Euler de França Belém
Euler de França Belém

Tradução de Ievguêni Oniéguin, de Púchkin, provoca duelo entre Nabokov e Edmund Wilson

Conflito entre os dois escritores e críticos começou no campo intelectual e terminou numa inimizade feroz e desrespeitosa

No livro “Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes”, de João Céu e Silva, o escritor português diz, peremptório: “Nabokov traduziu o ‘Ievguêni Oniéguin’ [‘Eugene’ ou ‘Evgeni Onegin’], a obra-prima de Púchkin, e aquilo é uma merda” (página 309). No livro “Dentro da Floresta” (Companhia das Letras, 575 páginas, tradução de Álvaro Hattnher, Celso Nogueira e Ivo Korytowski), David Remnick, editor da “New Yorker”, escreve um texto, “As guerras da tradução”, no qual mostra acertos e defeitos de algumas traduções do russo para o inglês. O caviar é a polêmica entre o crítico literário americano Edmund Wilson e o escritor russo Vladímir Nabokov. Sete das 25 páginas são reservadas para o registro da briga entre os dois ex-amigos. Em “Edmund Wilson — Uma Biografia” (Civilização Brasileira, 681 páginas, tradução desastrosa de Fausto Wolff. Uma filha de Wilson, Helen, “vira” sua mãe. Wolff diz que Mary McCarthy é uma “cólica” de “Seatle”. A autora de “O Grupo” é católica de Seattle. Herzen e Kropotkin se tornam uma só pessoa: “Herzen Kropotkin”), Jeffrey Meyers, reserva 19 páginas para o longo debate. A tradução de “Ievguêni Oniéguin”, por Nabokov, mereceu uma saraivada de críticas. A mais dolorida foi a de Wilson, porque os dois eram amigos íntimos. Tanto que Wilson abstinha-se de analisar sua obra publicamente.

Ouvidos por Remnick, o americano Richard Pevear e a exilada russa Larissa Volokhonsky disseram que o “Oniéguin” de Nabokov é “um dos grandes triunfos de tradução”. “Nabokov, que considerava ‘The Gift’ e ‘Lolita’ como seus melhores romances, achava que seu ‘Oniéguin’ era, talvez, o projeto mais importante de sua vida e, ao mesmo tempo, como toda tradução, de natureza fútil”, diz o editor da “New Yorker”. A tradução demorou quase uma década para ser publicada, tal o “esmero” do autor de “Ada”. “Pela fidelidade da transposição, sacrifiquei tudo: elegância, eufonia, clareza, bom gosto, usos modernos, e até gramática”, explicou-se Nabokov.

Ao contrário dos críticos mais qualificados, Remnick aceita a tese de que “Nabokov fez sua tradução para inspirar seu leitor a saber o poema em russo” (é óbvio que 98% dos leitores, quando leem uma tradução, não procuram o original). Em 1965, no “The New York Review of Books”, Wilson publicou sua crítica, tida como devastadora: “Essa obra, embora valiosa em alguns aspectos, causa um certo desapontamento. E o autor desta resenha, ainda que amigo pessoal do sr. Nabokov — por quem sente calorosa afeição às vezes esfriada pela irritação — e admirador de boa parte de sua obra, não se propõe a disfarçar esse desapontamento. Uma vez que o sr. Nabokov tem o hábito de apresentar qualquer trabalho desse tipo que ele realize por uma proclamação de que o mesmo é singular e incomparável, e que qualquer outra pessoa que tenha tentado realizá-lo é um parvo e um ignorante, incompetente como linguista e como estudioso, geralmente com a implicação de que tal pessoa era de classe baixa e ridícula, Nabokov não poderá reclamar se o autor da resenha, embora sem tentar imitar seus maus modos literários, não hesitar em apontar-lhe suas fraquezas”. Remnick diz que “Wilson não só desaprovava ‘a linguagem pobre e deselegante’ de Nabokov; ele também percebia no amigo um desejo de ‘torturar tanto o leitor quanto a si mesmo’ ao ‘achatar’ Púchkin. (…) Wilson acusou Nabokov por ‘erros reais no inglês’, ‘um estilo desnecessariamente canhestro’, expressões ‘vulgares’, imodéstia, transliteração imprecisa, ‘falta de bom senso’, ‘um apêndice tedioso e interminável’, um entendimento pobre de prosódia russa e ‘falhas sérias’ de interpretação”.

