Goiás registra 99 casos de recuperação judicial em 2025 e ocupa 2º lugar no ranking nacional
27 janeiro 2026 às 17h04

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Segundo dados recentes divulgados pelo Serasa, Goiás encerrou o ano de 2025 com 99 casos de recuperação judicial, ficando atrás apenas do Mato Grosso, que lidera o ranking nacional com 115 registros. Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, o advogado empresarial Eliseu Silveira, especialista em reestruturação e recuperação judicial, detalhou, nesta terça-feira, 27, o cenário preocupante das empresas goianas que recorreram à Justiça para tentar sobreviver à crise financeira.

Silveira explica que a recuperação judicial é um mecanismo legal criado para dar fôlego às empresas viáveis que enfrentam dificuldades financeiras. “Antigamente se chamava concordata e desde 2005 passou a se chamar recuperação judicial. Na prática, o devedor ingressa na Justiça apresentando todas as dívidas e credores, pedindo ao juiz um prazo para reorganizar sua vida financeira”, afirma.
O processo garante 180 dias de suspensão das cobranças, prorrogáveis por mais 180, funcionando como uma espécie de carência. Nesse período, a empresa deve apresentar um plano de pagamento aos credores, que votam em assembleia para aprovar ou rejeitar a proposta. “É como uma assembleia de condomínio: os credores levantam a mão e decidem se aceitam ou não o plano”, compara o advogado.
De acordo com Silveira, o principal fator que levou ao aumento dos pedidos de recuperação judicial foi a escalada dos juros. “Já houve época em que o produtor rural pegava crédito subsidiado pelo governo a meio por cento ao mês. Em 2022, a taxa básica de juros chegou a 2% ao ano. Hoje, estamos falando de 15%, o que torna os empréstimos impagáveis”, explica.
Ele lembra que, até poucos anos atrás, produtores conseguiam se alavancar com crédito barato, investindo em grandes safras e obtendo lucro. “O problema é que, com a alta dos juros, o dinheiro sumiu. O produtor que pegava R$ 1 milhão para plantar, no final do ano não conseguia mais pagar, porque a dívida cresceu muito rápido”, afirma.
Especificidades de Goiás
Embora o problema seja nacional, Goiás enfrenta agravantes locais. O estado é um dos maiores produtores de soja e milho do país, com alta produtividade por hectare. Isso torna os impactos financeiros ainda mais intensos. Além disso, fatores climáticos têm contribuído para a crise. “Ano passado tivemos pouca chuva, e em outros anos enfrentamos pragas como gafanhotos. O agronegócio goiano é fértil, mas também muito exposto a riscos da natureza”, ressalta Silveira.
A crise do crédito
Outro gargalo apontado pelo advogado é o fechamento das portas para novos financiamentos. “Hoje não existe mais acesso ao crédito. As instituições financeiras não estão liberando dinheiro para o produtor rural. Isso agrava ainda mais a situação, porque sem crédito não há como investir na produção”, afirma.
Ranking nacional
Inicialmente, Goiás aparecia como líder em número de recuperações judiciais, mas a atualização dos dados de novembro e dezembro mostrou que o estado ficou em segundo lugar. “Mato Grosso encerrou 2025 com 115 casos, enquanto Goiás registrou 99. A maioria é de produtores rurais”, explica Silveira.
Crise estrutural
Segundo Eliseu, o cenário revela uma crise estrutural no agronegócio e nas empresas goianas, marcada por juros altos, falta de crédito e impactos climáticos. A recuperação judicial surge como uma tentativa de sobrevivência, mas, segundo o especialista, não resolve o problema de fundo, que é o custo do dinheiro no Brasil.
“Todo mundo trabalhava alavancado, com capital do banco. Só que o juro ficou caro e as parcelas deixaram de ser viáveis. A conta chegou em 2025 e 2026”, conclui Eliseu Silveira.
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