“Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Um dos principais ensinamentos de Jesus Cristo está registrado na Bíblia, no Evangelho de Mateus (22:37-39). A frase, de interpretação aparentemente simples, demonstra a importância de se preocupar com o outro da mesma forma como gostaríamos que se preocupassem conosco. E não se trata apenas de preocupação, mas de amor, cuidado, carinho e solidariedade.

Estender a mão ao próximo é um dos gestos mais genuínos de amor ao semelhante. Uma roupa, uma cesta básica, um brinquedo. Pequenas atitudes que podem representar uma transformação significativa na vida de quem tem tão pouco. É encontrar felicidade ao proporcionar, com aquilo que temos, um momento de alegria a alguém que enfrenta dificuldades diariamente.

É fato que, desde que o mundo é mundo, as pessoas precisam batalhar para alcançar seus objetivos. Mas precisamos parar de romantizar essa realidade. O ponto de partida não é igual para todos e, provavelmente, nunca será. Duas pessoas podem percorrer caminhos semelhantes e, ainda assim, alcançar resultados completamente diferentes. Isso não é atestado de incompetência. É o reflexo de uma sociedade em que oportunidades, necessidades e prioridades não são distribuídas de maneira igualitária.

Na última semana, após o resultado do segundo turno das eleições presidenciais, as redes sociais foram bombardeadas por publicações de pessoas que se apresentam como empresárias, conservadoras e até cristãs e anunciaram que deixariam de realizar ações sociais. A justificativa, quase sempre, era a mesma: a revolta com a vitória do presidente Lula da Silva (PT). Benefícios e programas sociais passaram a ser atacados com palavras duras e, em alguns casos, declarações de caráter discriminatório.

Vamos dar o nome correto às coisas: quando alguém condiciona a continuidade de uma ação social ao resultado de uma eleição, coloca em dúvida a verdadeira intenção por trás daquela iniciativa. A solidariedade, que deveria nascer da preocupação com o próximo, parece se transformar em uma ferramenta de promoção pessoal, utilizada para fortalecer uma marca, seja ela de uma pessoa física ou jurídica, nas redes sociais.

E há algo ainda mais perverso nessa lógica: a exposição da vulnerabilidade alheia como estratégia para conquistar curtidas, seguidores e reconhecimento público. A dor de quem precisa de ajuda deixa de ser uma realidade que merece atenção e passa a funcionar como cenário para a construção de uma imagem de generosidade. É uma inversão de valores que deveria provocar indignação.

O brasileiro, em sua essência, é solidário. Histórias de pessoas que não têm sequer um pão para colocar na mesa ou que vivem sem condições básicas de conforto e dignidade costumam despertar comoção. E é justamente essa sensibilidade que deveria motivar as ações sociais, independentemente de quem ocupa a Presidência da República.

Nesse contexto, também é necessário discutir a importância dos programas sociais e o impacto que eles provocam na vida de milhões de brasileiros. O Bolsa Família, por exemplo, contribui para reduzir a insegurança alimentar e garantir condições mínimas de sobrevivência a famílias em situação de vulnerabilidade.

Há o Luz para Todos, responsável por ampliar o acesso à energia elétrica em comunidades rurais e regiões isoladas, e o Programa Universidade para Todos (Prouni), que abriu as portas do ensino superior privado para estudantes de baixa renda por meio da concessão de bolsas de estudo.

São iniciativas que talvez não façam sentido para quem observa a realidade de dentro de um carro avaliado em mais de R$ 500 mil ou de uma mansão localizada em um condomínio fechado, onde a portaria parece funcionar como uma barreira capaz de esconder as desigualdades existentes do lado de fora.

Mas, para quem passou a ter energia elétrica em casa, conseguiu ingressar em uma universidade ou encontrou condições de colocar comida na mesa, esses programas representam muito mais do que números em uma planilha de gastos públicos. Representam oportunidades, dignidade e a possibilidade de construir uma vida diferente.

É legítimo discordar de políticas públicas, questionar sua eficiência, cobrar fiscalização e defender modelos diferentes de assistência social. O que não é aceitável é transformar a população mais vulnerável em alvo de punição porque o resultado das urnas contrariou uma preferência política.

