Trump, Biden, Obama, a infantilização e o cretinismo

Barack não é santo, mas a observação de que os movimentos de avanços e recuos das coisas humanas é das mais certeiras: a história às vezes dá grandes saltos para trás

Halley Margon

De Barcelona

Juro por Deus que não pretendia mais tratar dos Estados Unidos, seus presidentes etc. Mas a própria imprensa espanhola parece imantada, de um lado pela pandemia, e agora pela(s) vacina(s), e de outro pela eleição americana, a derrota do capitão da maldade e a vitória do mocinho do partido Democrata. Os ventos da euforia seguem tocando forte nas velas afetadas pelo alívio. Pode que resulte em algum entorpecimento.

Barack Obama e Joe Biden: homens poderosos do establisment americano | Foto: Reprodução

No domingo, 15, o caderno “Ideias” do jornal “El País” publicou duas bem desenhadas páginas com três grandes fotografias coloridas cujo título era “O dia que Obama lutou para salvar os tigres”. Até aí morreu o Neves. A pérola era o que vinha em seguida: “Sua filha mais velha pediu que ele protegesse os felinos dos humanos, disse o ex-presidente dos Estados Unidos em suas memórias. Com essas palavras na cabeça, Barack Obama se dirigiu à cúpula do clima na Dinamarca”. A matéria era, naturalmente, sobre o lançamento do livro de memórias do ex-presidente (“Uma Terra Prometida”, edição da Companhia das Letras, 764 páginas, tradução de Berilo Vargas, Cássio de Arantes Leite, Denise Bottmann e Jorio Dauster).

Talvez eu tivesse dormido de mal jeito e ainda não tivesse me dado conta. Pode, sim, ter sido isso. E, então, estivesse um pouco com a sensibilidade, como se diz, à flor da pele, um pouco desentorpecida demais. Mas o fato é que um subtítulo desses você não vê toda hora, não em jornais de grande circulação e respeitabilidade. Daí que o troço explodiu que nem uma bomba (dessas de São João) na minha manhã de domingo.

Será mesmo que existe algum adulto no planeta capaz de levar a sério uma assertiva dessas? Uma rematada tolice de tamanha grandeza?

Não, não era uma frase solta ao acaso no meio do artigo que o editor inadvertidamente deixou passar. Era, hierarquicamente, o segundo elemento mais importante da página, sendo o primeiro o título, é claro (as fotografias estavam na outra página). Nenhum editor deixa passar um erro ali. Se estava ali, e não num caderno especial dedicado ao público infanto-juvenil, era porque queriam que estivesse ali. E não, não se tratava de matéria paga, bancada pela editora do livro. Pode até que fosse uma troca de gentilezas entre altas pessoas, mas matéria paga, isso não.

Imagino que em algum momento da história lhe caia a ficha e comece a soar constrangedor, imensamente constrangedor a autoria da sentença ao seu autor, seja este quem for. Em estado de choque pela violência estapafúrdia do cabeçalho não prossegui com a leitura. Recuperado o ar e somando dois mais dois, me dou conta de que se trata de um capítulo promocional do livro de Obama. E a frase era obviamente apenas a transcrição de uma história contada pelo ex-presidente. (Antes de prosseguir, a memória: a eleição de um presidente assumidamente negro como Obama, em 2008, quase quatros séculos após a chegada dos primeiros negros — ou pretos, como diz Caetano Veloso, com toda a autoridade que lhe cabe — nos Estados Unidos, em 1619, foi comemorada nas ruas de todo o planeta quase como se fosse uma conquista da humanidade tanto quanto a derrota de Trump agora o teria sido, não fosse a pandemia.)

Agora mesmo, na madrugada de quinta-feira, 19, menos de uma semana após a publicação da estrondosa frase, a edição digital do “El País” já estampa no topo da primeira página a chamada para uma entrevista de quatro páginas concedida ao diretor do diário Javier Moreno em Washington. Em tom bíblico (“Uma Terra Prometida” é o título das memórias presidenciais) anuncia a obra, que promete o de sempre (“desvendar as chaves de sua chegada ao poder e seus oito anos no cargo”), vaticina platitudes (“Biden buscará reconectar o país”) e, num estilo ponderado de pessoa que agrada a qualquer leitor em qualquer circunstância em qualquer canto do mundo civilizado, produz outra pérola cuidadosamente pensada: “Trump fez muito mal aos Estados Unidos e ao resto do mundo”. Os destaques são do entrevistador.

Donald Trump, Barack Obama e Joe Biden, republicano e democratas: homens do establisment do Império dos Estados Unidos  | Foto: Reprodução

Deuses e semideuses do Olimpo

Quatro anos após entregar as chaves da Casa Branca a Donald Trump, Barack Obama aparece como uma das figuras chaves para a derrota do republicano. John Kennedy, Bill Clinton e Obama, os semideuses do Olimpo Democrata desde o pós-guerra. Claro, Kennedy tornou-se, ao ser assassinado, o próprio Zeus. Mas está no céu. Clinton, que como Kennedy (e Thomas Jefferson) padecia de incontroláveis desejos extramatrimoniais, foi traído por revelações indiscretas e pagou algum preço por deixar cair a máscara da tradicional hipocrisia dos que ocupam o cargo. Por conta de assuntos irrelevantes como matéria de Estado, e não pelos que de fato importavam, teve a imagem brevemente maculada.

