“Dizem que o Brasil tem analfabeto demais. E, no entanto, vejam vocês: — a vitória final, no campeonato do mundo, operou o milagre. Se analfabetos existiam, sumiram-se na vertigem do triunfo. A partir do momento em que o Rei Gustavo, da Suécia, veio apertar a mão dos Pelés, dos Didis, todo mundo, aqui, sofreu uma alfabetização súbita. Sujeitos que não sabiam se gato se escreve com “x” ou não iam ler a vitória no jornal. Sucedeu esta coisa sublime: — analfabetos natos e hereditários devoraram matutinos, vespertinos, revistas, e liam tudo com uma ativa, uma devoradora curiosidade, que ia do “lance a lance” da partida, até os anúncios da missa. Amigos, nunca se leu, e digo mais, nunca se releu tanto no Brasil.”

Vinicius de Moraes, Tom Jobim e João Gilberto: a Bossa Nova surge nos anos JK | Foto: Reprodução

Eu imagino a alegria que tomou conta dos brasileiros no dia 29 de junho de 1958, quando a seleção brasileira conquistou seu primeiro título mundial. Após a vitória, ir às bancas para comprar a revista “Manchete Esportiva” e ler a coluna “Meu personagem da semana” de Nelson Rodrigues. O trecho que abre o Periscópio de hoje é o primeiro parágrafo da sua coluna na revista após a conquista do mundial na Suécia.

Tínhamos um futebol de primeira, que estava no topo do mundo. Tínhamos um moleque que veio do Santos e jogava como ninguém, um tal de Pelé, que marcou um golaço na final. Tínhamos a elegância de Didi. Tínhamos Gilmar, que fechou o gol. Tínhamos Garrincha quebrando a cintura dos adversários. Tínhamos Zagalo. Depois do sofrimento do Maracanazo, a alegria do título mundial oito anos depois.

Kim Novak, atriz, e o presidente Juscelino Kubitschek, no Brasil | Foto: Reprodução

Em 1958, o Brasil parecia, de fato, entrar nos trilhos. Ou no caminho certo, já que o presidente Juscelino Kubitschek rasgava o sertão brasileiro abrindo estradas, rumo à Brasília. As indústrias produziam fuscas, lambretas, geladeiras, televisões. A Bossa Nova com “Chega de saudade” e “Canção do amor demais”. Vivíamos uma democracia, apesar dos ataques furiosos de Carlos Lacerda na Tribuna da Imprensa e na tribuna do Parlamento.

Quando a seleção brasileira voltou para sua terra com a primeira Julies Rimet nas mãos, parecia que o Brasil, finalmente, tomaria jeito, viraria uma gigantesca potência. Ah, como deveria ser maravilhoso viver neste país em 1958.

Juca Chaves “canta” o presidente bossa nova