Marcelo Mariano
Marcelo Mariano

Como Jair Bolsonaro pode ajudar o futebol brasileiro e atrapalhar a TV Globo

“Conselheiro futebolístico” do presidente eleito é um dos maiores críticos da CBF

Jair Bolsonaro e Mário Celso Petraglia: se o primeiro seguir os conselhos do segundo, CBF e TV Globo podem sair perdendo | Fotos: reprodução

Um dos grupos que mais deve estar preocupado com a eleição de Jair Bol­so­naro (PSL) é o de cartolas. Isso por­que o “assessor” do ca­pitão reformado do Exército para assuntos relacionados ao futebol é o presidente do Con­selho Deliberativo do Atlético Pa­ranaense, Mário Celso Pe­traglia, crítico contundente da Con­fe­deração Brasileira de Futebol (CBF).

Apesar do sobrenome, cuja pronúncia é idêntica à palavra “petralha” — termo utilizado para se referir a apoiadores do PT —, o dirigente do Atlético Paranaense fez campanha para Jair Bolsonaro durante as eleições, tendo se encontrado pessoalmente com um dos filhos do presidente eleito, o futuro senador Flávio Bolsonaro (PSL).

A propósito, o encontro entre Petraglia e Flávio foi viabilizado por Luciano Hang, outro conhecido apoiador de Jair Bolsonaro e dono das lojas Havan, que patrocina o Atlético Paranaense.

O presidente do Conselho Deliberativo da equipe paranaense chegou a obrigar os jogadores do clube a entrarem em campo com uma camisa amarela em alusão ao presidente eleito — apenas o zagueiro Paulo André se recusou.

Aliás, Petraglia já anunciou que pretender trocar a cor do Atlético Paranaense, que é tradicionalmente vermelho e preto, mas não entrou em detalhes e, portanto, não se sabe se as novas cores podem ser verde e amarelo.

Chegou-se a ventilar a possibilidade de o dirigente assumir ou indicar cargos no próximo governo, mas, de acordo com apurações do portal de notícias UOL, o objetivo de Petraglia é compor “forças para aumentar a influência do governo no esporte mais popular do país”.

Ele quer, por exemplo, criar uma liga de clubes independente da CBF, provavelmente nos moldes dos campeonatos disputados em países como Inglaterra e Alemanha. Petraglia já buscou tentativas semelhantes, como a Primeira Liga e a Futpar, mas não obteve o sucesso esperado.

Outra intenção do presidente do Conselho Deliberativo do Atlético Paranaense é aprovar um projeto de lei que permite que os times de futebol se tornem sociedade anônima e, com isso, possam vender ações.

Bancada da bola

Há quem, ingenuamente, ache que futebol e política não se misturam. Este tipo de gente provavelmente não assistiu à Copa do Mundo de Vladimir Putin, quer dizer, da Rússia. Ou não sabe que Fernando Sarney, filho do ex-presidente José Sarney (MDB), é membro do Comitê Executivo da Federação Internacional de Futebol Associação (Fifa).

Um outro exemplo de mistura entre política e futebol é a chamada bancada da bola, composta por senadores e deputados federais que apoiam as pautas da CBF e travam aquelas que são contrárias à entidade máxima do futebol brasileiro.

Nas eleições de 2018, políticos importantes que fazem parte da bancada da bola não conseguiram se reeleger. São os casos dos senadores emedebistas Romero Juca e Eunício Oliveira, de Roraima e do Ceará, respectivamente, e dos deputado federais Jovair Arantes (PTB-GO) e Marcos Vicente (PP-ES), que é, inclusive, vice-presidente da CBF.

Por outro lado, nomes como Leila do Vôlei (PSB-DF) e Jorge Kajuru (PRP-GO) se somam a Romário (Pode-RJ) — que volta a Brasília após ter perdido a eleição para governador do Rio de Janeiro — e Randolfe Rodrigues (Rede-AP) na linha de frente contra a CBF no Senado. Os quatro já se encontraram para traçar estratégias a partir da próxima legislatura.

Em entrevista ao Jornal Opção, Jorge Kajuru declarou que pretende acabar com a bancada da bola. O senador eleito diz que ela está mais interessada em propina do que no esporte. Ao jornal “Folha de S. Paulo”, o ex-radialista voltou a comentar sobre o tema e afirmou querer abrir a caixa preta da CBF.

Se Jair Bolsonaro de fato encapar a briga de Petraglia e der um cartão vermelho à CBF, a situação da entidade, dadas as circunstâncias políticas, é complicada. Quem tem a ganhar com isso é o futebol brasileiro, que, hoje, é prejudicado por corrupção e gestões incompetentes.

TV Globo

Além da CBF, quem pode sair perdendo nesta jogada é a TV Globo, de quem Petraglia também é opositor. O Atlético Paranaense não assinou contrato com a televisão aberta e já até transmitiu partidas pelo YouTube.

Durante a campanha, Jair Bolsonaro se reuniu com João Roberto Marinho após interlocução do futuro ministro da Economia, Paulo Guedes. O presidente eleito já demonstrou pouca afinidade com a TV Globo, mas está errado quem pensa que ele dará as costas ao mais importante veículo de comunicação do Brasil.

Afinal, como diria o ex-primeiro ministro britânico Winston Churchill, o político brigar com a imprensa é como o marinheiro brigar com o mar. Mas Jair Bolso­naro nitidamente tem preferência pela RecordTV e até mesmo pela Rede Bandeirantes.

Futuramente, esta preferência pode ser fundamental para reconfigurar o modelo de transmissões dos jogos de futebol na televisão aberta brasileira. Se for para diminuir a influência da TV Globo, o presidente eleito certamente contará, mais uma vez, como o apoio do dirigente paranaense.

Nunca Jair Bolsonaro foi tão próximo de um Petraglia, mas vale lembrar que o presidente do Conselho Deliberativo do Atlético Paranaense não é novo na política e já esteve ao lado de políticos filiados a partidos ideologicamente diferentes de Jair Bolsonaro, como PSDB, PDT e PT.

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