Alckmin, sua popularidade em São Paulo — no país não tem força alguma (uma pesquisa revela que não acrescenta nem retira votos de Lula da Silva) —, e não o PSB ou PSD, é que o próprio Lula da Silva articula sua filiação ao Solidariedade do deputado Paulinho da Força.

Atrair Alckmin fortalece Lula da Silva, mas sobretudo enfraquece a oposição. Não há como não enaltecer a jogada do habilidoso Lula da Silva. Porém, estranhável é que Alckmin esteja “comprando”, com extrema facilidade, a “ideia” de sair do páreo em São Paulo para ser vice do petista. Fica-se com a impressão de que está mesmerizado pelo prestidigitador-mor do PT.

Veja-se um outro aspecto: se Lula da Silva for eleito presidente, qual será a base política que fortalecerá Alckmin se ele se tornar vice pelo Solidariedade? Quase nenhuma, por certo — o que o tornará um vice fragilizado, em termos de força na Câmara dos Deputados e no Senado.

Na semana passada, numa reportagem do “Estadão”, o deputado federal Rui Falcão, do PT de São Paulo, enfatizou: “Lula não precisa mais mostrar nem credibilidade nem experiência”. A frase parece mas não é perfeita. De fato, o petista-chefe tem experiência, mas, sobretudo devido à sua prisão e ao fato de ter havido corrupção em seu governo — e, na campanha, os candidatos farão questão de repetir os fatos —, há arranhões em sua credibilidade.

Na verdade, quem decide no PT é Lula da Silva, apesar das chamadas instâncias democráticas do partido. Mas a opinião de Rui Falcão — “vamos ter um anestesista como vice?” — faz parte do jogo. O que se está dizendo a Alckmin é: tu não está com tudo, não. Há gente contrária à aliança. Então, decida logo.

Pode-se sugerir, então, que, ao aceitar a vice de Lula da Silva, Alckmin pode estar cometendo haraquiri político? É provável. Ser vice de um presidente do PT equivale a “nada”, em termos políticos. Entretanto, como o ex-governador de São Paulo nada tem de bobo, certamente está enxergando algum ganho político que nem os cientistas políticos que têm a maior boa vontade estão conseguindo perceber. O quase ex-tucano acredita que se tornará um Michel Temer 2? Parece que não. Alckmin não tem o perfil de conspirador.

Por que o PT teme tanto o ex-juiz Sergio Moro

Sergio Moro: o ex-ministro pode acabar se beneficiando com os ataques do PT, que poderão criar uma polarização que pode ser benéfica para ele | Foto: Reprodução

A política está, neste momento, polarizada entre Lula da Silva e Jair Bolsonaro. O primeiro lidera todas as pesquisas de intenção de voto, com Bolsonaro em segundo, cada vez mais para trás, mas ainda “vivo”.

Tudo indica que o petismo quer enfrentar Bolsonaro, por considerá-lo política e eleitoralmente “morto”. O que, a rigor, é um risco. Dificilmente a economia se recuperará rapidamente. Porém, se melhorar um pouco, e com o reforço dos investimentos sociais, o presidente poderá dar trabalho para o petista.

Hoje, há quem postule, ao examinar as pesquisas, que Lula da Silva pode ser eleito no primeiro turno. De fato, se o desgaste de Bolsonaro persistir, o petista poderá liquidar a fatura já na primeira etapa da disputa. Há uma estabilidade na dianteira do ex-presidente e não há sinal de ameaça séria ao seu favoritismo.

Entretanto, um drummond pode surgir no meio do caminho: Sergio Moro, de 49 anos. Se o ex-ministro e ex-juiz superar Bolsonaro — o que talvez ocorra a partir da definição das chapas —, será, na campanha, um adversário difícil para Lula da Silva.

No momento, há indícios de que o PT está “deixando” Bolsonaro se “queimar” sozinho — a comunicação pessoal do presidente é tão ruim que, embora quase 80% dos brasileiros estejam vacinados com a primeira dose e 65,1% com o ciclo completo (a segunda dose), não há nenhuma capitalização de uma ação positiva —, concentrando-se em “restaurar” a imagem de Lula da Silva e, ao mesmo tempo, em criar “problemas” para Sergio Moro.

Como Lula da Silva está conseguindo “limpar” sua imagem — com o “apoio” de parte da Justiça e, até, da imprensa (motivo: o governo danoso de Bolsonaro une forças que, recentemente, eram “adversárias”) —, o PT articula para “sujar” a de Sergio Moro.

Se Lula da Silva “não” é culpado pela corrupção que ocorreu em seu governo — embora a corrupção seja um fato incontestável —, a Operação Lava Jato “cometeu” uma injustiça grave. Portanto, se não há corrupção financeira por parte de Sergio Moro, pode-se falar, da ótica petista, em corrupção moral ou ética. Porque, de acordo com a avaliação do PT, o paranaense de Maringá excedeu-se, quando juiz, para beneficiar um adversário político da esquerda, Jair Bolsonaro. A rigor, não há prova de que, como magistrado, Sergio Moro tenha atuado politicamente. Até porque a Lava Jato antecede o projeto de Bolsonaro disputar a Presidência. Porém, ao se tornar ministro da Justiça de Bolsonaro, o ex-magistrado forneceu munição aos seus adversários.

Então, ao concentrar fogo em Sergio Moro, o PT opera em dois campos. Primeiro, reforça a ideia de que Lula da Silva é “inocente” e foi vítima da “sanha” (como diz Fernando Morais na hagiografia “Lula — Biografia”, panfleto publicado recentemente para promover o petista) persecutória do ex-magistrado. Segundo, objetiva-se manter o ex-ministro, ampliando seu “desgaste” (que, a rigor, aos olhos do público, ainda nem existe), atrás de Bolsonaro. Porque uma campanha polarizada entre Lula da Silva e Sergio Moro pode não ser política e eleitoralmente favorável para o petista. As histórias do governo Lula e Dilma Rousseff certamente virão à tona — que poderá reforçar a imagem do ex-juiz como um político não-político honesto, um paladino que combatia a corrupção.

Na verdade, Sergio Moro é um enigma para os petistas, que ainda não sabem como combatê-lo. Usar a “honestidade” de Lula, o “absolvido”, para combatê-lo pode ser, em termos eleitorais, um tiro no pé. Avaliar que o ex-ministro vai se digladiar apenas com Bolsonaro, na tentativa de superá-lo, tende a ser um equívoco. O mais provável, para evitar que Lula da Silva seja eleito no primeiro turno, é que o presidente e o ex-juiz concentrem seus “ataques” em Lula da Silva. A batalha vai ser dura.

Em suma, a crítica feita a Sergio Moro pelo PT pode acabar por promovê-lo, e não por desgastá-lo.

No afã de defender Lula da Silva, o PT deixa de se concentrar em três possíveis “vulnerabilidades” de Sergio Moro. Primeiro, assim como Bolsonaro, o ex-ministro não tem experiência para gerir um país continental — com tantas demandas históricas — como o Brasil. Segundo, se eleito, terá uma dificuldade imensa para lidar com a Câmara dos Deputados e o Senado. O Centrão certamente conseguiria enquadrá-lo no segundo ano de governo. Terceiro, o ex-magistrado parece aferrado à ideia de que leis duras podem acabar com a corrupção e criar uma sociedade, digamos, “perfeita”. A corrupção diminui, como provam outros países, mas não acaba. O ex-magistrado tem boas ideias, que podem ser “compradas” pelas classes médias (o povão tende a ficar com Lula da Silva e Bolsonaro, ao menos em parte), mas falta, aparentemente, certa dose de realismo.

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