Com o tempo, fez cara de que não era com ele e pôs de novo o barco para navegar. A mulher, Hillary Clinton, era dessas damas de ferro mais interessadas no poder que no matrimônio e nas aparências que esse pode cobrar. O que queria, desde sempre, era inverter os papéis e ocupar o lugar que tradicionalmente sempre esteve destinado aos maridos. Se a linhagem Kennedy foi interrompida pelo assassinato, a dos Clinton poderia prosseguir, e não seria um simples casamento ou coisa muito menor que isso o que a poria a perder. O projeto seguia em frente. Tinha ainda pela frente que passar pelo filtro do partido e logo pelo voto (2008). Ficou para a próxima. Tornou-se a toda poderosa (e duríssima) secretária de Estado do eleito, Barack Obama. Quando chegou sua vez no partido, perdeu para Trump no geral (2016).

Assim que aí está brilhando como um astro de insuperável grandeza Barack Obama. Pronto para bloquear qualquer esforço de arejamento da estrutura do Partido Democrata e da imutável política americana. Agora, atua para submeter aquela mesma pressão advinda da mudança censitária que fez possível sua eleição e o aparecimento da candidatura de Bernie Sanders, também ele resultado do fervilhar do caldeirão social. A captura cognitiva a que se referia Joseph Stiglitz (ver artigo anterior¹) uma década atrás, parece ter tido sobre Obama um alcance muito maior do que poderia imaginar o economista. E o homem que bancou a candidatura partidária do seu vice dentro do partido é, hoje, à diferença do Obama que se impôs pela força do carisma em 2007, o próprio homem do establishment democrata.

Na casa ao lado, para usar a expressão de Paul Krugman, a caquistocracia.

Consumada e garantida a antinomia entre o bem o mal, semideuses e seres das trevas, democratas e republicanos, aos primeiros estará garantido o sempiterno direito de tratar os fiéis seguidores como seu atual guia máximus trata os provavelmente milhões de leitores do seu recém lançado “Uma Terra Prometida”.

A longa entrevista é bastante boa e numa das respostas Obama diz: “Sempre cultivei um otimismo cauteloso. A história nem sempre avança. Às vezes, ela recua ou se move em outras direções”. É verdade. Em 1960, logo após perder a eleição para John Kennedy (por uma diferença de apenas 120 mil voto), Richard Nixon cogitou questionar o resultado porque havia acusações de fraude em Illinois e no Texas. Como tinha, ainda, algum juízo, antes de tomar a iniciativa, pegou o telefone e ligou para o antecessor, Dwight D. Eisenhower (1890-1969). Quando, segundos depois, desligou o telefone a questão estava definitivamente resolvida. Não haveria questionamento algum. Biden bateu Trump por 5,3 milhões de votos. Mas imagine você, se Trump ia ligar para Eisenhower!

De modo que a observação de Obama sobre os movimentos de avanços e recuos das coisas humanas é das mais apropriadas: a história às vezes dá, sim, grandes saltos para trás. A bem da verdade, ela só tem é andado para trás.

Cena de filme

Dois homens estão sentados na barra de um bar ordinário. Na TV, discursa o presidente recém eleito (Obama):

— Recuperar o sonho americano e reafirmar a verdade que diz que somos muitos, mas somos um só.

— Você ouviu? Essa frase é para você.

— Não me faça rir… desse mito criado por Thomas Jefferson.

— Agora vamos com Jefferson…

— Jefferson virou santo por ter escrito que “todos os homens são iguais”. Palavras nas quais não acreditava. Deixou que seus filhos fossem escravos. Ele era um rico esnobe de saco cheio de pagar impostos, que escrevia belas palavras pelas quais as pessoas morriam enquanto ele bebia vinho e transava com sua pequena escrava. Aquele ali (apontando para Obama) diz que vivemos em uma comunidade. Não me faça rir. Eu vivo nos Estados Unidos. E aqui estamos sozinhos. Estados Unidos não é um país. É um negócio. Agora trata de me pagar, porra.

Diálogo entre Brad Pitt e Richard Jenkins na cena final de “O Homem da Máfia”, de Andrew Dominik, 2012.

Em “O Último Império”, o escritor americano Gore Vidal lembra que, no seu romance “Burr”, de 1973, se referiu a Thomas Jefferson como um homem que era, em muitos aspectos, “admirável… exceto por sua propensão para a hipocrisia — vivia em concubinato com uma escrava, Sally Hemings, com quem teve vários filhos, que seguiram sendo escravos”.

¹ Leia mais sobre a questão americana

A celebração da derrota — de Donald Trump — que não pôde ocupar as ruas

 

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