Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Presidente Bolsonaro não deseja ter palanque em Goiás?

Mesmo contando com a simpatia do eleitorado goiano, presidente não deveria dispensar aliança com líderes políticos regionais ao traçar uma estratégia de reeleição

Em uma passagem rápida por Goiânia, na última semana, o filho “zero três” de Bolsonaro diz que o presidente não precisa de palanque em Goiás para fazer sua campanha para recondução ao Palácio da Alvorada. O que motiva a fala do deputado federal Eduardo Bolsonaro é o fato de Goiás ter um eleitorado considerado mais conservador. Mas, para um governante que segue enfrentando tantos desgastes políticos, embates com outros poderes e, principalmente, pesquisas apontando derrotas em quase todos os cenários políticos, realmente não precisa de palanque em Goiás?

Diferentemente do filho “zero três”, Jair Bolsonaro demonstra preocupação com as eleições de 2022. Ele quer se manter no poder, inclusive já disse não ver outro cenário que não seja sua reeleição. Mas para isso é preciso arregimentar forças. Quando as pesquisas não lhe são positivas, é comum que se pense em alianças que vão além dos apoiadores que lhe orbitam atualmente.

A receita que Eduardo Bolsonaro defende para o seu pai é a de andanças pelos Estados, principalmente naqueles em que ele já tem maior favoritismo entre os eleitorados. A invenção da motociatas — ou comiciata, para ser mais preciso — é a clara demonstração de que a estratégia é a de aclamação pela sociedade. Bolsonaristas apostam no modelo de antecipação de campanha — desprezando o fato de que a polarização com o petista Luiz da Silva também ocorre entre os líderes e parlamentares em Brasília. O ex-presidente Lula da Silva tomou conhecimento disso e já trabalha com os líderes regionais para formar importantes palanques. Cientistas políticos apontam que o chefão do PT age como político profissional, o que lhe garantirá vantagem na campanha em 2022. Há quem aposte que já tem um lugar garantido no segundo turno.

Petistas não estão entrando na tática de movimentação popular. A estratégia é trabalhar nos bastidores. A eleição em 2022 será diferente. Pela primeira vez candidatos a deputado estadual e federal podem não ter as coligações a seu favor (tudo indica que o Senado não vai aprová-las). É neste cenário que parlamentares e candidatos farão as contas que vão ao encontro do interesse em eleger ou reeleger. O exemplo maior desta situação é o fato do Centrão — que tem membros em ministérios — ainda estar dividido (no Nordeste, por sinal, parte do Centrão está fechando, desde já, com Lula da Silva).

Contra a fala do filho “zero três” do presidente, Bolsonaro encontra em Goiás campo fértil para ter um palanque eleitoral em 2022. O principal é claramente o do governador Ronaldo Caiado (DEM), que buscará a reeleição ao cargo. O democrata construiu uma ampla aliança — que reúne todas as grandes siglas. Além disso, ele conta com apoio significativo da maioria dos prefeitos em Goiás. Ao contrário de Bolsonaro, Caiado trabalha para ter uma grande quantidade de palanques e buscar um resultado que lhe garanta forças para tocar o segundo mandato.

Ronaldo Caiado, que tem forte ligação com o setor agropecuário e com as pautas conservadoras, é aprovado pelos goianos. As pesquisas que foram feitas até aqui o indicam como primeiro colocado na disputa pelo governo do Estado. Não seria interessante para Bolsonaro reforçar sua imagem tendo como parceiro de palanque um político com tal perfil? Para isso ele precisaria desatar os nós criados por suas falas e críticas ao governador de Goiás, que na última semana serviu apenas para distanciá-los.

Há, por outro lado, o prefeito de Aparecida de Goiânia, Gustavo Mendanha, que, embora se mantenha no MDB — que já é quase certo na chapa de Ronaldo Caiado —, trabalha para se lançar candidato ao governo. Para que seu projeto se concretize, ele precisará embarcar em outra sigla. A quem aposte no PSDB, mas não deve ser esse o destino de Mendanha. Especula-se que ele deva ir para um partido que componha com facilidade com os tucanos, e assim ele seria o cabeça em uma chapa que possa contar com Marconi Perillo. Ele negocia com o PL de Magda Mofatto, com o Patriota de Jorcelino Braga, com o Podemos de Felipe Cortês, com o PSL do deputado federal Delegado Waldir Soares e com o PSDB de Marconi Perillo.

Essa é uma chapa que tende muito mais a se abrir para Bolsonaro do que para Lula — caso os tucanos não consigam de fato lançar João Dória ou Eduardo Leite. Mendanha já surfou na onda do bolsonarismo (e reabriu diálogo com o deputado federal Major Vitor Hugo, o principal epígono de Bolsonaro em Goiás). E uma chapa com PSDB não parece ser um ambiente propício para dar palanque a Lula.

Ainda há um projeto do deputado federal Major Vitor Hugo (PSL). Ainda aguardando a filiação e o aval de Jair Bolsonaro, o parlamentar já demonstrou interesse em ser o candidato bolsonarista que disputará o governo de Goiás (é citado também para o Senado). Para isso ele aposta em um distanciamento cada vez maior entre Caiado e o presidente. Mas o deputado, antes de pensar em viabilizar um palanque para Bolsonaro, precisa saber para qual partido vai migrar — ele promete seguir o presidente na filiação, e a depender do partido escolhido pode dificultar uma candidatura no Estado.

O único palanque que no momento está fechado para Bolsonaro é o do PT. Lula da Silva quer muito fazer campanha por aqui e o seu partido talvez seja o que mais ampliou as negociações. O PT, segundo o deputado Rubens Otoni, está aberto para conversar com todos e quer unir forças para em 2022 com um objetivo só: dar palanque para Lula da Silva. É provável que o PSB embarque neste projeto e tenha até o cabeça de chapa. Há quem postule que o candidato a governador pode ser o deputado federal Elias Vaz, presidente regional do PSB, com Kátia Maria, do PT, na vice.

Por fim, é fato que Bolsonaro tem uma boa aceitação entre o eleitorado goiano. Mas daí a desprezar líderes políticos do Estado não parece inteligente. A fala do deputado Eduardo Bolsonaro talvez não represente o pensamento do pai. Mas, faltando pouco mais de um ano para as eleições, seria interessante Bolsonaro pensar em como valorizar seus apoiadores em Goiás se alinhando com um projeto que considere positivo para seu eleitorado. Estaria o presidente se eximindo de qualquer compromisso regional com eleitores que o apoiam?

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