Biografia de Edmund Wilson, por Jeffrey Meyers, e livro de David Remnick resgatam a feroz polêmica entre os gigantes Edmund Wilson e Vladimir Nabokov | Fotos: Jornal Opção

Irritado, Nabokov comunicou à subeditora do “Review”, Barbara Epstein: “Reserve espaço para o meu trovão”. O ataque do russo (que escrevia em inglês) a Wilson: “Como o sr. Wilson legitimamente anuncia no início de ‘O estranho caso de Púchkin e Nabokov’, somos, de fato, velhos amigos. Eu compartilho inteiramente a ‘calorosa afeição às vezes esfriada pela irritação’ que ele diz sentir por mim. Nos anos de 1940, durante minha primeira década nos Estados Unidos, ele foi muito gentil comigo em diversos assuntos, não necessariamente relacionados à sua profissão. Sempre lhe fui grato pelo tato que demonstrou ao abster-se de resenhar meus romances. Tivemos conversas hilariantes, trocamos muitas cartas sinceras. Confidente paciente de sua longa e irremediável obsessão pela língua russa, sempre fiz o melhor que pude para explicar-lhe seus erros de pronúncia, gramática e interpretação. Por volta de 1957, em um de nossos últimos encontros, ambos percebemos com divertido assombro que, apesar de meus frequentes comentários sobre prosódia russa, ele ainda não sabia escandir os versos russos. Ao ser desafiado a ler ‘Ievguêni Oniéguin’ em voz alta, ele começou a fazê-lo com grande prazer, deturpando cada segunda palavra e transformando o verso iâmbico de Púchkin em uma espécie de anapesto espasmódico com muitas hesitações que o faziam torcer a mandíbula e adoráveis sons agudos que criavam completa confusão no ritmo, e em pouco tempo estávamos os dois às gargalhadas”.

Entendendo que a melhor defesa é o ataque, Nabokov bombardeou Wilson com outro míssil: “Ao traduzir ‘slushat morskoy’, escolhi a expressão transitiva poética e arcaica ‘to listen the sound of the sea’ porque a passagem relevante tem em Púchkin um tom arcaico estilizado. O sr. Wilson pode não se importar com essa expressão — eu também não me importo com ela —, mas é uma tolice da parte dele supor que eu tenha incorrido em um lapso de russismo ingênuo sem realmente ter consciência de que, como ele nos diz, ‘in English you have to listen to something’. Em primeiro lugar, é o sr. Wilson que não tem consciência de que existe uma construção análoga em russo, ‘prislushivat’sya k zvuku’, ‘to listen close to the sound’ — o que é, claro, transforma em absurdo o russismo exclusivo por ele imaginado, e, em segundo lugar, se ele tivesse por acaso folheado um certo canto do ‘Don Juan’, escrito no ano em que Púchkin começou seu poema, ou uma certa ‘Ode à memória’, escrito quando o poema de Púchkin estava sendo terminado, meu erudito amigo teria concluído que Byron (‘Listening debates not very wise or witty’) e Tennyson (‘Listening the lordly music’) devem ter tanto sangue russo quanto Púchkin e eu”. Remnick vê os contra-ataques como aparentemente “desleais”.

Aleksandr Púchkin, autor de “Eugênio Onêguin”, um romance em versos| Ilustração de Kontachlovski/1932

O que Remnick não diz, certamente porque não quis ampliar a peleja, é que intelectuais que conheciam a poesia de Púchkin e o russo deram razão à crítica de Wilson. Este, embora mantivesse a crítica de que a tradução de Nabokov torna Púchkin ilegível, ficou sentido por ter perdido o amigo. “Wilson considerou a disputa entre eles uma polêmica cultural; para Nabokov foi traição a uma amizade”, diz Meyers.

Nabokov tinha o hábito de dizer que as traduções alheias eram um horror. Atacou, mortalmente, a versão que Walter Arndt fez de “Ievguêni Oniéguin”. Embora tenha recebido o Prêmio Bollingen, Arndt foi chamado de “irresponsável parafrasta” (criador de paráfrases). Ao se postar como guardião do poema de Púchkin, Nabokov criou a expectativa de que sua tradução seria uma espécie de bíblia inquestionável. “Mas”, segundo Meyers, “a quase totalidade dos críticos condenou sua tradução palavra por palavra. Na raiz do problema estava a curiosa teoria de Nabokov sobre tradução. Seu objetivo foi produzir uma tradução literal — ‘tão próxima do original o quanto permitissem as capacidades associativas e sintáticas de outra língua’. ‘Só isso’, ele insistia, ‘“pode-se chamar de tradução verdadeira’”.

