Valéria Ramos

onibusA cada dia, ando mais revoltada com o Eixo Trinda­de–A­nhanguera. Na segunda feira, 22, já peguei o ônibus lotado em Trindade. Como sempre ocorre, não era possível nem se mexer. Ao chegar à Praça A, todos têm de trocar de veículo, porque até certa hora da manhã o Eixo Trindade só vai até aquele ponto. O terminal da Praça A parece um formigueiro, tamanha a quantidade de gente. É desumano, deprimente, humilhante.

Tive de esperar que passasse meia dúzia de ônibus para então conseguir entrar em um, no qual nem de longe havia a possibilidade de um banco para mim. Ou seja, fui de Trindade até o Centro de Goiânia sem sentar um só minuto. À tarde, na hora de voltar pra casa, qual foi a grande novidade? Nenhuma, todos os ônibus lotadíssimos. Por um milagre, quando cheguei ao Terminal Vera Cruz, consegui me sentar. Aleluia! No dia seguinte, a mesma novela. De manhã, meu ponto lotado, para variar. E novamente a troca na praça A foi da mesma forma.

Ao voltar, à tarde, por um imprevisto no caminho que contarei a seguir, consegui me sentar quando chegava ao Vera Cruz. É que, simplesmente, depois de ter vindo em pé da Rua 20 (Centro) até o Terminal Padre Pelágio, peguei o ônibus para Trindade de um jeito que não dava para respirar, de tanta gente. Na primeira parada do Eixo depois da saída do terminal, eis que acontece uma coisa “linda”: o pneu estoura. Como pode isso? Um ônibus tão bom, tão lindo, tão confortável, todo pleno de manutenção? O motorista ligou para alguém, certamente explicando a situação. Enquanto não vinha um ônibus vazio para pegar o povo que ficou a pé, os que passavam, para lá de lotados, foram pegando mais pessoas entre aquelas que estavam ali.

Quando chegou o ônibus reserva, mais da metade já havia se apertado nos outros que passaram. Mas bastava olhar a situação dos pneus do veículo para ver o descaso com o povo. Queria muito que alguém conseguisse a façanha de colocar os governantes no Eixo Anhanguera por uma semana. No horário de pico. Cedo e à tarde. Levando todos os chutes, empurrões, pontapés e grosserias, para que sentissem na pele o quão bons eles são.

Ainda tem um agravante, que é a falta de educação do povo. Isso de certa forma é até compreensível, porque infelizmente a gente sabe que ninguém do poder público está se importando e que os ônibus são mesmo poucos. Assim sendo, é preciso entrar empurrando no primeiro que aparece, porque está todo mundo cansado da jornada de trabalho e quer chegar a todo custo em casa. E assim somos empurrados para entrar no ônibus. Já se sentar em um desses coletivos do Eixo é um luxo de primeira grandeza!

Aquela lei da física segundo a qual dois corpos não ocupam o mesmo espaço, definitivamente foi derrubada nessa linha. Ali, no mínimo dez corpos ocupam o mesmo espaço. E o preço da passagem ainda sobe, com toda essa falta de estrutura?

Somos tratados pior do que gado, porque em uma carreta de bois só colocam nela a quantia exata de animais que ali se comporta. No Eixo, não: enquanto há uma fresta de luz e ar, entra gente, porque, se não entrar com ele mesmo lotado, não se chega em casa.

Outra coisa que dá revolta é ver vários ônibus vazios na fila, mas que não vão pegar o povo, que está esperando na plataforma. Eles têm de realmente dar tempo para que saiam entupidos de gente. É um descaso total, com falta de respeito e falta de segurança, sem um mínimo de dignidade.

Outro dia ouvi uma pessoa dizer que ela precisava se mudar, para ficar mais perto do trabalho. Eu pensei cá com meus botões: ajuntei dinheiro por anos para comprar uma casa nova e agora eu tenho de me mudar porque o bus não funciona? Não deveria ser o contrário? Não é o transporte que tem de melhorar, já que eu pago, além da passagem, um monte de impostos?

Estou mesmo revoltada. Meu filho, que morou nos Estados Unidos, tem mesmo razão de não querer mais ficar aqui. Está impossível viver neste País. Desculpem-me o desabafo, mas quem sabe assim possamos ao menos encontrar alguém que se importe com o povo.

Valéria Ramos é secretária na Cúria Metropolitana (Arquidiocese de Goiânia).