Euler de França Belém
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TV Globo libera Galvão Bueno para fazer anúncios e vai liberar área de entretenimento

O comprometimento de suas principais estrelas como faturadores tem a ver com os novos tempos — quando até os gigantes ficarão menores, de maneira incontornável

Galvão Bueno: a principal estrela na narração esportiva da Globo agora é garoto-propaganda de empresas| Foto: Reprodução/Youtube

O jornalismo da TV Globo caiu na real? Antes, o Estado, a redação, era separado da Igreja, o departamento comercial. Com o faturamento em queda, “retiradas” mensais — salários não são — de 1,5 milhão (William Bonner), 2,5 milhões (Galvão Bueno, com a renovação do contrato teria passado a receber “somente” 500 mil por mês) e 4,5 milhões de reais (Faustão) estão cada vez mais impraticáveis. Para não perder profissionais que caíram no gosto do público, ao se tornarem estrelas, a rede da família Marinho encontrou um caminho que antes condenava, com veemência, em comunicados internos. William Bonner não foi liberado para faturar e dificilmente será, porque pertence à área de jornalismo e, se fizer anúncio, comprometeria a imagem da tevê da família Marinho. Mas Pedro Bial, Faustão e Fátima Bernardes, que trabalham no setor dito de “entretenimento”, foram liberados para faturar. A Globo paga “menos”, mas com os anúncios, diretos e, às vezes, indiretos, acaba compensando perdas e, em alguns casos, até aumentando as retiradas (que são de verdadeiros acionistas, diria um economista). Galvão Bueno, que está prestes a se aposentar mas é apreciado pelo público — que parece aprovar seu moral-e-civismo comunicacional —, é o primeiro dos moicanos do jornalismo esportivo, cada vez mais entretenimento, a fazer anúncios.

Pedro Bial: pessoa jurídica e garoto-propaganda | Reprodução/Rede Globo

Segundo Daniel de Castro, do blog Notícias da TV, Galvão Bueno “vai faturar 200 mil reais para falar das empresas que patrocinam o futebol da emissora durante a Copa América, em junho”. Outros profissionais do setor esportivo — como Cléber Machado e Luís Roberto — foram avisados que, brevemente, também poderão faturar, sobretudo na renovação dos contratos. Os maiores ganhos — não são mais salários, porque os jornalistas se tornaram “pessoas jurídicas” — serão reavaliados a partir da perspectiva de os profissionais estarem ganhando liberdade para faturar comercialmente.

Notícias da TV frisa que a publicidade será propalada por Galvão Bueno “antes, durante e depois” dos jogos de futebol narrados pelo jornalista-garoto-propaganda. Ambev, General Motors (GM), Hypera, Itaú, Casas Bahia e Vivo são os patrocinadores do narrador mais famoso, celebrado e, ao mesmo tempo, polêmico da tevê patropi.

Fátima Bernardes migrou para a área de entretenimento e aumentou seus ganhos financeiros | Foto: Reprodução

A Globo parece acreditar que, com a possibilidade de faturar, seus profissionais ficarão mais comprometidos com a empresa e com seus negócios. Economistas, administradores e até sociólogos — como Domenico de Masi —, que orientam a família Marinho, sugerem que, até o momento, o Grupo Globo tratava alguns funcionários (Bonner, Faustão, Ana Maria Braga, Fátima Bernardes, Galvão Bueno) como se fossem acionistas, com retiradas altas e fixas, independentemente do faturamento mensal. A partir de agora, a “retirada” será de acordo com o faturamento, mas os servidores, alguns deles, terão de colaborar para elevá-lo. Quanto maior o bolo, desde que contem com a participação dos empregados — quase sócios —, mais eles terão acessos aos melhores pedaços.

Em 2018, o Grupo Globo só não teve prejuízo porque os acionistas não fizeram retiradas e conseguiram fazer aplicações financeiras lucrativas. A rigor, portanto, o lucro não tende a ser considerado lucro. A rede continua criando produtos de qualidade — e seu jornalismo é dos melhores e mais rigorosos —, mas a disputa no mercado da comunicação e entretenimento está cada vez mais acirrada, com a audiência, cada vez mais dividida, caindo para todos. Com uma concorrência ampla, e não apenas na televisão, mas também na internet, a Globo — e nenhuma outra rede — não terá mais audiências absolutas. Terá de lutar por seus nacos e, para tanto, está ajustando a empresa. O comprometimento de suas principais estrelas como faturadores tem a ver com isto. São os novos tempos — quando até os gigantes ficarão menores, e de maneira incontornável.

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