Edmund Wilson e Vladimir Nabokov: intelectuais de primeira linha, além de amigos, eles se desentenderam por causa da tradução feita pelo segundo do romance em versos de Púchkin

Meyers bate duro, ao estilo de Wilson: “O original [de Púchkin] era um campeão puro-sangue e a tradução [de Nabokov] um pangaré manco”. “Moldada” num “inglês recôndito e uma sintaxe excêntrica, o trabalho de Nabokov chama a atenção para o tradutor ao invés de transmitir o sentido e o espírito do original. (…) Todos os experts em línguas eslavas acabaram concordando que a tradução fora um fracasso”. Quem leu apenas o livro de Remnick fica com a impressão de que Nabokov “derrotou” Wilson e, sobretudo, de que Wilson “lutou” sozinho “contra” o trabalho do autor de “Lolita”.

O scholar Robert Conquest, especialista em história da União Soviética, sugeriu que a versão do autor de “Fogo Pálido” era “mais uma transposição para o ‘nabokovês’ do que uma tradução para o inglês”.

Edward Brown não teve piedade de Nabokov: “Essa tradução de Ievguêni Oniéguin, feita por um dos maiores artistas de nosso tempo, é execrável… Ele sistematicamente abandona a poesia e o faz em nome de uma superficial e espúria ‘teoria’ de tradução”.

Alexander Gerschenkron, de Harvard, registrou, contundente (tanto que foi apontado como brilhante por Wilson): “O que Nabokov sacrifica com tanta leviandade e desdém não é sua clareza, elegância e eufonia, mas a de Púchkin. (…) Em verdade, é deplorável que o grande esforço de Nabokov tenha sido tão tristemente distorcido em nome da decisão de ser original a qualquer custo. Conseguiu isso teorizando confusamente, fazendo promessas que não podia cumprir, sendo maldosamente pedante, desabridamente emocional e vítima da própria egolatria desenfreada”.

Tradução portuguesa de “Eugénio Onéguin”

Brian Boyd, o biógrafo eventualmente complacente de Nabokov, admitiu: “Sem dúvida, as linhas de Nabokov, além de não rimarem, são muitas vezes apáticas e sem graça, ao contrário das de Púchkin”.

Um dos melhores amigos de Nabokov, Gleb Struve “achou que Wilson estava certo quando criticou a tradução ‘pelo uso de palavras raras, pouco familiares, bizarras e impuchkianas”.

Para chatear ainda mais os leitores, Nabokov escreveu, além de um apêndice sobre prosódias russa e inglesa, comentários intermináveis sobre o poema de Púchkin. “Todo o talento artístico que deveria ter aplicado na tradução, Nabokov esbanjou em seu comentário erudito”, acusa Meyers.

Usando o romance “Fogo Pálido” (traduzido por Jorio Dauster), de Nabokov, como referência, Clarence Brown ironiza: “Esse trabalho [a tradução] consiste de uma introdução escrita pelo Dr. Kinbote, um poema narrativo e ruminativo intitulado ‘Pale Fire’ [“Fogo Pálido”], de autoria de John Shade e um comentário do dr. Kinbote”.

Um dos motivos da batalha entre Nabokov e Wilson tem a ver com Púchkin e Byron. “Wilson não concordava com Nabokov de que Púchkin não sabia inglês e não lera Byron no original”, pontua Meyers. O especialista Simon Karlinsky disse: “Wilson estava certo — e Nabokov errado —, pois Púchkin sabia inglês e a versificação inglesa opera diferentemente da russa”.

Ao ler o texto no qual Wilson sugeria que ele não dominava bem inglês e mesmo o russo, Nabokov pegou fogo. “O que ele [Nabokov] escreve não é sempre inglês, realmente. Por outro lado, ele às vezes trai o fato de que não se sente completamente em casa com a língua russa.” Para Wilson, o “‘erro mais sério de Nabokov’ é a “sua incapacidade de entender a situação central” do poema: “Ele foi incapaz de explicar o comportamento de Oniéguin”..

