Balthasar Ribeiro de Freitas: quando a memória vira música outra vez
20 janeiro 2026 às 10h13

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Há músicos cuja obra se mede por catálogos, gravações e prêmios; e há músicos cuja obra se mede por outra escala: a da vida comunitária; da liturgia; das ruas; do ensino informal; da serenata; do ensaio; na sala de casa e, sobretudo, da transmissão de uma sensibilidade que atravessa gerações. Balthasar Ribeiro de Freitas (Jaraguá, 7 de dezembro de 1870 – 31 de maio de 1936), meu bisavô, pertence a esse segundo grupo: o dos artistas que fizeram da música um modo de organizar o mundo.

O que chamamos “história da música” costuma se fixar nas capitais e nos repertórios legitimados por instituições. No entanto, Goiás, em particular, sempre abrigou ambientes musicais vigorosos, sustentados por bandas, corais, práticas religiosas e sociabilidades culturais complexas. A trajetória de Balthasar Ribeiro de Freitas, registrada pela historiadora e sua bisneta Dulce Madalena Rios Pedroso, analisada pelo professor Marshal Gaioso Pinto e já mencionada com importante acervo pelo maestro Braz Wilson Pompeu de Pina Filho, permite compreender esse universo no qual música, religião, política e vida cotidiana se entrelaçavam de forma indissociável.
Balthasar estudou as primeiras letras em Jaraguá e ingressou no Seminário Santa Cruz, onde recebeu sólida formação humanística: latim, francês, disciplina intelectual e ampla bagagem cultural. Embora não tenha se ordenado, recebeu a tonsura, rito simbólico que marcava a hierarquia das ordens menores na vida religiosa. É difícil não perceber como essa formação, a retórica, o latim da liturgia, a convivência com o harmonium e o órgão das igrejas, moldou o músico que ele se tornaria: um artista profundamente familiarizado com o repertório sacro e com a dramaturgia sonora dos ritos.

De volta a Jaraguá, casou-se com Maria Catarina de Campos Fonseca, a D. Marica, com quem teve nove filhos: Diva, Maria Córdoba, Cristóvão Colombo, Ana das Neves, Clotário, Constâncio, Salvador Teodoro, Geraldo Bonfim e Afonsina. A família tornou-se parte constitutiva de sua prática musical: filhos, sobrinhos e parentes integravam coros e bandas, como se o lar fosse, simultaneamente, casa e conservatório.
A memória familiar insiste em um traço marcante: Balthasar vivia a música com naturalidade orgânica. Relataram os filhos que compunha quase sem mediações: sentado na rede, dedilhava o violão, levantava-se para escrever, retornava, ajustava, corrigia. Diziam os amigos que:
“Só Za tinha a música no bolso”
Por volta de 1910, fundou a Banda Santa Cecília e, mais adiante, reorganizou e conduziu a Eutérpe Jaraguense. Ensaios em casa, repertórios para festas, dobrados ao amanhecer. No dia de Santa Cecília (22 de novembro), havia alvorada às cinco da manhã, repique de sinos, fogos, dobrados e galopes pelas ruas, seguidos de café servido em sua própria casa. São imagens de uma cultura musical enraizada, em que a cidade inteira participava de uma verdadeira pedagogia de escuta.
No campo religioso, sua atuação foi ainda mais decisiva. Balthasar participou ativamente das festas de São Sebastião, Divino, Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Nossa Senhora da Penha, ensaiando corais e compondo músicas para momentos específicos. Um gesto particularmente significativo foi à criação de Tantum Ergo “sob medida”: a letra litúrgica permanecia a mesma, mas a música variava conforme as vozes disponíveis, como se a composição fosse também um gesto de cuidado com as pessoas concretas que cantavam. Trata-se de um dado precioso para a reflexão sobre a música sacra no interior: não apenas repertório, mas composição situada e comunitária.
Sua obra mais conhecida e ainda ouvida é a Missa de Santo Ambrósio, em latim, vinculada à devoção do compositor e ao fato de Santo Ambrósio ser celebrado em 7 de dezembro, data de seu nascimento. Segundo o levantamento de Marshal Gaioso Pinto, há referência a 22 obras, sendo 19 com partituras preservadas e três perdidas. O catálogo inclui marchas fúnebres, quadrilhas, ladainhas, dobrados, hinos, mazurcas, polcas e valsas, entre elas Diva (nome de uma de suas filhas), Yolanda (nome de uma de suas netas) e O Silêncio é Ouro.
Como em tantas cidades goianas do período, a política não era pano de fundo, mas força organizadora da vida social. Em 1909, com a reconfiguração do poder político em Goiás, Balthasar, adversário de um grupo dominante em Jaraguá, sofreu perseguições e decidiu deixar a cidade. Transferiu-se para Bonfim (atual Silvânia), onde viveu com a família entre 1911 e 1913 (ou, segundo outra fonte, entre 1910 e 1912), atuando como advogado, professor, professor de música, músico de banda e coral, organizador de teatro e animador de serenatas.
A imagem da travessia de três dias a cavalo, com família e bagagens, é quase emblemática: o artista deslocado por razões políticas, mas levando consigo um patrimônio invisível, a capacidade de formar, reger, compor e reunir pessoas. Ao retornar a Jaraguá, retorna também à música: novos instrumentos, reorganização da vida musical e reativação do circuito comunitário de escuta.
Preservar Balthasar não é apenas um gesto biográfico; é um gesto histórico. É afirmar que houve, e há uma inteligência musical em Goiás que não pode ser tratada como apêndice de outras narrativas. É reconhecer que a memória musical depende de arquivos, mas também de famílias que guardam, narram, reencenam e reativam.

