Elder Dias
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Tradução para o inglês à altura do clássico de Guimarães Rosa está a caminho. Mas depende de um mecenas

A australiana Alison Entrekin se incumbiu, ela mesma, de conseguir um financiador para um trabalho estimado para durar cinco anos – 12 vezes mais do que um romance “comum”

A tradutora australiana Alison Entrekin e sua missão de fazer tradução ao inglês da obra-prima deGuimarães Rosa: em três meses de dedicação, a produção do equivalente a menos de meio dia de rotina “normal” em sua atividade

A tradutora australiana Alison Entrekin e sua missão de fazer tradução ao inglês da obra-prima deGuimarães Rosa: em três meses de dedicação, a produção do equivalente a menos de meio dia de rotina “normal” em sua atividade

Ela já havia traduzido para o inglês, entre outros livros, “Cidade de Deus” (“City of God”) , de Paulo Lins; “Perto do coração selvagem” (“Near to the Wild Heart”), de Clarice Lispector; e Budapeste (“Budapest”), de Chico Buarque. Foi quando apareceu para Alison Entrekin um convite a uma empreitada desafiadora: construir a nova versão de “Grande Sertão: Veredas” para o inglês.

Obra basilar da literatura nacional, o clássico de Guimarães Rosa nunca foi popularizado fora do Brasil. Em boa parte, isso se deve ao problema da única tradução existente em inglês: batizada de “The Devil to Pay in the Backlands”, ela data de 1963 e é bastante contestada. Harriet de Onís, americana nascida em Illinois e respeitada por seu trabalho com a literatura espanhola — e pessoa que acabou se tornando íntima de Guimarães Rosa, depois de introduzi-lo no mercado americano —, se incumbiu primeiramente do trabalho, mas desistiu, alegando que, caso prosseguisse, não faria outra coisa da vida. Faz sentido. A odisseia, então, foi concluída por James L. Taylor, mas nunca teve uma segunda tiragem. Taylor era considerado um excelente lexicógrafo (“cujo nome me olha, em ouro, da lombada do meu dicionário favorito”, escreve a própria Alison), mas não conseguiu “captar a mensagem” do dialeto criado pelo autor. Por suas mãos, a versão inglesa de “Grande Sertão” se tornou uma espécie de romance de faroeste. Jamais um livro ruim, mas bem aquém de seu verdadeiro potencial e riqueza ímpar.

A australiana aceitou o desafio. “Eu tirei três semanas para o livro, deixando de lado o romance em que eu estava trabalhando. Traduzi três páginas”. Sim, “páginas”, não capítulos”. É o que ela conta no artigo “When in Hell, Embrace the Devil: On Recreating ‘Grande Sertão: Veredas’ in English” (fazendo o ofício da autora, ainda que de maneira precária, algo como “Se Você Está no Inferno, Abrace o Capeta: Recriando ‘Grande Sertão: Veredas’ em Inglês”), publicado em versão online na revista eletrônica “Words Without Borders”. “Quando fui abordada a respeito de traduzir um certo clássico literário brasileiro reconhecido por seu linguajar característico e me perguntaram se eu estaria disposta a produzir uma pequena amostra dele, meu primeiro pensamento foi: ‘isso é possível?’ Então, eu disse que sim, como se faz quando atolada em prazos, mas confrontada com um desafio irresistível.”

Como era de se esperar e ela mesma relata, não está sendo fácil. Alison conta que o normal de um dia de trabalho produtivo no ofício de tradutor é conseguir avançar algo em torno de 2 mil palavras. O que ela própria conseguiu com a obra de Guimarães foram 860 palavras… em três semanas. “Isso é uma página por semana, 57 palavras por dia, ou 7 palavras por hora, se você trabalhar a rotina diária de oito horas”. Mas ela mesma conclui: “Mas quando você está em um ‘cozido’ desses, por que se preocupar com números?”

Acabou escolhida pela Wylie, considerada a agência literária mais importante do planeta, e Eduardo Tess — que detém os direitos sobre o romance —, a nomeou tradutora oficial da nova edição em inglês. No processo de seleção, ela enviou um trecho traduzido que foi vistoriado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e pela Universidade de Princeton, em Nova Jersey (EUA).

