A falta que faz um Tancredo Neves para moderar Bolsonaro

O presidente eleito, ao indicar Sergio Moro e Paulo Guedes, exibe o caráter progressista de seu governo. Mas enfrentamento com a imprensa é regressivo

Jair Bolsonaro, presidente eleito: as ações do controverso líder do PSL são mais moderadas do que sua linguagem, o que é um bom sinal

O que faz falta ao presidente eleito, Jair Messias Bolsonaro, é um aliado como Tancredo Neves, o político moderado de Minas Gerais. Ao seu lado — como ao lado do ex-presidente Fernando Collor, entre 1989 e 1992 —, não há figuras que possam atuar como contenção ao verbo riocorrente de um indivíduo que fala num tom típico de quem não dialoga — só admoesta e, até, ameaça. Mas parece que as ações do controverso líder do PSL são mais moderadas do que sua linguagem, o que é um bom sinal.

Sereno e consciente de que todos os poderosos passam e a história de seus atos vai julgá-los, Tancredo Neves pediria, neste momento, calma, paciência e tolerância a Bolsonaro. Por não ser áulico, certamente orientaria que se cercasse de auxiliares atentos às vozes da sociedade, não apenas de grupos, por vezes de um irracionalismo clamoroso, que, se contribuíram na campanha, no governo podem atrapalhá-lo. Figuras que só dizem “sim” ao presidente eleito, quando deveriam apresentar ponderações e mostrar-se qual poderá ser o seu lugar na história — um democrata ou “democraduro” —, colaboram mais para prejudicá-lo do que para ajudar o país e o futuro governante.

Há dois tipos de conselheiros que são nefastos para o governante. Primeiro, aquele que, por lhe faltar senso crítico e independência de julgamento e espírito, concordam com tudo o que diz e faz o assessorado. Segundo, aquele que, no lugar de puxá-lo para um eixo produtivo para o governo e para a sociedade, buscam colocá-lo contra os que mantêm uma instância crítica.

Fica-se com a impressão, por vezes, que Bolsonaro “atua” para as redes sociais — parte delas — e não presta atenção aos brasileiros em geral. O que pensa, o que sugere sua radicalização, parece determinado pela fúria de seus aliados. Nas redes sociais, é frequente as pessoas de esquerda serem tratadas como a “escória da humanidade”. A palavra usada é mais grosseira: fala-se em “lixo”. E, se lixo é, precisa ser destruído, ou, como dizem, “exterminado”. A sociedade democrática é diferente disso.

A história ensina que comunistas em geral só são democráticos quando estão na oposição. Quando na situação, fazem o que podem para destruir os oposicionistas — inclusive prendendo-os e até matando-os. A percepção deste fato não indica que os verdadeiros democratas têm de agir da mesma maneira. Na sociedade aberta, a divergência deve ser livre e ninguém deve ser destruído por pensar de maneira diferente da maioria ou da minoria. “Destruir” e “exterminar” são palavras que, na boca de Ióssif Stálin, soviético, e Adolf Hitler, austríaco-alemão, não soam tão estranhas e terríveis. Mas o democrata, que deve respeitar as instituições e aceitar o dissenso como uma maneira de construir uma sociedade pacífica — ainda que com conflitos, o que é normal da vida —, não usa um vocabulário de exceção. Porque sabe que o mal às vezes começa nas e pelas palavras — até se tornarem atos transbordantes de destruição e crueldade. Criticar os comunistas, apontar seu pseudo senso democrático, tudo bem. Mas sugerir que devem ser “varridos” do Brasil — como se fossem os novos judeus — é típico de uma visão antidemocrática e, paradoxalmente, próxima do pensamento da esquerda mais radical, a stalinista. Certamente Bolsonaro não se tornará um stalinista de direita.

