Wander Melo Miranda vai lançar biografia de Graciliano Ramos pela Companhia das Letras
13 junho 2026 às 21h00

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Com relativa frequência, as pessoas me perguntam qual é o maior escritor brasileiro? Hesito um instante. Acabo dando duas respostas.
Para mim, o maior escritor brasileiro é Graciliano Ramos. “Vidas Secas” talvez seja o livro mais bem escrito e formulado da literatura patropi. Trata-se, quiçá, do primeiro livro tchekhoviano do país. Há a história contada com mestria. Há a língua concentrada, contida. Pode-se dizer que o romance é uma mini história do Brasil. O dos pobres que não têm nada surpreendidos, na cidade, pela fartura dos que têm demais.
Fala-se da contenção de Ernest Hemingway, ao menos nos contos (nos romances, é quase tão caudaloso quanto o Rio Amazonas). Mas contenção mesmo afigura-se na prosa de Graciliano Ramos — este diamante que Alagoas deu para o cérebro dos leitores globais.

Para os demais leitores, notadamente para a crítica literária, são dois os “maiores” escritores brasileiros, quase um Fla x Flu: Machado de Assis, o de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, e Guimarães Rosa, o de “Grande Sertão: Veredas”.
De fato, Machado de Assis e Guimarães Rosa são autores de obras-primas incontestáveis e tão brasileiras quanto universais. Ambos escreveram outras duas obras-primas — “Dom Casmurro”, do primeiro, e “Corpo de Baile”, do segundo.
Não é nenhuma concessão acrescentar que entre os maiores escritores brasileiros estão duas mulheres — Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. São contistas e romancistas de primeira linha. A primeira é, sabem todos, hors-concours. Um gênio literário que o mundo descobre, cada vez mais, com evidente prazer.
Mas Lygia Fagundes Telles — assim como Ana Maria Gonçalves (“Um Defeito de Cor” é importantíssimo — diria: mais como literatura mesmo, inventiva, do que como libelo histórico) — precisa ser um pouco mais estimada. Porque é uma notável prosadora.

De Clarice Lispector, cita-se como importante, inclusive formalmente, “Perto do Coração Selvagem”. Não há dúvida: eis um grande romance. Mas fico mesmo é com “A Hora da Estrela” — um retrato do Brasil (quem sabe, do mundo) fabulado, com mestria, pela literatura. “Paixão Segundo G. H.” também me agrada.
Nem toda a obra de um escritor é do balacobaco. Mas Lygia Fagundes Telles tem romances e contos extraordinários. O romance mais conhecido é “As meninas” — talvez por seu caráter mais político, de imersão na ditadura civil-militar.
O tempo histórico é crucial para a vitalidade do romance de Lygia Fagundes Telles. Entretanto, para além da denúncia do regime autoritário, há alta literatura nas páginas do livro. É a literatura finamente elaborada, sem pompa, que faz a época da ditadura chegar até nós com mais amplitude. A beleza literária, o espanto estético, anuncia e denuncia a “feiura” da ditadura.
Para parte da crítica e a própria Lygia Fagundes Telles, “A Disciplina do Amor” é sua melhor obra. Talvez seja. Mas ainda fico com “As Meninas”. Poucas vezes um tempo tão brutal foi descrito com tanta delicadeza. Não para redimi-lo, e sim para evidenciar, por certo, que, entre os espinhos, podem vingar belas rosas. Não entenda mal: não há uma gota de romantismo barato neste romance.
Biografia de Graciliano Ramos sai em agosto
Por que estou arengando sobre a literatura brasileira? Porque li, no site da Companha das Letras, que sairá, no dia 11 de agosto deste ano, o livro “Graciliano Ramos — Vida e Obra” (400 páginas), de Wander Melo Miranda.

Por que o entusiasmo? Porque Wander Melo Miranda não é um biógrafo comum. Pelo contrário, é um crítico literário e professor universitário (da Universidade Federal de Minas Gerais) do primeiríssimo time.
O título do livro parece simples, mas não é. Wander Melo Miranda vai tratar da obra e da vida. Porque uma, de alguma maneira, explica a outra.
Há quem pense que a biografia deve cuidar mais da vida. Mas o que seria de um Graciliano Ramos sem sua obra, como “Vidas Secas”, “Memórias dos Cárcere”, “S. Bernardo” (talvez a maior denúncia literária do machismo brasileiro jamais feita), “Angústia”, “Infância” (do qual gosto muito)? Um mero comunista de carteirinha?
O que põe Graciliano Ramos dentro do nosso cérebro, iluminando-o com a beleza de um diamante lapidado, é sua obra. Leitor dedicado da literatura brasileira (e global), Wander Melo Miranda é o intelectual adequado para tratar do homem-escritor integral.
Dênis de Moraes (1954-2025) publicou “O Velho Graça — Uma Biografia de Graciliano Ramos” (Boitempo Editorial, 359 páginas), em 1992 (li a edição da José Olympio, com 407 páginas). É um livro valioso.
Porém, 34 anos depois, aproximando-se de meio século, os leitores precisam de uma nova biografia de Graciliano Ramos. A fortuna crítica do Velho Graça cresceu imensamente, as leituras se tornaram mais amplas e matizadas.

Por certo, há um Novo Graça na praça que precisa ser re-explicado.
Então, uma biografia poderá situá-lo de maneira mais adequada, mais como escritor e intelectual — óbvio que não há como ignorar o indivíduo, até porque é impossível —, na literatura brasileira e, também, mundial.
Espera-se que, sendo Wander Melo Miranda quem é — um dos mais notáveis estudiosos da literatura tropiniquim —, a obra (e a vida) de Graciliano Ramos nos seja reapresentada sob novos parâmetros.
O crítico literário Graciliano Ramos também precisa ser redimensionado. Sua crítica é apenas episódica ou é mais atenta e perspicaz do que se costuma imaginar?

Por que, sendo comunista, Graciliano Ramos, um realista, escapou do realismo socialista dos tempos de Ióssif Stálin e Andrei Jdánov e escreveu uma prosa diferente e mais rica literariamente?
Por isso, quando agosto chegar, deixarei minhas outras leituras de lado e começarei a ler “Graciliano Ramos — Vida e Obra”.
Do site da Companhia das Letras, recolho este trecho da sinopse do livro: “Wander Melo Miranda reconstrói com minúcia essa vida atravessada pela militância política e marcada por um raro ideal de honestidade intelectual. A partir de cartas, entrevistas e memórias familiares, compõe o retrato de um homem severo e afetuoso, racional e intempestivo, cuja obra continua a definir o que entendemos por realismo literário brasileiro”.
Tradutores argentinos de Graciliano Ramos
[https://tinyurl.com/2a6tre3y]
[Email: eulerdefrancabelem@gmail.com]



