Tom Coelho

Observe a correlação entre a profissão exercida e o curso superior realizado pelos profissionais. Enquanto 70% dos dentistas, 75% dos médicos e 84% dos enfermeiros trabalham na mesma área em que se formaram, apenas 10% dos economistas e biólogos e 1% dos geógrafos seguem pelo mesmo caminho. Exame atento de outras profissões ainda nos indicará que apenas um em cada quatro publicitários, um em cada três engenheiros e um em cada dois administradores faz carreira a partir do título que escolheu e perseguiu.

O fato é que o emprego formal acabou. Nas décadas de 1960 e 1970 o paradigma apontava como colocação dos sonhos um cargo em uma empresa pública. Nos anos 80 experimentamos o boom das multinacionais e empresas de consultoria e auditoria recrutando os universitários diretamente nos bancos escolares. Já na década de 90, o domínio de um segundo idioma, da microinformática e a posse de um MBA eram garantia plena de uma posição de destaque. Hoje, nada disso se aplica.

Há anos que as grandes empresas têm diminuído o número de vagas disponíveis e são as pequenas companhias as provedoras do mercado de trabalho. Ainda assim, a oferta de trabalho é infinitamente inferior à demanda – e, paradoxalmente, muitas posições deixam de ser preenchidas devido à baixa qualificação dos candidatos.

Assim como todos os produtos e serviços concorrem pela preferência do consumidor, os profissionais também disputam oportunidades. Engenheiros que gerenciam empresas, administradores que coordenam departamentos jurídicos, advogados que fazem estudos de viabilidade, economistas que se tornam gourmets. Uma autêntica dança das cadeiras que leva à insegurança os jovens em fase pré-vestibular.

O que falta aos nossos jovens é preparo, o que deveria ser conferido desde o ensino fundamental por meio de disciplinas e experiências alinhadas com a realidade, promovendo um aprendizado prazeroso e útil, despertando talentos e desenvolvendo competências. Um ensino capaz de inspirar e despertar vocações. Ensino possível, porém distante, graças à falta de infraestrutura das instituições, programas curriculares anacrônicos e desqualificação dos professores.

Em vez disso, assistimos a estudantes adolescentes que às vésperas de ingressar no ensino superior sequer conseguem escolher entre Psicologia e Co­municação Social, entre Ar­quitetura e Educação Física, entre Veterinária e Direito.

A escola e a família devem propiciar ao aluno caminhos para o autoconhecimento e descoberta da própria personalidade e identidade. Fornecer informações qualificadas e estimular a reflexão, exercendo o mínimo de influência possível. Muitos são os que direcionam suas carreiras para atender às expectativas dos pais, aos apelos da mídia, à busca do status e do sucesso financeiro, em detrimento da autorrealização pessoal e profissional.

Orientação vocacional não se resume aos testes de aptidão e questionários. Envolve conhecer as diversas profissões na teoria e na prática. Permitir aos estudantes visitarem ambientes de trabalho, ouvindo relatos de profissionais sobre objetivos, riscos, desafios e recompensas das diversas carreiras. Tomar contato com acertos e erros, pessoas bem-sucedidas e que fracassaram. Provocar o interesse e, depois, a paixão por um ofício.

Precisamos voltar a perguntar aos nossos filhos: “O que você vai ser quando crescer?” A magia desta indagação é que dentro dela residem os sonhos e a capacidade de vislumbrar o futuro. Aliás, talvez também devamos colocar esta questão para nós mesmos, pais e educadores.

Tom Coelho é educador, escritor e palestrante em gestão de pessoas e negócios.
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“Acerca da empatia perdida”

É de se constatar cada vez mais adequada, hoje em dia, a aplicação, ao brasileiro médio, do conceito do “homem cordial”. A expressão — cunhada pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda — que, numa análise precipitada, poderia levar à conclusão de que o brasileiro seria dotado de uma aura mítica, portadora de uma simpatia inata, tenta, na verdade, descrever os dois lados do atributo da cordialidade: o homem, que agindo de cor(ação), pratica atos que – para o bem ou para o mal — escapam à esfera da razão. As­sim, por um mesmo e indissociável princípio, “de coração”, enaltece-se ou apunhala-se o outro.

Com as redes sociais — objeto sobre o qual o respeitável historiador perdeu a riquíssima oportunidade de se debruçar —, o referido conceito torna-se ainda de mais fácil percepção, vez que amplificadas e escancaradas as relações mantidas na grande ágora entre os “cordiais amigos” (aqui numa junção de conceitos talhados pelos pen­sadores Buarque e Zuckerberg).
A empatia, instituída como regra nas relações, ao que parece, então, afigura-se como algo para um patamar bem posterior — grassando no nível das utopias. Assim é que — muito provavelmente — nenhum alemão ou dinamarquês esperará que seu vizinho aja, para consigo, com “empatia”, não abrindo mão, aquele, entretanto, do emprego do “respeito” no cotidiano convívio.

