O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez, na quinta-feira, 11, um discurso polêmico no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), a base de organização da equipe de transição. Após o próximo governante criticar questões relacionadas à responsabilidade fiscal, o mercado “se assustou” e não reagiu bem durante o dia. A bolsa de valores teve a maior queda desde setembro do último ano (3,35%) e o dólar subiu 4%, próximo de R$ 5,40. Para entender melhor sobre tal reação, o Jornal Opção conversou com o economista Adriano Paranaiba, professor do Instituto Federal de Goiás (IFG). 

“O que assustou o mercado recentemente foram os economistas consagrados e famosos, com passagens pelo governo, que apoiaram o Lula como candidato e agora desembarcaram da ideia”, explicou o professor, apontando nomes como Henrique Meirelles, Armínio Fraga e Elena Landau. “Eles haviam sinalizado que o presidente teria compromisso e seria responsável fiscalmente, por isso houve o susto. Eram pessoas que estavam dando uma validação para a próxima gestão”, completou. 

Paranaíba ainda destacou que, até o momento, o próximo presidente ainda não apresentou o plano de governo ou nomes para comandar a economia do País. “Agora devemos ter Ministério da Fazenda e Planejamento, isso aumenta muito a incerteza porque não teremos mais apenas um ministro cuidando de tudo, mas outro que terá muita influência”, ressaltou Adriano. 

Outra questão abordada foi a semelhança de ideias do discurso de Lula com o governo da ex-presidente Dilma Rousseff e a “nova matriz econômica”, o que contribuiu para uma reação negativa do mercado. “A história mostrou que aquele plano econômico nos levou à maior recessão econômica que o Brasil já viveu nas últimas décadas pós-redemocratização. O Estado ser o indutor da economia não funcionou e isso é uma questão de história”,  argumentou o docente do IFG.

O professor ainda defende que é totalmente possível conciliar responsabilidade fiscal com investimentos nas áreas sociais. “Essa foi a proposta do teto de gastos, quando foi criado o teto de gastos por Meirelles e o ex-presidente Michel Temer (MDB), a ideia era que não se gastasse em áreas não essenciais, mas por exemplo, educação e saúde não estão dentro do teto. É uma composição para não comprometer tais gastos sociais que o governo é obrigado constitucionalmente”, disse o economista, ainda destacando que o limite fiscal não é fixo, variando com base na inflação e no Produto Interno Bruto (PIB).

O que é o mercado?

Adriano Paranaiba ainda definiu que mercado é “uma relação entre pessoas”. Dessa forma, quando acontece uma queda na bolsa de valores, seria por conta do comportamento dos indivíduos que mudaram. “São as pessoas, os pequenos investidores que, junto aos grandes, forma os seus investimentos e aplicações, reagindo às informações que foram dadas. Não é nem ‘bolsonarista’ nem uma ‘entidade’”, definiu o professor.