Márcio M. Cunha
Márcio M. Cunha

Black Friday ou black fraude? Diferenças culturais entre países e as práticas adotadas no Brasil

No Brasil, os preços de variadas classes de produtos tendem a subir até 70%, para, na data de Black Friday, serem ofertados com “descontos”, realizando uma verdadeira ação ilusória ao consumidor

A “Black Friday” (sexta-feira negra) é uma data esperada por muitos brasileiros, que juntam dinheiro no decorrer do ano para “gastar” menos com mais coisas no mês de novembro, comprando produtos em “promoção”. O movimento originado nos Estados Unidos da América passou a ganhar força de grandes proporções no Brasil após 2012.

Apesar de ter se originado nos EUA, sempre após o feriado do Thanksgiving (ação de graças), o movimento tomou força entre os lojistas ao redor do mundo, na América Latina, países como Brasil e Bolívia, dentre outros. Entretanto, as práticas realizadas entre o idealizador da Black Friday, e seus adeptos, são extremamente distintas.

Nos EUA, a prática de descontos realmente acontece, e de forma organizada, transparente e porquê não dizer; honesta. Em certos casos, os descontos podem ser de 90%. Os produtos eletrônicos são sempre os mais visados, com descontos que podem chegar a 70%. O diferencial dos EUA, é que os lojistas não tem o costume de aumentarem os preços dos produtos, e os descontos acabam sendo “verdadeiros” causando uma verdadeira multidão em filas às vésperas do evento.

Nas palavras de uma moradora da cidade de Tulsa – Oklahoma: “Os descontos estão entre 50%-70% de desconto nos itens.” Já para um casal residente em Waco – Texas, afirmam com clareza: “A vantagem é muito grande, a promoção aqui é real e vale a pena comprar, é um jogo de marketing muito bom em um país consumista. A população aproveita para comprar os presentes de natal para a família toda, os melhores preços estão em lojas físicas, mas mesmo na compra on-line vale a pena. Dá para renovar a casa inteira”.

A Black Friday tornou-se um evento bastante popular na América Latina, entretanto, a forma como é praticada em alguns países, em nada reflete a forma originalmente idealizada pelos norte-americanos. Por aqui, tem sido comum escutar pelas ruas o termo “tudo pela metade do dobro” entre os populares, que representa a manifesta intenção dos lojistas em aumentar os preços dos produtos às vésperas da data do evento para, no dia, vender “mais barato”, porém, a um preço praticado no mercado, meses antes.

O método se repete em países vizinhos, como na Bolívia, nas palavras de uma moradora da capital La Paz, Bolívia: “As lojas têm promoções de 10% ou 20%. Onde as melhores lojas aumentam o preço dos produtos semanas antes e para que você vá com a promoção custa o mesmo que há algumas semanas.”

A semelhança, além do nome, dessa data tão aguardada nesses países, é tão somente o marketing em trazer consumidores para consumir os bens e produtos comercializados. Contudo, a prática e a política de preço que se realiza é totalmente diferente.

Voltando o foco para o Brasil, com a chegada de mais uma Black Friday, voltas às preocupações contra fraudes e erros. Uma das dúvidas mais comuns feitas entre os clientes é se o preço de promoção exibido nos anúncios realmente está com o desconto ou foi aumentado pela loja apenas para participar do evento.

Por mais que o Brasil esteja passando por um momento atípico, com o índice de inflação ultrapassando os 10%, (acumulado dos últimos 12 meses) os aumentos sucessivos entre os produtos mais visados da Black Friday. Contudo, a prática já conhecida de aumento de preços às vésperas da Black Friday, induz grande parte dos brasileiros a pensar que se trata de uma “Black Fraude”.

Em 2020, algumas categorias sofreram com os aumentos, conforme o presente gráfico:

No Brasil, os preços de variadas classes de produtos tendem a subir até 70%, para, na data de Black Friday, serem ofertados com “descontos”, realizando uma verdadeira ação ilusória ao consumidor. Nota-se, a partir do gráfico informativo, a margem de aumento dos preços aumenta com maior agressividade no mês de Novembro. Tudo para que ofertem descontos na casa dos 10%-30% e venderem a preços praticados semanas antes, ou até mesmo com uma margem de lucro ligeiramente maior.

Em certos casos, esses “descontos ilusórios” acionam gatilhos emocionais nas mentes dos brasileiros, fazendo-os gastar mais na compra de produtos, o que vai de encontro à política aplicada nos EUA, onde, além do poder de compra ser maior, os descontos são verdadeiros.

A prática é abusiva e, se descoberta, podem ser aplicadas sansões aos fornecedores, por infringirem o código de defesa do consumidor, pois, como demonstrado, é exatamente neste período que ocorre diversos golpes, desde as propagandas enganosas, que há como combater juridicamente, com efetivo ressarcimento do dano, isso porque, o Código de Defesa do Consumidor – CDC – Lei 8.078/90, em seu art. 37 §1º estabelece que: “É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falso, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços.”.

Apesar de tudo, lojistas tendem a se defender se pautando no aumento de preços em insumos para fabricação, onde principalmente na área de eletrônicos, eletrodomésticos e automóveis (principais buscas dos brasileiros) obtiveram reajustes que chegam a 200%, e dessa forma, os empresários adotam uma previsão de repassar parte (ou total) desses custos ao consumidor na precificação final.

Por fim, para que possamos evitar cair em propagandas dessa natureza, se faz necessária uma observação constante nos preços dos produtos com algumas semanas de antecedência para identificar quais lojas utilizam-se do artifício da maquiagem de preços. Hoje esse movimento tem ocorrido de maneira mais sutil, contudo, graças a internet, se faz mais fácil a identificação dessas políticas de preço, diferente do que ocorria nos primórdios do evento da Black Friday no Brasil, onde os abusos foram tão escancarados que o evento acabou sendo apelidado de “Black Fraude: tudo pela metade do dobro.”

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