Opróbrio e ocaso dos Bolsonaros — perspectivas para a direita
31 outubro 2026 às 21h30

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É possível que a capacidade de enganar, junto ao desejo de ser enganado, jamais tenha atingido antes o que estamos testemunhando agora, abismados. As articulações verbais de Flávio Bolsonaro (as decorebas, segundo Lula da Silva), sobretudo quando num embate, são, de um lado, resultado de uma inabilidade inata para pensar e falar com uma dose ainda que mínima de veracidade. Mas são, ao mesmo tempo, menosprezo pela necessidade de convencimento.
É como se desse como certo que o nível de exigência dos seus seguidores se encontra num patamar tão elementar que, no final das contas, o sentido do que fala ou deixa de falar é desimportante. São, acima de tudo, fiéis seguidores.
Grande parte dos seus milhões de eleitores quer distância das dificuldades e nuanças do mundo real. Extasiados, desejam apenas serem guiados. Estão exaustos. Quanto menos terem de refletir, melhor. Menos esforço. É o conforto da mentira que apazigua os tormentos do dia a dia, engana a fome e a humilhante imobilidade social. Estão no limite, no nível mais baixo possível do uso das propriedades do cérebro humano para discernir e tomar decisões.
E tudo isso já estava muito evidente, não é de hoje.
Será possível que tenhamos todos sido forçados a fazer parte dessa risível burla, partícipes involuntários, mas ainda assim partícipes dessa encenação rudimentar — dessa mentira monstruosa?
Mas a fuga e as últimas decisões tomadas por Bolsonaro (proponho que os tratemos a todos eles como uma só entidade) parecem ter a capacidade de inverter o quadro: é a nossa faculdade de discernimento que por um momento se vê obstruída e paralisada.
Que imaginação faustiana seria capaz de prever tamanha patacoada?
Nossa perplexidade, que havia muito ia se aproximando do imensurável, foi sobejamente atropelada pelo mais recente episódio protagonizado pelo clã (lembre-se que, antes de fugir, Flávio teve o cuidado de visitar o pai preso). Enfim, algum crédito deve ser dado a Bolsonaro: ele sempre consegue dar novos significados àquilo que pensávamos já ter compreendido.
Como medir a dimensão do deboche? – do personagem em relação aos seus seguidores, e da sociedade brasileira em relação ao personagem.
Será possível que tenhamos todos sido forçados a fazer parte dessa risível burla, partícipes involuntários, mas ainda assim partícipes dessa encenação rudimentar – dessa mentira monstruosa?
O que ela nos conta – nos espremendo contra a parede, oprimidos pela vergonha de milhões de brasileiros como eu e você – é que o candidato a presidente pela segunda maior força política do país nunca foi, na realidade, candidato num pleito no qual nos envolvemos de corpo e alma. Todos, de um lado e do outro, cada um à sua maneira e de acordo com suas capacidades. Era, então, que o personagem concorreu e levou multidões a se mobilizarem por ele, apenas sob a condição de que a ele estivesse garantida a condição de vitorioso?
Rechaço dos aliados ao manifesto da fuga (a carta de Flávio Bolsonaro) é a mais que necessária pá de cal para que o movimento todo acompanhe o funeral sem se meter no caixão do morto
Se a fuga já era em si mesma uma arrematada estultice, a carta divulgada após a aterrisagem nos Estados Unidos consumou um desastre de grandes dimensões, se não o próprio funeral do bolsonarismo com Bolsonaro.
Seja o que for que venha a acontecer a partir de agora no campo da direita e da ultradireita, não deverá ter mais a família do capitão como protagonista.
Deixada para trás a inolvidável fuga (e a carta fabulosa, com “Brazil” e tudo mais), o que deverá ocorrer é um movimento (ou vários) geral de reacomodação das forças que compõem o bolsonarismo – ou, se você preferir, no topo desse movimento que obteve o apoio entusiasmado de pelo menos 60 milhões de brasileiros. Bolsonaro não os levou no jatinho de luxo no qual embarcou com a mulher e as duas filhas para os Estados Unidos.
Abandonados ao léu, em grande parte seguirão fiéis ao credo, seja quem for que se apresente para conduzi-los. É natural que o entusiasmo seja momentaneamente arrefecido, quase na mesma medida em que se verá aumentado naquela parcela dos seguidores onde o fanatismo (a fé) é o próprio conteúdo da crença – nada mais há ali que não a radical vontade de acreditar.
Da mesma forma como essa energia que move a massa de fiéis seguidores antecede o aparecimento de Bolsonaro, ela certamente continuará existindo após cair para o segundo plano. O que significa dizer que, nesse momento de agudo constrangimento, a fuga deve estar também sendo festejada por aqueles mesmos políticos que até aqui se apresentavam como coadjuvantes, atuando na sombra do mito – e se alimentando dele.
O espaço deixado pela inaudita decisão de distanciar-se da própria base (sua fonte de poder, o combustível que o moveu até onde chegou) já está sendo ocupado pelos príncipes que os acompanhavam na cruzada. Em política, dizem, não há espaço vazio – o que esvazia é imediatamente reocupado.
O unânime rechaço dos aliados ao que poderíamos chamar de manifesto da fuga – aquela afobada e mal redigida carta na qual originalmente o candidato derrotado e foragido se declara presidente eleito – é a mais que necessária pá de cal para que o movimento todo acompanhe o funeral sem, no entanto, se meter no caixão do morto.
Talvez estejam abertas as portas para o aparecimento de uma direita menos ultra, dita civilizada pelos que de repente se tornaram órfãos. Uma direita que signifique eventualmente a alternância de poder – ao invés de ameaça à democracia.
Isso existe? E existindo, quem, afinal, deverá capitaneá-la?
O governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) – cria e enteado de Bolsonaro? Cleitinho (Cleiton Gontijo de Azevedo), governador eleito de Minas Gerais? Ou está sendo ainda gestado no ventre sempre muito criativo da política tradicional da terra brasilis?