Conflito com a “Folha de S. Paulo”

Se só o poder revela o político, não se sabe exatamente o que, uma vez no governo, Bolsonaro fará. Mas, se seguir as regras democráticas — postuladas inclusive pelas Forças Armadas —, acabará por se comportar como Juscelino Kubitschek, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e, sim, Lula da Silva (seus arroubos autoritários foram contidos pela vitalidade da democracia, isto é, das instituições). Quer dizer, não afrontará a democracia.
Ao sublinhar que vai boicotar a “Folha de S. Paulo” — e, sim, é uma ameaça, não é mera crítica —, não lhe concedendo verbas publicitárias do governo federal, ignorando critérios técnicos e a questão da impessoalidade, Bolsonaro mostra vezo autoritário. Não se pode economizar com a imprensa crítica para premiar a imprensa acrítica-louvaminha. Governantes que acreditam nas loas dos áulicos, que não admitem que rumos equivocados podem ser corrigidos pela iluminação da crítica responsável e rigorosa, acabam se dando muito mal. Fernando Collor, levado a acreditar que era uma espécie de novo Júlio César, acabou sofrendo impeachment e sua história, pelo menos até o momento, não pode ser considerada positiva.

Tancredo Neves: um político como o mineiro aconselharia Jair Messias Bolsonaro a arte da paciência e da tolerância com os adversários

Se tivesse um político com a autoridade de Tancredo Neves ao seu lado, Bolsonaro já teria deixado de lado o falatório sobre a “Folha de S. Paulo” e estaria discutindo, como tem feito o economista Paulo Guedes — que oxalá não se torne uma espécie de Simão Bacamarte da política e da economia —, os assuntos mais candentes do país, como o desemprego, a violência, a reforma da Previdência, a Reforma Tributária e a questão da folha de pagamento do funcionalismo público de todo o país (trata-se de um amplo gargalo que impede que os Estados tenham condições de investimento e fluxo normal de caixa).

O conflito com a imprensa não será útil para a sociedade e muito menos para Bolsonaro, que perderá tempo debatendo aquilo que interessa apenas aos fazedores de manchetes. O papel de um presidente da República é servir ao país, não é bater boca com a Imprensa. Quem pode dizer isto sem receio de ser defenestrado e de perder espaço na corte bolsonarista? Se não há esta pessoa, um ombudsman político, é preciso inventá-la. Pois Bolsonaro não é um presidente de si, e a Presidência não é sua. A partir de 1º de janeiro, será o representante de todos os brasileiros — inclusive dos jornalistas independentes, goste-se ou não do novo gestor. O presidente que, em vez de lutar pela paz, prega a guerra se tornará um representante não do país e de seus cidadãos, e sim de seguidores, por vezes fanatizados.

Sergio Moro no governo é garantia de anti-golpismo

Sergio Fernando Moro, como ministro da Justiça, pode ser uma prova de que Jair Bolsonaro não vai partir para uma aventura golpista

O juiz de Direito Sergio Fernando Moro, da Justiça Federal, não tem experiência política suficiente para aconselhar Bolsonaro de maneira abrangente — como faria um Tancredo Neves ou um Jorge Bornhausen. Mas o magistrado, hábil aplicador da lei, entende bem como funciona a democracia. Nesta, o melhor dos sistemas, prevalece a lei, não o rompante de um presidente da República.

Há quem acredite que, assim como Jânio Quadros tentou um golpe ao renunciar em agosto de 1961 — queria voltar nos braços do povo e amparado pelas armas dos militares —, Bolsonaro, se contrariado pelo Legislativo e pelo Judiciário, poderia aderir ao golpismo. A presença do legalista Sergio Moro no governo é sinal de que o chefe do Executivo não tem nenhuma pretensão de se achegar ao golpismo.

Ao colocar o símbolo máximo do combate à corrupção no país num cargo chave de seu governo, Bolsonaro está sugerindo que não repetirá o corrompido governo de Fernando Collor. A escolha de Sergio Moro para ministro da Justiça, com o ministério reforçado, indica claramente que se aspira continuar o combate à corrupção e de que não se pretende desrespeitar as leis. Se afrontado, Sergio Moro deixará o governo — que ficaria com a imagem arranhada, talvez de maneira incontornável. O magistrado, e não se sabe se Bolsonaro percebe isto com nitidez, é o tipo de ministro que, dada sua história, entra para a categoria dos intocáveis. Será útil, até muito útil, ao governo se de fato Bolsonaro pretende expandir a democracia e ampliar a lisura no trato da coisa pública. Sergio Moro não aceitará ser um ministro decorativo nem ajudará a encobrir possíveis desvios. Ou Bolsonaro se mantém no caminho reto, o da democracia e da lisura, ou perderá o auxiliar.