Um livro convencional com o mesmo porte da obra de Rosa —entre 600 e 700 páginas —, ocuparia um tradutor por seis meses. Alison prevê que precisará de cinco anos para concluir seu trabalho. Isso pode até não parecer, por conta da nobreza da tarefa, mas é um entrave. É que o interesse comercial existe, mas com pagamento do serviço com valor convencional, como se fosse por um romance comum. Ou seja, “business is business”, valor imaterial à parte. É como querer pagar apenas pela função do objeto — exagerando em outra seara, seria como comprar um capacete usado por Ayrton Senna pagando o preço de mercado por um equipamento de segunda mão. Então, além de se ocupar diretamente de seu ofício, Alison está buscando financiamento. Uma chance para que o trabalho seja viabilizado é a Lei Rouanet, tão atacada ultimamente.

Enquanto isso, para pôr em evidência seu trabalho, ela publicou um trecho do que já fez até o momento com o livro (leia abaixo). Certamente, conferir o que ela faria ao levar a palavra “nonada” para o inglês é uma das principais curiosidades dos leitores de Guimarães Rosa. Virou “nonought”, um termo do inglês arcaico que significa “nada” e, ao mesmo tempo, serve ainda como uma forma de negação.

O início de “Grande Sertão” em inglês, segundo Alison Entrekin

Veja como ficou, na tradução de Alison, o primeiro parágrafo da tradução da obra, intitulada por ela como “Bedeviled in the Badlands”

Nonought. Shots you heard weren’t a shootout, God be. I was training sights on trees in the backyard, at the bottom of the creek. Keeps my aim good. Do it every day, I enjoy it; have since the tendrest age. Anyhow, folks came a calling. Bout a calf: white one, strayling, eyes like no thing ever seen and a dog’s mask. They told me; I didn’t want to see. Seems it was defective from birth, lips curled back, and looked to be laughing, person-like. Human face, hound face: they decided—it was the devil. Oafenine bunch. They killed it. Nought a clue bout the owner. They came to beg my guns, I let em. I’m not superstitious. You got a way of laughing, sir… Look: when shots are for real, first the dogs set up barking that instant—then you go see if anyone’s dead. Don’t mind, sir, this is the sertão. Some reckon it in’t: the backlands are further off, they say, the campos-gerais inside and out, back-o-beyond, high plains, far side of the Urucúia. Lottarot. To folks in Corinto and Curvelo, in’t this here the sertão? Ah, and that’s not all! The sertão makes itself known: it’s where pastures have no fences, they say; where a man can go fifteen, twenty miles without coming to a single house; where outlaws live out their hallelujah, in the yonder beyond the law. The Urucúia comes from the highlands in the west. But nowadays, all long the riverrun, there’s everything — walloping great farms, lushlands bordering banks, the floodplains; crops that go from wood to wood, thickset trees, even some virgin forest. All round is Minas Gerais. These gerais have no bounds. Anyway, you know how it is, sir, to each his own: cows or kine, depends on your eyen… The backlands are everywhere.

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Adalberto De Queiroz

Nonought, mais ou menos como o termo francês criado por Georges Bernanos “Ouine”, no clássico romance de mesmo título Monsieur Ouine. (AQ).

JOSÉ FERNANDES DA SILVA, GOIÂNIA, GOIÁS,

Eu sou um apaixonado pela obra de Guimarães Rosa. Lecionei vinte anos na Universidade Católica de Goiás e lá eu era considerado como um conhecedor de Guimarães Rosa. Já tentei representar suas narrativas através inclusive de uma espécie de teatro a partir do computador e da internet, colocando depois na internet. Fiquei muito admirado de saber dos esforços da tradutora Alison Entrekin em decidir enfrentar a tarefa de traduzir Grande Sertão: Veredas para o inglês. Sei que a tarefa é realmente difícil e, em alguns aspectos, impossível, em termos realmente satisfatórios. Tendo isso em consideração, e gostaria de propor a… Leia mais

Marcos Pessanha

Assim como nenhuma interpretação esgota um texto, nenhuma tradução esgota um romance. Tradutores só podem traduzir interpretações, visto que não há texto sem.sujeito-intérprete. A tradução da minha colega australiana está realmente primorosa, porque ela fez uma opção estética ousada. Sim, tradutores profissionais optam pela abordagem que mais lhes interessa. Ela escolheu a abordagem estrangeirizadora, em contraste à tradução domesticados de Taylor. O problema é que no cenário internacional existe um preconceito e uma dificuldade de se aceitar a estética culta brasileira. Temo que antes de confessar que não têm maturidade linguística para decifrar a prosa alegórica de Rosa, os leitores… Leia mais

Wel

… pão ou pães, é questão de opiniães…cows or kine, depends on your eyen…

This is what make a translation a good piece… When the translator can feel comfortable to act as co-author !!!