Ação de Caiado em Goiânia deixou o MDB isolado para a disputa de 2022

Mesmo se Maguito Vilela for eleito prefeito de Goiânia, o governador conseguiu tomar do MDB seu principal aliado, Vanderlan Cardoso

Jornalismo é feito de fatos, e também de conjecturas e especulações, mas o leitor nem é alertado a respeito. Mas, quando se trata de comentar sobre o futuro, o leitor tem de ser alertado que se está transitando na área do imponderável. Feito o alerta, o Editorial vai comentar a conjuntura política de Goiás, a atual, e vai discutir, em linhas gerais, o futuro — que, sabe-se, não tem dono.

Vanderlan Cardoso e Ronaldo Caiado: aliados para 2020 e 2022 | Foto: Reprodução

Assistiu-se, na sexta-feira, 11, a definição de que o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, do partido Democratas, apoiará o senador Vanderlan Cardoso, do PSD, para prefeito de Goiânia na disputa de 15 de novembro deste ano. Há várias implicações, que outros analistas certamente enfocarão, mas vamos nos concentrar em algumas.

Se Vanderlan Cardoso for eleito prefeito de Goiânia, e derrotando Maguito Vilela, do Movimento Democrático Brasileiro, Ronaldo Caiado ficará ainda mais forte para a disputa de 2022. No momento, com popularidade em alta — decorrente de suas virtudes, como decência no trato da coisa pública e preocupação com a vida das pessoas (revelada no combate à pandemia do novo coronavírus) —, já é o nome mais forte para a reeleição. Mas, contando com o apoio do senador, ficará ainda mais forte. Uma vez perguntaram a um estadista: “Por que mexer em time que está ganhando?” Ele pensou e respondeu: “Para ganhar muito mais”.

Ronaldo Caiado é um notável estrategista político, dotado de ampla visão para analisar a conjuntura — que é o que permite visualizar melhor a estrutura —, e por isso está colocando a história para girar em torno de si, o indivíduo, o que até pode surpreender um analista marxista, que só pensa nas massas movimentando a vida, mas não a um liberal experimentado, como ele.

O que se processa, com a candidatura de Vanderlan Cardoso a prefeito de Goiânia, é a retirada de cena de um político de dimensão estadual, que, na disputa de 2022, poderia dar muito trabalho a Ronaldo Caiado, sobretudo por ser capaz de agregar uma frente dos, digamos, “descontentes”. Portanto, ao apoiá-lo, o governador elimina um adversário do jogo político e, ao mesmo tempo, ganha um forte aliado.

Mesmo se Vanderlan Cardoso não for eleito, Ronaldo Caiado permanecerá com o apoio do senador — tanto para governar quando para a disputa de 2022. Frise-se que o líder do PSD, além de político, é empresário e evangélico da Assembleia de Deus. A força dos evangélicos na política de Goiás é considerável, tanto que tem dois senadores, dois deputados federais e dois deputados estaduais (um deles, Henrique César, o mais bem votado da eleição de 2018).

Ao atrair Vanderlan Cardoso, Ronaldo Caiado não apenas fortaleceu sua aliança política. Agindo com habilidade, o governador contribuiu para enfraquecer as oposições. Porque era tido como certo que, em 2022, o senador marcharia junto com o ex-deputado federal Daniel Vilela, presidente do MDB, e com Maguito Vilela, ex-governador. Vanderlan Cardoso seria, segundo as conversações preliminares, candidato a governador, com Daniel Vilela na vice ou candidato a senador.

No momento, o MDB está isolado — segurando a bandeira de principal oposição. Frise-se que uma oposição que lutou, de maneira enérgica, para obter o apoio do governador Ronaldo Caiado para Maguito Vilela, o candidato do emedebismo a prefeito da capital.

O MDB perdeu a interlocução com o núcleo mais forte da oposição — exatamente aquele aos qual pertence Vanderlan Cardoso. Já Ronaldo Caiado agora tem este núcleo como aliado.

Há a ressalva de que o presidente estadual do PSD, Vilmar Rocha, tem dito que o PSD não fechou acordo como Ronaldo Caiado para 2022. É uma questão a ser examinada, mas a respeito da qual não se lançará luzes no momento. O fato é que, se Vanderlan Cardoso for eleito prefeito da cidade mais importante de Goiás — com quase 1 milhão de eleitores (e 1,5 milhão de habitantes) e um PIB alto —, e vitorioso com o apoio do governador, será constrangedor, e não só para o senador, se o PSD não apoiar a reeleição de Ronaldo Caiado. O fato é que Vanderlan Cardoso estará no palanque de Ronaldo Caiado em 2022, caso seja eleito prefeito ou não.