Armadilhas para o presidente da República

Não há inocência em política e no jornalismo. Não há santos, apesar das palavras bonitas. Jornalismo, apesar dos salamaleques dos editoriais, é negócio, às vezes rentável, e não raro deficitário. Jornalista que acredita nas palavras melífluas dos redatores habilidosos, acreditando de maneira literal na tortuosidade da liberdade de imprensa — que às vezes é mais liberdade do comando e de suas ações comerciais —, acaba, não raro, tendo de mudar de posição durante os “combates”. Por isso é possível perceber que um político que antes era criticado duramente passa a ser tratado com luvas de pelica. Porque, insistamos, jornalismo é negócio e, portanto, não se tem notícia de filantropia editorial.

A esquerda é hábil e sutil — o que a direita nem sempre sabe ser. Neste momento, a esquerda, com seus múltiplos articulistas — que tentam fabricar “uma” opinião para que, de tão repetida, se torne “a” opinião pública —, articula para “puxar” Bolsonaro para o campo autoritário. O objetivo é torná-lo um objeto de crítica, não só da esquerda, mas de toda a sociedade, inclusive da Imprensa. O presidente eleito, dado seu caráter impetuoso, além de não ter nenhum receio do enfrentamento político e ideológico, às vezes pensa que está no “ataque” — “vencendo” seu principal adversário, a esquerda — quando, na verdade, está sendo, direta ou indiretamente, instrumentalizado por seus combatentes.

Transformar Bolsonaro num “brucutu” — num déspota não esclarecido —, com o objetivo de facilitar o combate ao seu governo, minando sua imagem desde o início, é uma tacada óbvia, nem é de mestre. O que surpreende é a falta de percepção do presidente eleito — assim como de seus aliados, talvez por não terem visão histórica ampla (calcados no presente, julgam-se donos do mundo?) — de que não jogando o seu jogo, e sim o jogo dos outros. Quem vence uma eleição pensa, quase sempre, que ganhará sempre. Mas o começo de uma possível derrota talvez esteja quando o próprio discurso começa a ser devastado por outro, mais perspicaz.

Bolsonaro pode acreditar que está manipulando os cordões — porque seus seguidores mais fanatizados, os mesmos que, quando desfanatizados, passarão a criticá-lo — quando, na verdade, pode acabar se tornando os cordões ou o marionete.

Se quiser escapar do “controle” da esquerda, Bolsonaro tem de radicalizar o discurso democrático. Senão deixará o governo, daqui a quatro anos, com a imagem degradada, próxima da dos piores generais da ditadura, como Costa e Silva, Emilio Garrastazu Médici e João Figueiredo (cuja linguagem não diferente do presidente recém-eleito). A esquerda está puxando-o, com rara habilidade, para o discurso autoritário, não institucional. Para confrontá-la, no mesmo campo mas sem sua habilidade, pode acabar sendo manipulado, embora pense que está manipulando. A presença séria e competente de Sergio Moro e Paulo Guedes areja o governo, reforçando seu caráter democrático e institucional, mas o presidente não pode ficar para trás, agarrado pelas táticas e estratégias da esquerda. Ganhou no segundo turno, mas está “disputando” um terceiro turno que não precisa “disputar”.

Tancredo Neves diria, possivelmente: “Acorda, Bolsonaro! Pense no Brasil e esqueça as picuinhas”.

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Elson Caetano

O eleitor de Bolsonaro não o quer “moderado” e sim que cumpra suas propostas de campanha sem alteração nenhuma. A direita venceu, porra!!