Quem utiliza a vitória de Lula como justificativa para interromper ações sociais demonstra, no mínimo, uma preocupante confusão entre solidariedade e conveniência. Afinal, desde quando a fome de uma criança depende do partido em que seus pais votaram? Desde quando uma família deixa de merecer ajuda porque escolheu um candidato diferente?

E há uma contradição ainda maior quando essas atitudes partem de pessoas que se apresentam como defensoras da família, da moralidade e dos valores cristãos. São indivíduos que frequentemente utilizam o nome de Deus para justificar posicionamentos e condenar comportamentos alheios, mas que, diante da primeira oportunidade de colocar em prática os ensinamentos que dizem seguir, permitem que o ressentimento político fale mais alto.

Não há problema em divulgar a arrecadação de alimentos, campanhas beneficentes ou outras iniciativas solidárias. A publicidade, inclusive, pode incentivar novas doações e ampliar o alcance de projetos importantes. O problema começa quando a ajuda deixa de ser um compromisso com o próximo e passa a ser tratada como uma moeda de troca.

A decisão de deixar de ajudar alguém, por si só, não constitui crime. Entretanto, quando esse anúncio vem acompanhado de manifestações xenofóbicas, preconceituosas ou de desprezo às pessoas em situação de pobreza, o debate ultrapassa a liberdade de escolha individual e exige atenção, inclusive das autoridades, conforme o conteúdo das declarações.

O mais impressionante é que algumas dessas pessoas fazem questão de publicar seus posicionamentos nas redes sociais, aparentemente convencidas de que receberão aplausos e apoio. E, infelizmente, encontram quem concorde com esse tipo de comportamento. Por outro lado, a repercussão negativa também demonstra que parte da sociedade não está disposta a normalizar a crueldade travestida de posicionamento político.

Depois, quando a indignação ganha força e a repercussão ameaça atingir negócios e reputações, surgem as tradicionais notas de retratação. Textos cuidadosamente elaborados, muitas vezes com linguagem semelhante, para justificar o injustificável e tentar reduzir os danos à imagem pública.

Mas será que o arrependimento nasce da consciência de que houve uma atitude errada ou apenas do medo de perder clientes, contratos e seguidores?

Jesus Cristo sempre demonstrou atenção especial aos mais humildes, aos marginalizados e àqueles que enfrentavam dificuldades. Em nenhum momento estabeleceu preferência partidária, condição financeira ou posicionamento político como requisito para oferecer acolhimento. Sua mensagem estava fundamentada no amor, na compaixão e no respeito à dignidade humana.

É justamente por isso que causa tanta perplexidade ver pessoas que se dizem cristãs condicionarem a prática da caridade à vitória ou à derrota de um candidato. Ou os ensinamentos bíblicos estão sendo interpretados de maneira profundamente conveniente, ou parte daqueles que mais invocam o nome de Deus se esqueceu do significado das palavras que afirma defender.

A hipocrisia precisa deixar de ser tratada como uma simples divergência de opinião. Não é possível defender o amor ao próximo nos discursos e, ao mesmo tempo, utilizar a necessidade de famílias pobres como instrumento de vingança política.

A solidariedade não pode ser uma recompensa pelo voto considerado correto, muito menos um privilégio concedido apenas àqueles que compartilham das mesmas convicções. Quem tem fome precisa de comida, não de um questionário eleitoral. Quem sente frio precisa de agasalho, não de uma declaração de apoio político. E quem enfrenta a pobreza precisa de oportunidades, não de julgamentos feitos por quem nunca precisou escolher entre pagar uma conta e colocar alimento na mesa.

No fim, a questão não é sobre Lula, Bolsonaro, direita ou esquerda. É sobre humanidade. Porque o verdadeiro caráter de alguém não aparece quando estende a mão diante das câmeras, mas quando decide se continuará estendendo essa mesma mão mesmo sem receber aplausos, reconhecimento ou qualquer vantagem em troca.

Jesus ensinou a amar o próximo como a si mesmo. Não a amar o próximo desde que ele vote no mesmo candidato.

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