Cezar Santos
Cezar Santos

Triste do país que precisa de heróis. O Brasil precisa

Em democracias falhas como a brasileira os conceitos de ética e de espírito público no exercício do trabalho resultam como exceção, quando deveriam ser a praxe

Ex-ministro do Supremo Joaquim Barbosa e juiz federal Sérgio Moro: heróis por fazerem o que é certo

Ex-ministro do Supremo Joaquim Barbosa e juiz federal Sérgio Moro: heróis por fazerem o que é certo

Há algumas semanas o articulista Roberto Pompeu de Toledo, da revista Veja, escreveu um texto intitulado “Três heróis”. Ali, ele celebra três tucanos que, no seu entender, ainda seguram o que há de dignidade política no PSDB, o maior partido de oposição a essa coisa eticamente disforme que se chama petismo.

Dou a palavra a Toledo no trecho em itálico:

O primeiro é Alberto Goldman, 78 anos, ex-deputado, aguerrido opositor da ditadura militar, vice-governador de São Paulo sob José Serra e governador quando lhe incumbiu completar o mandato do titular. Goldman insurgiu-se na semana passada contra o apoio do PSDB ao deputado Eduardo Cunha. Declarou ele ao jornal O Globo: “Quando os meninos veem um filme de terror e sabem que alguém vai morrer, dizem: `Fulano é carne morta. Cunha é carne morta. Tomara que leve consigo alguns pesos que serão bem levados”. Antes, Goldman já havia criticado seu partido pelo apoio à derrubada do chamado fator previdenciário, invenção do governo Fernando Henrique para inibir as aposentadorias precoces.

O segundo herói é Arnaldo Madeira, 75 anos, fundador do PSDB, ex-vereador de São Paulo, ex-deputado federal e coordenador do programa de Aécio Neves na campanha presidencial do ano passado. Madeira critica o apoio de seu partido à derrubada do fator previdenciário e ao fim da reeleição, duas medidas instituídas durante o governo Fernando Henrique. Disse ele ao colunista Bernardo Mello Franco, da Folha de S.Paulo: “Está difícil entender o partido. Em vez de defender conceitos, estamos fazendo uma oposição igual à que o PT nos fazia. Só falta o PSDB votar contra a Lei de Respon­sabilidade Fiscal”.

O terceiro é o deputado Samuel Moreira, 52 anos, mineiro criado em São Paulo, ex-prefeito de Registro (SP), ex-deputado estadual, eleito deputado federal pela primeira vez no ano passado. Moreira é um estranho no nosso panteão. Ao contrário dos dois anteriores, figuras históricas do tucanato, era até duas semanas atrás um obscuro estreante na política federal. Conquistou a posição, com louvor, por ser o único, entre os 54 integrantes da bancada do PSDB na Câmara Federal, a votar pela manutenção do fator previdenciário, na votação dos vetos presidenciais do dia 23 de setembro. “Criar mais despesas para a Previdência não é prudente para o momento que o país está vivendo, com os cofres públicos dilapidados”, disse ele.

Nossa trinca de heróis prova, coisa rara, nestes dias, na cena política, que há ainda gente capaz de pôr os valores acima das manobras oportunistas. O contraste com relação à infeliz bancada tucana na Câmara, regida pelo deputado Carlos Sampaio, segundo pauta do senador Aécio Neves, eleva-os e dignifica-os. O líder Carlos Sampaio fez de sua gente dóceis carneirinhos a serviço do enrolado Eduardo Cunha. Na semana passada vacilou, diante da evidência das contas suíças em nome do presidente da Câmara, mas ainda assim disse que Cunha merecia o “benefício da dúvida” e deveria continuar na presidência da Câmara.

Encerro aqui o trecho do texto de Roberto Pompeu de Toledo. E observo que, felizmente, talvez tardiamente, porém, o PSDB teve na semana passada, em relação a Eduardo Cunha, um surto, digamos, de lucidez. Na terça-feira, 10, a bancada tucana decidiu que defenderá a cassação do mandato do presidente da Câmara. A medida foi tomada porque os tucanos consideraram “fantasiosa” e “pífia” a defesa apresentada por ele até agora.

Bem, melhor tarde do que nunca, em se tratando da maior legenda oposicionista, quando está muito claro que Eduardo Cunha é indefensável.

Mas não é exatamente sobre isso que se vai falar aqui. É a propósito de heróis, tema tratado por Roberto Pompeu de Toledo. Aliás, o conceito de herói está malbaratado em nossa terra. Certa vez o apresentador Pedro Bial chamou heróis aqueles moços e moças que participam de um programa chamado “Big Brother Brasil” (!!!)

Na verdade, um país é forte democraticamente na medida em que suas instituições funcionam de forma estável, tranquilas até o ponto em que a paulatina mudança de costumes e ideias vai causando pressões naturais no tecido social e nas legislações, modificando-as para consentaneidade com os novos tempos.

Quando as instituições funcionam assim, não é preciso que figuras isoladas sejam destacadas em um ou outro contexto. Não é o caso do Brasil, uma democracia jovem e disfuncional, onde a delinquência política alcançou níveis inimagináveis; onde um partido, o PT, resolveu que poderia utilizar a corrupção como ferramenta para perpetuação no poder. E o que o PT conseguiu com isso, na verdade, foi levar ao paroxismo a degradação moral e ética da nossa política.

Por isso mesmo, dependemos de heróis. O ministro (aposentado) Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal (STF) foi um recente herói brasileiro (ainda é, para muitos). Foi por sua obra (não só dele, é bom que se diga) que criminosos políticos e empresariais foram condenados no julgamento do mensalão, o esquema de compra de apoio político no Congresso, armado diretamente por Lula da Silva e executado por seu preposto José Dirceu.
Agora, é o juiz Sérgio Moro que encarna o herói brasileiro. Graças a ele, o Brasil e o mundo estão vendo criminosos de colarinho branco respondendo a processos e sendo presos, no rastro das investigações do chamado petrolão, o assalto que próceres do PT, do PMDB e do PP armaram aos cofres da Petrobrás.

Joaquim Barbosa e Sérgio Moro não trabalharam sozinhos. Mas eles personificam um trabalho que dá esperança de que o Brasil um dia seja um país melhor. Eles personificam os heróis de que o Brasil ainda carece.

Como os três heróis tucanos celebrados por Roberto Pompeu de Toledo — e talvez, quem sabe, achemos, procurando bastante, heróis nos outros partidos também —, Barbosa e Moro são nossos heróis. Homens que se entregaram às respectivas tarefas com a noção de que delas dependia a esperança de um povo.

Infelizmente, eles se destacam no deserto de dignidade que se tornou nosso País. E por isso mesmo são heróis do Brasil.

E me acorre agora: ambos são odiados pelo PT!

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