A Organização das Nações Unidas (ONU) tinha como meta erradicar a pobreza até 2030. Esse compromisso foi assumido há 30 anos, logo após a criação do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, em 17 de outubro de 1992. Só que relatório do Banco Mundial divulgado no início deste mês mostra que mais de 70 milhões de pessoas estão na linha de pobreza extrema em 2020. De acordo com a instituição, 719 milhões de pessoas atualmente subsistem com menos de 2,15 dólares por dia — o que significa pobreza extrema. E a projeção é que até o fim deste ano 115 milhões a mais estejam nesse limiar da fome.

A linha da pobreza teve o valor mínimo reajustado pelo banco, tendo em vista o aumento dos custos em escala global. Antes, era de 5,50 dólares por dia. Agora é de 6,85. Considerando essa faixa, uma em cada cinco pessoas do mundo está abaixo da linha da pobreza.

No Brasil, de acordo com dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV), existem 62,9 milhões de brasileiros ou quase 30% da população, vivendo com renda domiciliar per capita igual ou inferior a R$ 497 por mês (5,50 dólares por dia). O número significa 10,1 milhões pessoas a mais do que em 2020.

O levantamento realizado pelo FGV Social com base nos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresenta um quadro nítido e preciso do que ocorreu nos últimos dez anos, início da série histórica. Em 2012, eram 54 milhões pobres no Brasil, número que caiu para 47,6 milhões em 2014, quando voltou a subir. Em 2018, eram 55,1 milhões. E 2021 terminou com o recorde histórico de 62,9 milhões de brasileiros abaixo da linha da pobreza.

Para o professor de ciências econômicas da Universidade Federal de Goiás (FACE/UFG), Tiago Camarinha, a pobreza é um problema estrutural do capitalismo e que está em profunda crise em todo o mundo. “Cada nação deve fazer sua parte para ajudar a erradicar a pobreza no mundo. Bolsonaro, com sua política econômica representada pelo ministro Paulo Guedes, ao invés de se contrapor a esse problema, buscando mitigá-lo no Brasil, reforça o empobrecimento do povo trabalhador ao defender os interesses dos donos do dinheiro”, explicou.

Histórico

Nos últimos 30 anos, é possível destacar uma série de esforços históricos para a redução desse cenário. Nos anos 1990, havia a famosa campanha empreendida pelo sociólogo Herbert de Souza (1935-1997), o Betinho, com sua organização Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida.

Em 2001, no fim do segundo governo de Fernando Henrique Cardoso, foram implementados os programas Bolsa-escola e Bolsa Alimentação, precursores dos modelos de transferência de renda.

O auge da luta contra a pobreza extrema viria, contudo, na gestão posterior, sob o comando do petista Luiz Inácio Lula da Silva, com o programa Fome Zero e a instituição do Bolsa Família.

O Bolsa Família unificou e ampliou os programas de transferência de renda então existentes. Em 2014 quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) considerou que o Brasil havia saído do mapa da fome, o programa foi apontado como um dos responsáveis pelo feito.

O professor de economia afirmou ainda que além de não acabar, o Brasil aprofundou a crise em que o mundo se encontra desde o final dos anos 2000. “O Brasil tem enorme responsabilidade e plena capacidade de ajudar a humanidade a eliminar de uma vez por todas a pobreza, a fome e a miséria em todas as suas dimensões, tudo depende de nossas decisões e ações”, finalizou Tiago.

O programa Bolsa Família beneficiava 14,7 milhões de famílias em 2021, quando foi extinto pela gestão Jair Bolsonaro. Em seu lugar, foi implementado o Auxílio Brasil, uma das principais bandeiras do candidato à reeleição.

*com informações da DW Brasil