Marcelo Mariano
Marcelo Mariano

Apesar de perder eleições de meio de mandato, Trump se consolida como candidato à reeleição

Qualquer um que ousar enfrentar o atual presidente nas primárias republicanas terá dificuldades pela frente. Enquanto isso, o candidato democrata ainda é incerto

Donald Trump encarou as eleições de meio de mandato com seriedade e obteve resultados melhores que o esperado | Foto: Reprodução

Nos Estados Unidos, os mandatos dos congressistas têm duração diferente do que é praticado no Brasil. Lá, os representantes — que, aqui, equivalem aos deputados federais — possuem apenas dois anos de mandato, enquanto os senadores, seis. Dessa forma, há eleições a cada dois anos para todas as cadeiras da Câmara dos Representantes e parte do Senado.

Em 2018, o pleito, conhecido como “midterm” (meio de mandato, em tradução livre), ocorreu no dia 6 de novembro e os resultados mexeram com o cenário político estadunidense. O Partido Republicano tinha maioria tanto no Senado quanto a Câmara, mas perderá o controle da última a partir do ano que vem. Por outro lado, ampliou a vantagem em relação ao Partido De­mocrata entre os senadores.

Marola azul

Os democratas, que tinham 193 representantes na Câmara contra 235 dos republicanos, tomaram 30 cadeiras do partido do presidente Donald Trump. No Senado, os republicanos ganharam duas vagas dos democratas.

Havia, entre os democratas, um sentimento de que poderia ocorrer uma onda azul e o partido ganhar mais força — a cor deles é a azul; os republicanos, apesar de estarem à direita, usam vermelho, diferentemente do Brasil, que associa o vermelho à esquerda.

De certa forma, os resultados do Senado já eram esperados, uma vez que as cadeiras em disputa eram de maioria democrata e algumas delas em redutos republicanos. Contudo, na Câmara, esperava-se que o crescimento fosse maior, mas o que chegou foi uma marola.

Bipartidarismo

O bipartidarismo nos Estados Unidos faz com que haja diferentes alas dentro de uma mesmo partido. Dentro do Democrata, por exemplo, há um segmento que tenta levar a legenda mais para a esquerda, lidera por simpatizantes do senador Bernie San­ders e que agora ganhou a companhia de Alexandria Ocasio-Cortez, de 29 anos, a mulher mais jovem a ser eleita para a Câmara dos Representantes. Entretanto, quem ainda manda no partido é o establishment democrata.

Do lado dos republicanos, pode-se dizer que há, hoje, três alas: tradicional, libertária e nacionalista, por vezes chamada de direita alternativa. A tradicional representa figuras clássicas do partido, como os Bush e John McCain — ex-senador que faleceu recentemente —, que pregam o livre mercado e o realismo na política externa.

Por sua vez, os libertários defendem o isolacionismo — não participar de guerras como a da Síria e do Afeganistão — e o Estado mínimo. A figura mais proeminente desta ala é o senador Rand Paul.

Em tese, os nacionalistas também concordam com o isolacionismo na política externa — afinal, estão mais preocupados com a política interna a fim de “tornar a América grande novamente”. Mas Donald Trump, que representa este segmento, parece ter se deixado levar pelos tradicionais e, inclusive, já realizou bombardeios à Síria sem a autorização do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), assim como ex-presidente George W. Bush fez, em maior escala, com o Iraque em 2003.

Reeleição de Trump

Nas eleições de meio de mandato deste ano, Donald Trump arregaçou as mangas e percorreu milhares de quilômetros para participar de uma média de três comício por dia na reta final da campanha — em cidades di­ferentes e sempre voltando a Washin­gton para dormir na Casa Branca.

No Twitter — para variar —, o presidente disse que venceu. Mas, analisando friamente, os republicanos perderam, haja vista que controlavam duas casas e, ao longo dos dois próximos anos, controlará apenas uma. É uma derrota clara.

Porém, os resultados foram melhores do que o esperado e isso deu combustível para a retórica de Donald Trump. Em seu discurso após a votação, o presidente afirmou que buscará diálogo com os democratas, mas que, se for preciso, irá à guerra contra elas. Em outras palavras, o republicano culpará a oposição por tudo que acontecer de errado daqui até as eleições presidenciais em 2020.

A propósito, Donald Trump se consolida como forte candidato à reeleição. Além de ter assumido de vez o protagonismo do partido com os comícios na reta final da campanha, perder as eleições de meio de mandato não necessariamente significa que obterá resultado negativo nas urnas daqui a dois anos.

Dos últimos três ex-presidentes, dois saíram derrotados das eleições de meio de mandato — de uma forma mais intensa que Donald Trump em 2018 —, mas, mesmo assim, conseguiram a reeleição. São os casos dos democratas Bill Clinton, em 1994, e Barack Obama, em 2010.

Em 2002, o republicano George W. Bush estava em meio a sua “guerra ao terror”, iniciada logo após os ataques terroristas de 11 de setembro, o lhe rendeu força para vencer as midterms e, dois anos mais tarde, ser reeleito.

Portanto, qualquer um que ousar enfrentar Donald Trump nas primárias republicanas terá enormes dificuldades pela frente. A tendência é que o atual presidente chegue forte ao pleito de 2020. A dúvida, por enquanto, fica em relação ao seu adversário.

Futuro democrata

O papel do Partido Democrata será o de fazer uma oposição dura e inteligente a Donald Trump na Câmara dos Representantes. Caso queira reconquistar a presidência, o partido precisa se reerguer. Afinal, Estados importantes, os chamados swing states, como Ohio e Florida, serão governados pelos republicanos.

Qualquer palpite agora sobre quem será o candidato democrata a presidente em 2020 é mero chute. As primárias, que começam em poucos meses, devem ser disputadíssimas. Barack Obama, que já foi presidente por dois mandatos, não pode concorrer a um terceiro porque a 22ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos o impede.

Nas redes sociais, nota-se uma torcida por sua esposa, Michelle Obama, mas isso, por ora, ainda não rompeu a fronteira da internet e, ressalta-se, é apenas torcida por parte de militantes democratas.

Beto O’Rourke, que quase derrotou o senador republicano Ted Cruz no Texas, é um nome que deve se apresentar para a disputa. Bernie Sanders, apesar da idade, também é cotado. A nova representante da ala mais à esquerda do Partido De­mocrata, Alexandria Ocasio-Cortez, é uma aposta para o futuro.

E no Brasil?

Nos Estados Unidos, as eleições de meio de mandato servem como uma espécie de teste de popularidade para o presidente. No Brasil, o pleito pelas vagas de deputado federal e senador ocorre simultaneamente à corrida presidencial. Por isso, é difícil traçar um paralelo.

Mas, por aqui, candidatos a prefeito e vereador vão às ur­nas no meio do mandato presidencial. Em 2016, a derrota do PT refletiu as consequências do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e mostrou que o partido teria dificuldades para se levantar e retomar a cadeira de presidente.

Em 2020, as eleições municipais podem servir de teste para o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL). Se o seu partido conquistar prefeituras e continuar crescendo como cresceu em 2018 — elegendo três governadores e a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados —, é sinal de que a onda conservadora, encabeçada pelo capital reformado do Exército, veio para ficar.

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