Enquanto Mary McCarthy insistia para que Wilson continuasse a polêmica, o filósofo Isaiah Berlin (que sabia russo) disse ao amigo e crítico: “O importante é que a tradução, como está, não passa de uma curiosidade literária… que tem todos os defeitos de um virtuoso autointoxicado com um vasto talento narcisístico e nenhuma capacidade de transmitir outras obras de arte, o que pede uma capacidade negativa da qual ele é completamente desprovido. As notas são uma coletânea idiossincrática de um típico russo do século 19, amador em cultura e conhecimento. Mas a coisa toda é parte do trabalho de Nabokov e não de Púchkin… Você [Edmund Wilson] está certo — ele [Nabokov] é um pouco doido”.

Apesar de ter escrito “Lolita”, para muitos erótico e até mesmo pornográfico, Nabokov enfrentava, em casa, a censura de sua mulher, Vera. “Uma vez que era bastante puritana, não gostava que Wilson desse a Nobokov livros pornográficos como ‘Histoire d’O’”, conta Meyers.

A prosa de Nabokov não era muito apreciada por Wilson, talvez porque o autor russo não aceitasse os conselhos do crítico. “O elemento mais desagradável da ficção de Nabokov é seu vício ao ‘schadenfreude’ (pregar peças nos outros). Há sempre alguém sendo humilhado em seus romances. Ele mesmo… deve ter sofrido muita humilhação”, atacou Wilson. Nabokov ficava horrorizado com a psicologização de sua vida e de sua literatura. “Wilson não gostava da elaboração formal e da falta de contexto social dos textos de Nabokov”, anota Meyers. “Ao falar sobre os romances de Nabokov, Wilson simplesmente ignorou uma de suas primeiras obras-primas, ‘The Gift’. Achou que os romances russos — ‘Mary’, ‘King’, ‘Queen’, ‘Knave’ e ‘Invitation to a Beheading’, que falam da dor pela perda da Rússia — eram estáticos e decepcionantes. Ao examinar os trabalhos escritos em inglês, ignorou o fascinante ‘Pale Fire’ (que na opinião de Mary McCarthy era “um dos grandes trabalhos desse século” [o 20]), reviveu sua teoria de que Nabokov gostava de pregar peças porque fora humilhado. (…) Praticamente ignorou ‘Bend Sinister’, ‘Lolita’, ‘Pnin’ e achou ‘Ada’ um tédio só”. Meyers prefere ficar ao lado de seu biografado, mas a crítica de Wilson, à literatura de Nabokov, é inteiramente injusta e, mesmo, descabida. Ao menos a parte dela.

Embora no geral favorável a Wilson, Meyers admite, rapidamente, que a animosidade de seu biografado com Nabokov pode ter começado porque, com “Lolita”, o escritor russo-americano alcançou sucesso e ganhou dinheiro. Nabokov teria se transformado “num intolerável egoísta e Wilson, provavelmente, quis abaixar a crista dele. (…) Quando Nabokov recusou ser seu discípulo e o suplantou — como [Francis Scott] Fitzgerald havia feito — em arte, riqueza, fama e reputação, Wilson sentiu-se obrigado a repô-lo em seu lugar”. Meyers garante que Wilson não era invejoso, mas “amava a controvérsia e realmente pensara que Nabokov gostaria da disputa”.

[Texto publicado no Jornal Opção em 2009]

Brasil conta com duas traduções de Eugênio Onêguin

Depois da publicação do meu texto, saíram no Brasil duas traduções de “Eugênio Onêguin”, “um romance em versos”. O embaixador Dário Moreira de Castro Alves traduziu “Eugênio Oneguin” para a Editora Record (286 páginas), em 2010, e escreveu uma introdução. “Aquele de quem disse Dostoiévski que representou a vida russa com tal força criadora, e com arte tão consumada como ninguém alguma vez o fez antes dele — e ninguém certamente o fará depois dele — se chama Aleksandr Sergueievitch Púchkin”, assinala o tradutor. Púchkin, frisa, “é o maior poeta da Rússia de todos os tempos”. O escritor morreu em 1837, com 38 anos.

