Anderson Alcântara

Terrivelmente contundido. Jogou em um ato de extremo sacrifício. Jogou com seus músculos sangrando. Havia dor em todos os seus movimentos. O Brasil temia a Itália. A Itália temia o Brasil. Era uma batalha estranha. Poucos tiros. Muitas estratégias, muitas emboscadas frustradas. Guerra travada dentro das trincheiras.

Meu pai, meu irmão e eu assistimos o jogo na casa de um vizinho, na companhia de um batalhão de torcedores. Ao final dos 90 minutos, e um 0 a 0 teimoso, fomos informados da prorrogação. Meu coração já não conseguia cumprir sua função. Ele havia sido programado para 90 minutos de solavancos, de perturbação extrema. Mais 30 minutos seria um risco para mim. E para milhões. Era urgente a necessidade de um cardiologista. Mas onde achar um naquele momento? Seguimos o jogo. Seguimos a vida. Novo 0 a 0. Romário não estava tão soberano como durante todo o Mundial. Baggio agonizava. Era uma tortura coletiva. Decisão por pênaltis. Pela primeira vez desde 1930 uma Copa seria decidida dessa forma. E ali, estávamos nós, sentenciados a tal pena.

No momento das cobranças, meu irmão, temendo um precoce infarto, deixou-nos, em desabalada correria. Não suportaria ver os pênaltis. Baresi, o capitão da Itália chuta para fora. Nossos gritos de comemoração foram um chamado para meu irmão, voltar correndo e se filiar novamente como torcedor. Romário não estava entre os batedores escalados, mas acabou se escalando. Não foi um herói omisso. Olhos distantes. Bate. A bola beija a trave e, calma e silenciosa, cai dentro do gol. Nosso herói havia cumprido sua missão na Copa do Mundo.

Após quase todos os italianos e brasileiros escolhidos para a missão, terem acertado e errado, chega a vez de Baggio, o herói italiano. Confesso, que com a poeira dos anos bem assentada, me compadeço de Baggio. Ao chutar a bola em parábola, por cima do travessão de Taffarel, Baggio fez a alegria de 150 milhões de brasileiros. Não tínhamos mais tempo para as nossas misérias. Éramos primeiro-mundo naquele momento. O verbo se fez carne e habitou entre nós. Não imaginei, sinceramente, que houvesse a necessidade de voltar a sentir fome, frio ou dor depois daquela Copa. Naquela época, para mim, ganhar a Copa ou ir para o céu tinha o mesmo significado, a mesma glória, o mesmo gozo eterno.

Anderson Alcântara é jornalista e escritor.