Portanto, por ora, melhor talvez fosse priorizar-se uma sociedade em que houvesse — antes — o império do respeito ao indivíduo, para, num momento futuro, almejar-se — quem sabe — uma relação mais empática para com o outro (aí incluídos samambaias, tamanduás e o Meia-Ponte, por exemplo). Ou, como sempre bem soletrado por Aretha Franklin: “R-E-S-P-E-C-T”!

Beto Almeida é técnico judiciário.

“O recurso a antidepressivos poderia ser diminuído e até evitado”

Bacana a pesquisa que aponta que metade dos que usam antidepressivos não estão efetivamente deprimidos. São inegáveis os casos em que a medicação é imprescindível, como os de surtos psicóticos, mas penso que a pesquisa aponta para a importância dos tratamentos psíquicos que resgatam a dimensão subjetiva e emocional de cada um. Se o tratamento possibilitar o encontro do sujeito com seus próprios traumas (e se nesse encontro houver uma delicada elaboração), o recurso à medicação poderia ser diminuído e até evitado.

Cristiano Pimenta é psicanalista.

“O governo russo não assumiu suas responsabilidades diante da tragédia de Tchernóbil”

Vou ler o livro de Svetlana Aleksiévitch [“Vozes de Tchernóbil — A História Oral do Desastre Nuclear”] com calma, mas pela narrativa percebe-se que o governo russo não assumiu suas responsabilidades com a tragédia em relação ao extremo cuidado que se deve ter com todos os atores na hora e no pós-acidente nuclear. Um comportamento de Estado autoritário acostumado a conviver e criar tragédias de grandes dimensões, como foi a política para a Ucrânia na década de 50. Passados 70 anos das explosões de Hiroshima e Nagasaki, que sofreram os mais violentos efeitos da energia nuclear, essas cidades superaram os feitos devastadores de uma bomba nuclear e hoje são cidades referência no Japão, orgulho dos japoneses, que se superaram e conseguiram limpá-las de todos os resquícios das mortíferas radiações nucleares, tornando-as habitáveis novamente.

Introduzi essa história japonesa para lembrar que, 30 anos após o acidente de Tchernóbil, a região é deserta e inabitável, pois lá o acidente ainda não terminou: o reator acidentado continua funcionando debaixo de espessas camadas de concreto. [“Livro de Svetlana Aleksiévitch revela o inferno de Tchernóbil narrado pelas vítimas”, Jornal Opção 2133, coluna “Imprensa”]

Arthur Otto é físico nuclear.

“Um dos maiores assassinos do mundo”

Interessante o texto “Assassinou Nativo da Natividade e foi roubado pelo tio pistoleiro” (Jornal Opção 2051, coluna “Imprensa”). No livro, o escritor descreve com detalhes (mandante e vitima) a maioria dessas quase 500 pessoas assassinadas pelo tal do matador Júlio? Se sim, esse seria com certeza um dos maiores assassinos do mundo. Exemplo: o finlandês Simo Hayha —um dos snipers [atiradores de elite] mais famosos do mundo —, que nasceu em 1905 e foi apelidado de “Morte Branca”, alcançou o número impressionante de 505 mortes (que foram registradas) durante a Guerra Soviético-Finlandesa.

Willian Barbacena de Oliveira é consultor em informática.

“Sinto orgulho de meu País”

Como brasileiro, filho de argentino (este, filho de alemão) e brasileira (esta, neta de italianos), sinto orgulho do meu País e, depois de morar em vários, sei como o Brasil progrediu nos últimos 30 anos. Não à toa está entre os dez mais ricos do mundo.

Fábio Coimbra é sociólogo.

“Psicotrópicos podem minimizar o abuso de analgésicos”

De fato, existe uma certa banalização do uso de psicotrópicos e mesmo do uso de certos diagnósticos psiquiátricos, fatos que frequentemente são alvos de discussão (inclusive pelas implicações éticas e sociais disso). O risco de fazer uma clínica unicamente baseada nos sintomas e no uso da medicação, desprezando a subjetividade, é o de transformar a psiquiatria em uma espécie de “ortopedia da mente”.

Mas o estudo em questão parece focar mais na questão do uso de antidepressivos para outras condições médicas, como a migrânea [enxaqueca] ou a dor neuropática. A medicina, infelizmente, ainda não tem tratamentos específicos para diversos quadros. E, na ausência de um tratamento ideal, usamos os recursos que temos. No tratamento da dor neuropática e da migrânea, por exemplo, alguns antidepressivos mostraram certa eficácia na profilaxia das crises álgicas. Assim, o uso deles pode minimizar o abuso de analgésicos e se constituir num recurso terapêutico mais seguro.

Gustavo Macedo Mustafé é médico.