Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Trabalho de Glenn Greenwald desperta questões sobre jornalismo

Material obtido pelo The Intercept veio de fonte criminosa: isso é suficiente para acusar o jornalista de também ter cometido crime?

Foto: Reprodução

Glenn Greenwald é responsável pelo maior furo* do ano no Brasil. Talvez o maior em anos (comparável à descoberta do mensalão, pela jornalista Renata Lo Prete). Em junho, a revelação de conversas entre o ministro Sergio Moro e procuradores que da força-tarefa da Lava Jato pelo site The Intercept desencadeou mais uma das sucessivas crises políticas no Brasil.

Qualquer jornalista que ainda tenha um pouquinho de sangue nas veias adoraria ter em mãos o material que Glenn recebeu. Pelos elementos conhecidos até agora, não há qualquer indício de que o norte-americano tenha cometido um ato ilícito. O óbvio engajamento das reportagens e de seus posts no Twitter podem até ensejar alguma queixa, mas não fazem mais do escancarar o que os jornalões sempre fizeram com um pouco mais de sutileza.

Tal discussão só existe porque alimenta-se a falsa tese de que o jornalismo deve ser imparcial. Não é e nem poderia sê-lo, pois é atividade feita por seres humanos pensantes – e com toda a carga que isso traz consigo. Desde a triagem das pautas, a escolha das fontes, até a seleção das palavras, há um grau de imparcialidade no texto – ouvir os dois lados é uma maneira de equilibrar a questão. Exemplo banal: integrantes do MST “invadem” ou “ocupam” uma “propriedade” ou um “latifúndio”?

Não quer dizer, contudo, que o caso não possa ser ponto de partida para uma discussão do jornalismo como ele é feito na prática. Sabendo da origem criminosa (ou irregular) de uma informação de relevância pública o jornalista deve divulgá-la assim mesmo? Ao publicá-la, estaria incorrendo a um crime similar ao da receptação? O jornalista deve se limitar a relatar fatos ou pode intervir no texto a ponto de defender uma tese? O sigilo da fonte deve se sobrepor à revelação de um criminoso?

A relação dos jornalistas com as fontes

Dificilmente um jornalista investigativo, com alguns anos de profissão nas costas, passaria incólume sob uma lupa extremamente criteriosa sobre as relações com suas fontes. A relação entre Truman Capote com os personagens centrais do livro reportagem A Sangue Frio, por exemplo, sempre foi cercada de zonas cinzentas: especula-se que ele pagava para os autores do crime Dick Hickock e Perry Smith e até que ele teria se tornado amante desse último. Reinaldo Azevedo, hoje na BandNews, foi queimado ao ter vazado um diálogo com Andrea Neves, irmã de Aécio. Nele, o jornalista criticava a revista Veja, em que trabalhava na época.

Os casos tornam Capote e Azevedo jornalistas melhores ou piores? Não. Apenas desnudam o que é a rotina da profissão. Como disse Gabriel Garcia Márquez, “ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz”.

Pode-se e deve-se criticar Glenn Greenwald – assim como a qualquer jornalista. Faz parte do jogo. Porém, diante da atual legislação e do código de ética da profissão, e com os fatos até agora disponíveis, Glenn não cometeu qualquer pecado capital.

*No jargão jornalístico, reportagem exclusiva com grande relevância e repercussão

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