Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Goiânia dá um salto no escuro, mas manter a quarentena é cada vez mais difícil

Planejamento da capital é de reabertura gradual das atividades ainda paralisadas, quando aumentam os diagnósticos de coronavírus

Depois de mais de dois meses de quarentena, Goiânia começa o processo para reabertura das últimas atividades econômicas que seguiam vetadas – exatamente aquelas que são consideradas as mais perigosas para a transmissão do coronavírus Sars-CoV-2, causador da Covid-19. A decisão da Prefeitura, após forte pressão de segmentos organizados do comércio e serviços, ocorre em um momento especialmente delicado: o número de casos cresce em velocidade preocupante ao mesmo tempo em que os indicadores econômicos começam a revelar o tamanho do estrago causado pela pandemia.

Na semana que passou, a média de diagnósticos diários de Covid-19 em Goiânia foi de 52 (até a sexta-feira, 29). Na semana anterior, eram 37 por dia. Possivelmente, nesta semana, será rompida a casa de 2 mil infecções pelo coronavírus na capital goiana. O aumento, já esperado desde que o primeiro caso foi registrado, era esperado. Mas a velocidade e a coincidência com o relaxamento das medidas de isolamento social acendem o sinal de alerta.

Também na última semana começaram a chegar os primeiros dados que revelam o impacto da paralisação das atividades econômicas. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foi o portador das más notícias. Em um dia, divulgou que 5 milhões de brasileiros perderam o emprego no primeiro trimestre do ano (a maioria, autônomos e informais). Noutro, que o Produto Interno Bruto (PIB) encolheu 1,5%, descendo ao patamar de 2012.

Para completar a tempestade perfeita, estudo da Universidade Federal de Goiás (UFG) trouxe um dado estarrecedor: a continuar os atuais índices de isolamento social, o Estado pode alcançar uma média de 162 mortes por dia até o final de julho. Com o possível fim da quarentena, a tendência óbvia é a de que o isolamento social diminua ainda mais.

O cronograma da Prefeitura prevê o retorno de todas as atividades até o final de junho. Começando pelos shoppings, depois feiras especiais e, finalmente, escolas. Contudo, as aulas só devem retornar em agosto.

Não há, porém, qualquer certeza de que o calendário seja efetivamente concretizado, ainda que o setor empresarial assim o deseje. O coronavírus não respeita o passar da folhinha. Caso ocorra uma explosão de casos, pode ser necessário retroceder e impor um isolamento social ainda mais rigoroso que aquele da segunda quinzena de março.

Os técnicos da Prefeitura fizeram o escalonamento do retorno de acordo com o potencial de contágio de cada atividade. No primeiro grupo, estão imobiliárias, times de futebol (apenas para treinamento) e mercados populares. Em seguida, shoppings, comércio varejista e profissionais liberais. Depois, galerias, feiras especiais, clínicas de estética, hotéis e restaurantes. Por fim, academias de ginástica, escolas de natação, eventos, clubes, bares e escolas. O intervalo de abertura entre cada um desses grupos é de uma semana. As escolas, porém, devem retornar apenas em agosto.

Exemplo

Não há dúvida da necessidade de retorno das atividades econômicas. A crise, que já começou e não tem hora para acabar, será severa. A contagem de falências seguirá junto da contagem de mortes por muitos meses. E a tendência é que os tempos de vaca magra se prolonguem bem mais que o da própria pandemia – ainda mais se as previsões de uma vacina para o início de 2021 se confirmem.

Governador Ronaldo Caiado mostra as projeções de avanço da Covid-19 em Goiás | Foto: Divulgação

O problema é saber o momento certo e a forma ideal da retomada. Por ser uma doença nova, que exigiu medidas novas (pela primeira vez na história tantos países impuseram restrições à circulação de pessoas, em menor ou maior grau, simultaneamente). Não existem soluções simples para questões complexas.