Púchkin escreveu “Eugênio Onêguin” de 1823 a 1831, “dos 24 aos 32 anos”. A primeira edição data de 1833. “O romance [em versos] trata da vida russa em um dos mais interessantes momentos de seu desenvolvimento e mostra o enredo da vida de três personagens de elevada categoria intelectual — Onêguin, Tatiana e Lenski — que na altura representavam a flor da nação russa. O dramático desencontro e o desencanto nas vidas de Eugênio e Tatiana simbolizam a impossibilidade de felicidade na Rússia, à época, para pessoas de pensamento elevado e a sua possível transformação em pessoas inúteis”, escreve Dário Moreira.

Púchkin é apontado como o maior escritor russo, o Shakespeare da Rússia

O tradutor relata que “um soneto do inconfidente Tomás Antônio Gonzaga, surgido em Paris em 1826-27, num órgão literário francês, foi traduzido por Púchkin para o russo”. Dário Moreira relata que o escritor russo “era descendente direto de Abram Gannibal, filho de um princípe abissínio. (…) Uma neta de Abram Gannibal, Nadezhda Osipovna Gannibal, veio a casar com Serguei L’vovich Púchkin, no final do século 18. Foi dessa união que veio ao mundo Aleksandr Sergueievitch Púchkin”.

Os tradutores Alípio Correia de Franca Neto (brasileiro) e Elena Vássina (russa) traduziram os capítulos I-IV (o restante sairá brevemente) de “Eugênio Onêguin” para a Ateliê Editorial (217 páginas). “No segundo volume, além das tradução dos capítulos 5-8 do ‘Eugênio Onêguin’, um Apêndice I apresentará a tradução de variantes textuais do romance, bem como fragmentos da ‘Viagem de Onêguin’, não utilizados por Púchkin; um Apêndice II conterá a tradição de ensaios paradigmáticos sobre tópicos de interesse relativos ao ‘Eugênio Onêguin’; e um Apêndice III incluirá textos dos tradutores sobre princípios teóricos e técnicas que nortearam a tradução desta obra”, afirmam os tradutores. Curiosamente, Franca Neto e Vássina apresentam Boris Schnaiderman como “consultor e revisor” da tradução, mas acentuam o nome “Bóris” — o que Schnaiderman, ao menos em seus livros, não fazia.

Três traduções do início do romance em versos

Tradução de Dário Moreira Castro Alves

I

“Meu tio, honesto e mui honrado,

Já quando a sério adoeceu,

Soube exigir ser respeitado,

De melhor nada concebeu.

Para os demais é uma lição;

Porém, meu Deus, quanta aflição

Do dia à noite alguém tratá-lo,

Sem espairecer e sem largá-lo!

Já vede, pois, perfidamente —

Um meio-vivo a distrair,

Pôr-lhe almofadas e sorrir,

Dar-lhe remédios, tristemente,

Mas lá por dentro a imaginar,

Quando Satã te vai levar?”

Tradução de Filipe Guerra e Nina Guerra

I

“Meu tio, homem honrado e direito,

quando caiu seriamente enfermo,

exigiu para com ele o respeito

— uma óptima ideia, há que dizê‑lo.

O seu exemplo é ciência de vida,

mas, Deus meu, que maçada imerecida

ficar noite e dia junto ao doente

sem arredar o pé por um instante!

E que perfídia ignóbil, que tormento

amimar o meio morto, diverti‑lo,

ajeitar‑lhe almofadas, isto e aquilo,

dar‑lhe com tristeza o medicamento,

suspirar e desejar com enfado:

quando te leva daqui o diabo”

Tradução de Alípio Correia de França Neto e Elena Vássina

I

“Meu tio de altíssimos preceitos,

Quando ficou doente à beça,

Logrou dos outros o respeito

Sem invenção melhor do que essa.

O exemplo sirva de lição;

Mas, meu bom Deus!, que chateação,

Passar com o morto-vivo hora a hora,

Sem nunca pôr o pé pra fora!

Que insídia reles e que tédio,

Ter que entretê-lo o tempo inteiro,

Lhe endireitar o travesseiro,

Com aspecto triste, dar remédio

E com um suspiro, se indagar,

‘Quando o diabo vai-te levar?’”

Leia também sobre a tradução portuguesa

Leitor brasileiro e português tem à disposição duas traduções do romance em versos de Púchkin

 

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