Ação afirmativa pró-negros do Magazine Luiza merece o aplauso da sociedade brasileira

Trocando a retórica pela prática, empresas do País começam a perceber que os negros não são “pessoas invisíveis” e devem ser incluídos no mercado e na sociedade

Ralph Ellison (1913-1994) é um dos maiores escritores americanos. O romance “Homem Invisível” (José Olympio, 572 páginas, tradução de Mauro Gama), de 1952, sustenta-se, de pé, ao lado de qualquer obra de Herman Melville, Henry James, Edith Wharton, Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, William Faulkner, Richard Wright, James Baldwin, Joyce Carol Oates, Cormac McCarthy, Saul Bellow, Philip Roth, John Updike, Toni Morrison, Thomas Pynchon, Don DeLillo e Richard Ford. Ralph Ellison, escritor negro, é brilhante e sua literatura nada tem de populista. Talvez seja menos popular por ser complexa. O prólogo é, a um só tempo, doloroso e, ainda assim, de rara beleza.

Um dos romances mais candentes e importantes da literatura americana | Fotos: Jornal Opção

Escreve Ralph Ellison: “Sou um homem invisível. Não, não sou um espectro como aqueles que assombravam Edgar Allan Poe; nem sou um ectoplasma do cinema de Hollywood. Sou um homem com substância, de carne e osso, fibras e líquido, e talvez até se possa dizer que possuo uma mente. Sou invisível — compreende? — simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver. Como as cabeças sem corpo que algumas vezes são vistas em atrações de circo, é como se eu estivesse cercado daqueles espelhos de vidro duro que deformam a imagem. Quando se aproximam de mim, só enxergam o que me circunda, a si próprios ou o que imaginam ver — na verdade, tudo, menos eu”.

Vale transcrever mais um trecho: “Nem é a minha invisibilidade exatamente uma questão de acidente bioquímico para minha epiderme. A invisibilidade a que me refiro decorre de uma disposição peculiar dos olhos daquele com quem entro em contato. Uma questão de construção de sua visão interior, aqueles olhos com os quais olham a realidade através dos olhos físicos”.

O homem invisível é, logicamente, o homem negro. Ralph Ellison, falando do negro americano, é tão extraordinário quanto outra escritora negra, Toni Morrison, autora do incontornável romance “A Canção de Solomon”.

O livro de Ralph Ellison saiu nos Estados Unidos em 1952. Há 68 anos. Lá, negros são torturados e assassinados (casos de George Floyd e Breonna Taylor). Felizmente, a sociedade civil saiu às ruas, deixando para trás o ranço conservador e autoritário do governo de Donald Trump e de alguns gestores estaduais. As marchas pelas ruas, sem parar, mostraram que a violência e os assassinatos não podem ficar impunes e têm de ser parados. Os assassinos, racistas do Estado — no caso de policiais —, têm de ser penalizados e devem cumprir longas penas nas penitenciárias. Não basta demiti-los. Advertência da Justiça, se dura, tende a contribuir para impedir ou reduzir novos casos.

No Brasil, não é muito diferente. Negros são agredidos com frequência por policiais militares. Por vezes, são assassinados. O componente racial tem peso decisivo.

Empresas inclusivas

A escravidão foi abolida no Brasil em 1888 — há 132 anos. Mas o racismo prevalece, tão forte quanto camuflado. Tanto que, quando uma medida afirmativa, como a do Magazine Luiza — que está criando um programa de treinamento exclusivo para negros —, é proposta, no lugar de aplaudi-la, cria-se uma falsa discussão sobre “racismo reverso”. Até uma juíza do trabalho disse que o projeto do Magalu (um programa para beneficiar só pessoas negras) “contraria” a lei. Ora, no tempo da escravidão, que era “legal”, era-se obrigatório ficar ao lado dos escravocratas, que estavam ao lado da “lei”, e não dos abolicionistas? Há momentos em que a escolha de um lado é imprescindível. Agora, não há como não aplaudir a ação admirável da empresária Luiza Helena Trajano. No século 19, a big boss do Magalu certamente estaria ao lado dos abolicionistas.

Luiza Helena Trajano: a corajosa empresária do Magazine Luiza desafia o conservantismo patropi e cria programa para qualificar e empregar negros | Foto: Reprodução

Um professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o sociólogo Luiz Augusto Campos, defende a ação do Magalu e de outras empresas. “O problema do conceito de ‘racismo reverso’ é que ele escolhe o caso sem olhar a figura de modo geral. Sem analisar o contexto histórico. Sem medidas como essa, você não consegue superar o racismo na sociedade. Então, essa medida, na verdade, é antirracista”, afirma o mestre. O Ministério Público do Trabalho considera que o programa pode ser enquadrado como “discriminação positiva”.