É interessante observar o que está sendo feito no Rio Grande do Sul. Ao contrário de outros Estados, os gaúchos decidiram por bloqueios regionais. Assim, regiões com mais casos de Covid-19 têm restrições mais severas. Nas menos atingidas, há mais liberdade de funcionamento do comércio e circulação de pessoas. Leva-se em conta, também, a disponibilidade de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTIs) e a taxa de transmissão de cada doente. Modelo semelhante começa a ser introduzido em São Paulo.

Na última atualização, 12 das 20 regiões tinham a bandeira laranja, que indica risco médio. As demais indicavam risco baixo. Quando o modelo teve início, no dia 11 de maio, havia 2.576 casos no Rio Grande do Sul e a taxa por 100 mil habitantes era de 22,64, a 22ª menor do Brasil. No boletim de quinta-feira, 28, o número de casos chegou a 8.274, mantendo-se na 22ª colocação.

Para efeito de comparação, Goiás tinha 1.100 casos no dia 11 de maio, sendo a terceira menor taxa de infecção por 100 mil habitantes (13,85). Com 3.090 casos na quinta-feira, o Estado seguia com a terceira menor taxa por 100 mil (44,03). Ressalte-se que há outras questões envolvidas, como porcentual da população testada.

Nas últimas semanas, a taxa de crescimento diário dos diagnósticos no Rio Grande do Sul superou a do Brasil em 12%. No início da quarentena seletiva, ela era 23,4% menor que a do País. Novamente, cabe a ressalva sobre a quantidade de testes em cada região brasileira.

Como se vê, pelos dados, em relação à doença propriamente dita, o modelo de isolamento do Rio Grande do Sul não traz muita luz. Mas, ao menos, tem permitido alguma movimentação na economia do Estado.

E o comprador?

Porém, mesmo com a volta do comércio, fica a pergunta: o consumidor vai aparecer? Tudo leva a crer que ele vai dar as caras muito timidamente. Em conversas reservadas, pessoas que trabalham em concessionárias de veículos em Goiânia dizem que talvez fosse melhor permanecer fechado, pois o cliente subiu e as lojas precisam arcar com os custos de manter as portas abertas.

Rua da Região da 44: o comprador vai voltar? | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção
Rua da Região da 44: o comprador vai voltar? | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Levantamento recente do Datafolha explica o porquê da situação. Quase 60% dos trabalhadores brasileiros relatam redução na jornada de trabalho e respectiva redução salarial. Isso entre os que ainda conseguiram se manter empregados. Muitas empresas recorreram à Medida Provisória 936, que permitiu, entre outras coisas, suspender os contratos dos trabalhadores – que, dessa forma, recebem o equivalente ao seguro-desemprego sem serem demitidos. A pesquisa mostra, ainda, que 68% das pessoas preveem um cenário difícil pela frente, pois acreditam que os efeitos da pandemia na economia serão duradouros – o que é repetido por 11 a cada 10 economistas.

Com tanto receio, mesmo parte dos empresários é cética quanto à reabertura, ainda mais com as restrições para funcionamento. Na Rua 44, em Goiânia, por exemplo, haverá jornada reduzida (das 10 às 16 horas) e restrição às excursões de outros Estados, que correspondem a 70% do movimento local. Nos shoppings, também haverá restrição na quantidade de clientes e as áreas de alimentação terão o número de mesas reduzido. Dessa maneira, o proprietário de uma pequena lanchonete pensa se vale a pena arcar com os custos e investir em estoque sem a garantia de que as mesas que sobrarem serão ocupadas.

Quarentena

O pior de tudo é que essa discussão está ocorrendo no momento exato em que a pandemia ganha força. Em Goiás, com a queda no isolamento social, o cenário futuro faz lembrar o que já passaram Estados como o Amazonas e o Ceará. Na hipótese de uma explosão de contaminados pela Covid-19 nas próximas semanas, os goianos verão ir pelos ralos todo o esforço das primeiras semanas da quarentena.

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