Ronaldo Caiado conta com o apoio do Democratas, PP, PSB, PSD, PL, PTB, Cidadania, Republicanos, PRTB, PSC e Podemos. Trata-se não de uma constelação de partidos, e sim de vários exércitos políticos-eleitorais. Todos com líderes expressivos, como Vanderlan Cardoso, Lissauer Vieira, Alexandre Baldy, Professor Alcides, Zacharias Calil, João Campos, Roberto Naves, Glaustin da Fokus, Republicanos, Adib Elias, José Nelto, Paulo do Vale, Lineu Olímpio, Sandes Júnior, Lincoln Tejota, entre outros. É muito provável que Iris Rezende também apoie Ronaldo Caiado em 2022.

Se disse acima que o MDB está isolado. Trata-se de um fato. Resta-lhe, provavelmente, uma composição com o PSDB de Marconi Perillo para a disputa de 2022. O PDT da deputada federal Flávia Morais e do ex-prefeito de Trindade George Morais ensaia uma rebeldia, mas, como a dupla muda de posição de acordo com os interesses pessoais e circunstanciais, sempre acima dos partidários, não se sabe exatamente como se comportará no pleito de 2022.

E se Maguito Vilela for eleito?
Maguito defende conciliação no MDB

Maguito Vilela, candidato a prefeito de Goiânia pelo MDB | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Postas as questões acima, apresentadas como conjecturas e especulações, ainda que estribadas em fatos, há, finalmente, outra questão a considerar: e se Maguito Vilela for eleito prefeito de Goiânia, derrotando exatamente Vanderlan Cardoso?

Como Vanderlan Cardoso é um político que tem estatura própria, tanto que era cotado para disputar o governo do Estado em 2022, uma possível derrota será sua e não do governador Ronaldo Caiado. O candidato do Partido Social Democrático ganhando ou perdendo, o governador sairá vitorioso. Confuso? Não. Ele terá o apoio do senador para a disputa de 2022 e não o terá como adversário. Portanto, mesmo antes da eleição, Ronaldo Caiado já está ganhando.

Já Maguito Vilela, se for eleito, estará consolidado — assim como Iris Rezende nos dias atuais — como um político municipal, não mais estadual.

Sobretudo, se for eleito na capital, cidade que reverbera em todo o Estado — como espécie de Ítaca de todos os goianos —, Maguito Vilela será o principal agente a fortalecer o projeto político do MDB para a disputa do governo em 2022, seja com Daniel Vilela, seja com Gustavo Mendanha, o prefeito de Aparecida de Goiânia que está se consagrando como a maior revelação política do Estado nos últimos quatro anos.

A tendência, Maguito Vilela sendo eleito, é que o MDB terá candidato a governador, pois terá uma estrutura gigante, contando com Goiânia e possivelmente Aparecida de Goiânia — Gustavo Mendanha dificilmente será derrotado na disputa de 15 de novembro deste ano —, para a grande batalha.

A eleição de Maguito Vilela fortalece o MDB, tornando-o um player tão decisivo quanto Ronaldo Caiado. Mas há um problema que não se sabe como será revolvido. Maguito Vilela é pai de Daniel Vilela. Se o pai for eleito prefeito de Goiânia, o filho terá como ser candidato a governador?

É possível, mas o discurso da panelinha seria retomado, como o foi em 1998, quando Marconi Perillo usou o tema para derrotar Iris Rezende na disputa pelo governo do Estado. A tendência é que o MDB banque outro candidato — como Gustavo Mendanha ou Pedro Chaves (que, se Vanderlan Cardoso for eleito, ganha seis anos no Senado, pois é o primeiro supleante). Daniel Vilela poderia disputar mandato de senador, vice ou deputado federal.

Com a saída de Vanderlan Cardoso do jogo de 2020, o MDB fica, ainda que isolado, como o principal adversário do governador Ronaldo Caiado para 2022. O PSDB, no momento sem lideranças expressivas — os mais significativos respondem a processos judiciais e certamente não terão peso decisivo na disputa de 2022. Talvez mais adiante, se forem absolvidos nas ações judiciais.

Na semana passada, um leitor perguntou, via mensagem: “O PSD poderá ‘rachar’ em 2022?” Não se sabe. Como a bola de cristal do jornalismo é a razão, não dá para oferecer uma resposta precisa à dúvida do leitor, que, no fundo, é a de várias pessoas, inclusive dos políticos.

O que se pode dizer é que Vanderlan Cardoso selou um compromisso com Ronaldo Caiado e se pode especular que Vilmar Rocha, presidente do PSD, “pode” marchar com a candidatura do MDB para o governo, quiçá como candidato a senador — que é seu grande sonho (na chapa do governador Ronaldo Caiado a disputa para o Senado e para a vice está congestionada). Que o leitor retenha a palavra chave — “pode”. No momento, se Vilmar Rocha — respeitado por Ronaldo Caiado — disser que quer ser secretário, por exemplo da Educação, não haverá discussão. Será secretário.

O fato é que, assim como Vanderlan Cardoso, Vimar Rocha é um player da disputa tanto de 2020 quanto de 2022. É um condestável da política de Goiás, assim como Ronaldo Caiado, Iris Rezende, Maguito Vilela e Vanderlan Cardoso. Os cinco são professores de política. Os demais, com uma ou duas exceções, são aprendizes…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.