A reação ao programa do Magalu, que promove a diversidade e a inclusão, mostra que a escravatura não é um retrato na parede. É, isto sim, um retrato guardado na gaveta do armário da desmemória. A ação da empresa nada tem a ver com racismo, insistamos. É uma percepção alvissareira de que há negros — milhões de negros — no Brasil e de que ficam fora do mercado, dos melhores empregos, porque são negros e, em geral, pobres (como adquirir mérito trabalhando oito horas por dia? Como competir com jovens brancos sustentados pelos pais e que, por isso, não precisam trabalhar? No caso, a meritocracia tem de ser posta em questão, porque é injusta).

O Magazine Luiza revela que 53% de seus funcionários são pretos e pardos. Entretanto, tão-somente 16% pretos e pardos ocupam cargos de liderança. Não há nenhum negro entre os principais executivos. Portanto, ao criar o primeiro programa de trainees exclusivo para negros do País — o salário é de 6,6 mil reais —, a empresa demonstra que está adiante do governo do presidente Jair Bolsonaro (que talvez não saiba que um presidente dos Estados Unidos, Lyndon Johnson, da banda conservadora do Partido Democrata, foi responsável por medidas afirmativas que protegeram e abriram espaço para os negros na sociedade americana). “Há uns três ou quatro anos eu reservo três vagas a mais no nosso programa de trainee só para negros. Mas nunca conseguimos [preenchê-las]. Eles não se inscreviam. O processo seletivo não ia de acordo e a gente entendeu que as exigências excluíam negros”, afirma Luiza Trajano. A exigência de inglês, quase sempre, é excludente. Agora, não se exige mais, porém, se for necessário que o funcionário saiba a língua de Ralph Ellison, o Magalu vai bancar sua qualificação.

O Magalu quer mais negros nos cargos de comando, por isso vai qualificá-los. Não vai esperar que cheguem qualificados, porque, obviamente, não chegarão. Não se adquire mérito se não se tem oportunidades.

O fato de a sociedade civil se mover, trocando a retórica por ações, é de grande importância. Empresários estão se adiantando, mostrando que, entre eles, modernidade não é mero discurso. É prática. Indica também que estão de olho nas mudanças da sociedade e, até, antecipando-se a algumas delas. Uma sociedade mais inclusiva é, também, mais tolerante. Porém, quanto ao racismo — estrutural ou não —, além da exclusão dos negros dos melhores postos de trabalho, não se deve ter tolerância.

O Magalu não está sozinho na empreitada de encampar e ampliar a diversidade da sociedade brasileira, dando visibilidade aos negros, abrindo-lhes espaço, mesmo sem a pressão de leis e dos entes do Estado. Fica evidente que empresários estão dando uma lição nos políticos — que estão ficando para trás.

A Bayer Brasil, empresa alemã da área química e farmacêutica, segue o mesmo caminho do Magalu. O grupo tem um programa de trainee com 19 vagas e salários de 6,9 mil reais.

A Bayer tem 6,5 funcionários no Brasil, a maioria, certamente, branca, sobretudo nos cargos com salários mais altos. Mas começa a avançar, o que é positivo.

Este ano, o programa da Ambev para estágio contempla 80 negros. Em 2019, depois do treinamento, contratou dez pessoas negras.

Suzano, Natura, Santander, Unilever, Vivo, Coca-Cola e BRF também abriram vagas para diversidade e inclusão.

Os negros brasileiros não são passivos; pelo contrário, são ativos, participativos. Muito dos programas de inclusão — como as cotas raciais — resulta de suas ações e manifestações, em grupo ou isoladamente. Não são e não aceitam ser invisíveis. Mas há quem queira que se mantenham na invisibilidade. Quando se acusa o Magalu de “racista”, e que estaria cometendo uma ilegalidade, o que se quer, nas hostes conservadoras da sociedade, é manter os negros como “invisíveis”, como “reservas” que jamais ocuparão o lugar de titulares, ou jogarão entre os titulares. O racismo no Brasil é forte, persistente e, por vezes enviesado. Tanto que uma magistrada usou a “lei” para acusar o Magazine Luiza de “discriminação”, quando, obviamente, a ação da empresa é claramente antidiscriminatória. Visa exatamente reduzir a discriminação racial.

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