Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Isolamento social perde a guerra contra o coronavírus

As causas são muitas, desde as condições sociais à compreensão de que a Covid-19 não é tão letal, mas uma coisa é fato: o brasileiro decidiu ir às ruas 

Os mais recentes dados sobre o isolamento social no Brasil – e, especialmente, em Goiás – mostram que o “fique em casa” perdeu para o “o Brasil não pode parar”. O brasileiro, definitivamente, decidiu que mais vale a pena arriscar o contágio pelo coronavírus que esperar pelo controle da pandemia. Os motivos são vários.

Antes de mais nada, o brasileiro é um cidadão pouco afeito à disciplina. Basta uma volta de meia hora pelo trânsito de qualquer município para se observar todo tipo de transgressão nas regras de trânsito. Basta observar os pontos de ônibus – onde as filas inexistem. Basta andar pelas calçadas, que não seguem o mínimo padrão e regras pré-estabelecidas.

Em segundo lugar, a comunicação da doença, que, desde o início, levou as pessoas a acreditarem no malfadado conceito de grupo de risco (que já havia feito um enorme estrago quando surgiu a aids). Muita gente considera-se imune, por ser jovem.

Outro aspecto é que parte da elite brasileira jogou contra o isolamento social desde o início. Quando se fala em elite, não é a classe média ou pequenos empresários (que têm, sim, todos os motivos para o desespero), mas dos megaempresários. Quem não se lembra das palavras do dono do Madero, Júnior Durksi: “O Brasil não pode parar por causa de 5 mil ou 7 mil mortes”.

Não se sabe o que ele pensa agora que já são 11 mil mortes. Mas, poucas semanas após o início da quarentena, a rede dispensou 600 funcionários. Uma rede que lucrou R$ 300 milhões em 2019 decidiu que não poderia segurar o emprego dessas famílias mais que 15 dias.

Aí, temos os brasileiros mais pobres, que são a imensa maioria da população. Não há como convencer uma pessoa que não tem o que colocar na geladeira e dar para os filhos a ficar em casa. Afinal, arriscar é o esporte mais praticado por essa parcela da população: a cada dia, ao sair de casa, arrisca-se levar um tiro na próxima esquina; arrisca-se a contrair todo tipo de doença pela falta de saneamento; arrisca-se a não ter comida em cima da mesa.

A ajuda de R$ 600 é importante, mas obviamente insuficiente. Além disso, ela não está chegando a todos que precisam, seja por problemas burocráticos, seja por questões técnicas (o aplicativo é problemático), seja pela falta de acesso à internet por boa parte dos cidadãos.

Melhor, portanto, correr o risco de contrair o coronavírus nos ônibus lotados que esperar a ajuda que nunca vem.

Não se pode esquecer, é claro, da postura do presidente Jair Bolsonaro. Desde o início, o capitão posicionou-se contra a quarentena, desdenhou do poder de fogo da Covid-19 e priorizou o discurso de que a quebra da economia mataria muito mais que o vírus. O que ele fala tem muito peso.

De quebra, inclua-se na equação a politização e os interesses eleitorais que se misturaram ao necessário foco no combate à doença e às suas sequelas na economia do País.

Tem-se a tempestade perfeita e o esforço feito no início da pandemia, com altas taxas de isolamento social, vai pelo ralo. E os mortos continuam sendo contatos aos milhares, e as empresas quebram aos montes.

O Brasil não salvou vidas nem empregos.

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