E é nesse ponto que o passado deixa de ser passado. No próximo 28 de janeiro, os descendentes de Balthasar Ribeiro de Freitas se reunirão em Jaraguá para um concerto que marca um acontecimento raro e estruturante: a chegada de um piano de concerto para a cidade, adquirido por meio de um projeto aprovado na Lei de Incentivo à Cultura – Edital Goyazes, proposto por um de seus bisnetos, Antônio de Freitas Interlandi. O instrumento ficará abrigado na Igreja do Rosário, recentemente restaurada.
É difícil imaginar símbolo mais potente: um instrumento que convoca repertório, formação e continuidade, instalado em um espaço de memória, fé e comunidade. Jaraguá, que sempre respirou cultura, passa a dispor de um eixo material para ampliar sua vida musical: recitais, aulas, festivais, formação de plateia, encontros intergeracionais. Um piano, quando chega, não é apenas um objeto, é uma promessa.
Talvez Balthasar reconhecesse nesse gesto algo muito íntimo: a música como forma de pertencimento. E talvez nos lembrasse que toda cidade que preserva seus músicos preserva, na verdade, a si mesma, seu modo de falar, de celebrar, de sofrer e de sonhar.
No dia 28, quando a música soar na Igreja do Rosário, não será apenas uma inauguração. Será uma conversa entre tempos: a história de um músico no sertão brasileiro, devolvida ao presente como aquilo que sempre foi vida sonora compartilhada.
Balthasar faleceu em 31 de maio de 1936, após sofrer um derrame durante uma solenidade religiosa na própria Igreja do Rosário. Deixou nove filhos, inúmeros netos e um legado que ultrapassa a dimensão familiar, inscrevendo-se na história cultural de Goiás.
Encerrando esta crônica, faço uma escolha incomum: pela primeira vez não indico uma gravação. E deixo, em seu lugar, uma pergunta. A produção musical conhecida de Balthasar Ribeiro de Freitas reúne ao menos 22 obras, entre música sacra e profana. Onde estão essas gravações das obras sacras? Onde está a preservação efetiva de nossa memória musical?
Parte de seu acervo vem sendo localizado e preservado na Universidade Federal de Goiás e, mais recentemente, na Fundação Frei Simão, na Cidade de Goiás. Ainda assim, muitas composições perderam-se nos arquivos das antigas corporações musicais, revelando a fragilidade do patrimônio musical brasileiro.
Fica aqui, portanto, um convite, e um compromisso: que a Missa de Santo Ambrósio seja finalmente gravada, devolvendo ao presente uma obra que nunca deixou de pertencer a ele.
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