Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

O médico e o mito: Ronaldo Caiado se descola de Bolsonaro diante da pandemia de Covid-19

Apesar de serem ideologicamente alinhados, o governador goiano demonstra que evoluiu como gestor enquanto o presidente permanece um neófito

Caiado e Bolsonaro: ambos de direita, mas gestores diferentes | Foto: Divulgação

É diante de grandes dificuldades que os líderes se revelam. Governar diante de crescimento econômico e de pleno emprego é relativamente confortável. O ex-presidente Lula fez isso e ainda hoje colhe os louros da popularidade. Quando a crise chegou, a sucessora, Dilma Rousseff, se afundou em sua incapacidade técnica e política. O resultado todos sabemos. Michel Temer assumiu o país em pré-solvência e pagará o pato por muitos anos.

Winston Churchill é um dos casos mais exemplares. Contestado pela fracassada campanha de Gallipolli, na Primeira Guerra, tornou-se primeiro-ministro em 1940, quando a Segunda Guerra já estava em curso, mesmo sob desconfiança do rei George VI. Em 18 de junho daquele ano, proferiu aquele que é um dos discursos mais famosos da história contemporânea – rivalizando em popularidade com o de Martin Luther King em agosto de 1963.

Exagero dizer que o resultado da Segunda Guerra foi obra de um homem só. Mas Churchill entrou para a história e para o imaginário popular como um dos líderes que levaram os aliados a derrotarem o eixo do mal, liderado pelo austríaco Adolf Hitler. Biógrafo do líder britânico, Martin Gilbert (autor de Churchill – Uma vida) o classifica como um homem que sabia “motivar, persuadir e fazer alianças”.

A guerra que o Brasil trava atualmente é metafórica. O inimigo é invisível, um vírus, mas os estragos são concretos: a economia derrete, o crescimento trava (a estimativa para o Produto Interno Bruto para 2020, que rondava os 2%, caiu para 0,02%), pessoas adoecem e morrem aos montes. Os efeitos psicológicos da pandemia de Covid-19 são imensuráveis.

Em momentos assim, a população precisa de líderes que representem a segurança que lhes falta. Além do planejamento e execução de ações, espera-se também um exemplo a ser seguido. Uma pessoa que conduza uma família, um povo, uma nação.

O Brasil se encontra órfão dessa figura. O presidente Jair Bolsonaro, que deveria assumir esse papel, tomou caminho inverso aos dos demais líderes mundiais. Assim como Lula classificou a crise de 2008 de marolinha – o que foi um dos seus maiores erros na Presidência – Bolsonaro agora chama de histeria a reação à pandemia.

Pior, comporta-se de forma irresponsável, ao estimular aglomerações e até participar delas. De quebra, atinge a autoridade do ministro Luiz Henrique Mandetta, que se revelou um líder à frente do Ministério da Saúde. A reação de Bolsonaro só ocorreu na última quart-feira, 18, quando reuniu todos seu ministério para anunciar medidas para combater os efeitos da epidemia em território nacional.

Porém, o resultado ficou comprometido pela cena que foi montada. A cena de Bolsonaro se embaralhando com a máscara cirúrgica lembra a foto histórica do presidente Jânio Quadros, enrolado nas próprias pernas na ponte entre Uruguaiana (RS) e Libres (Argentina), em 1961. O clique mágico do fotógrafo Erno Schneider é o resumo perfeito daquele momento – e prenunciava o que viria pela frente.

Bolsonaro, na capa do Jornal Extra, e Jânio Quadro, na foto histórica de Erno Schneider

Em Goiás, Caiado toma outro rumo

Em Goiás, ao contrário, Ronaldo Caiado tem se portado como o governante que se espera. Enfrentou uma turba robotizada que teimou em se manifestar no dia 15, em um ambiente em que parecia que ele seria bem recebido – e, inicialmente, o foi. Na imprensa, tem sido firme e didático nas explicações das medidas tomadas pelo governo.

Mesmo adversários políticos, como o presidente do MDB goiano, Daniel Vilela, admitiram que o democrata tomou para si a briga contra o novo coronavírus. Curiosamente, até agora, as únicas vaias contra o governador goiano partiram exatamente daqueles que, teoricamente, têm afinidade ideológica.

Caiado repete que tem agido mais como médico que como político. Pode ser. Mas, como governador e como homem público há décadas, qualquer ação sua tem caráter político. E não há porque não notar que o momento atual pode marcar uma inflexão em seu governo. Depois de um ano de forte crise fiscal, em que teve de tomar decisões impopulares, o democrata está pisando em solo mais firme. Por ser médico, tem condições técnicas de tomar as decisões mais acertadas. Caso consiga os resultados que pretende, que é reduzir os danos à população, especialmente a mais carente, certamente terá um salto de popularidade – ainda que a pandemia provoque mais dificuldades para os cofres públicos.

É cedo dizer, pois os impactos da pandemia podem ser devastadores para todos os gestores brasileiros, caso ela saia do controle. Mas a reação inicial dos dois gestores, Bolsonaro e Caiado, deixou bem claro que ideologias não significam pasteurização de pensamento. Ambos de direita, presidente e governador mostraram como um tem evoluído como gestor e outro continua um neófito.

Bolsonaro comprou briga com o Congresso, com governadores e mesmo com alguns de seus aliados, como o falecido Gustavo Bebianno. Tem atuado para esvaziar auxiliares que se destacam, como Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública), Paulo Guedes (Economia) e, agora, Mandetta (Saúde). Perdeu apoio de liberais (que já perceberam que o presidente é apenas um nacionalista) e começa a ser visto com ceticismo por conservadores.

Caiado, ao contrário, trabalhou para construir uma base na Assembleia Legislativa e fortaleceu secretários em momentos difíceis, como Cristiane Schmidt, da Economia. A briga com os empresários em torno dos benefícios fiscais é vista com simpatia por parte da população.

Ao agir, como ele próprio disse, primeiramente como médico e não apenas como governador, Caiado tende a sair mais forte da pandemia do que entrou. Já Bolsonaro permanecerá como mito.

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