Uma das mais experimentadas jornalistas políticas do País, Eliane Cantanhêde não poderia ter dito o que disse na sexta-feira, 11, na bancada do Em Pauta, o principal programa de debates da Globonews. O tema era o trabalho da equipe de transição do próximo governo, mas a comentarista resolveu pôr o foco na socióloga Rosângela Silva, a Janja, que acompanha seu marido, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), sempre bem de perto.

Entre outras coisas, ela afirmou que a futura primeira-dama não deveria preparar a posse e sim limitar seu papel ao quarto do casal. “O presidente é o Lula, tudo tem limite, tudo que excede pode dar problema. Há um incômodo com o excesso de espaço que a Janja vem ocupando.” E prosseguiu: “Ontem, por exemplo, quando o Lula fez aquele discurso em que ele chorou quando falou da fome, quando ele derrapou ao desqualificar a responsabilidade fiscal, ela tava ali sentada. Mas ela não é presidente do PT, ela não é líder política, ela não é presidente de partido. Por que ela estava ali? Qual é o papel da primeira-dama?”.

Já estaria muito ruim até aqui, mas não tinha terminado ainda: a jornalista começou a comparar as primeiras-damas de tempos passados. “A gente tem vários exemplos de primeiras-damas, desde a ditadura militar, dona Yolanda Costa e Silva [mulher do presidente general Arthur da Costa e Silva] – supermaquiada, superartificial. Você tinha a mulher do [presidente general Ernesto] Geisel, que era superdiscreta, dona de casa”, continuou.

“Depois, você vai na redemocratização… quem se esqueceu da Rosane Collor [mulher de Fernando Collor] jogando a aliança fora, fazendo confusão, todo dia tinha briga (…). Ou seja, isso não é bom. Eu acho que um bom exemplo de primeira-dama foi a Ruth Cardoso [mulher de Fernando Henrique Cardoso] que, como a Janja, tinha um brilho próprio, era uma professora universitária, era uma mulher super-respeitada na área dela, e cuidou da comunidade solidária”.

Acabou? Ainda não. “Mas ela [Janja] não tinha protagonismo, ela não tinha voz nas decisões políticas. Se tinha, era a quatro chaves dentro do quarto do casal. Ou seja, já incomoda sim, porque ela já começou a participar de reunião, já vai dar palpite, e daqui a pouco ela vai dizer ‘ah, esse pode ser ministro, esse aqui não pode’. Isso dá confusão. Se é assim na transição, imagina quando virar presidente”.

Acesse o vídeo abaixo para assistir, na íntegra, o comentário:

A crítica já poderia partir da forma do comentário, recheada de excessiva repetição do prefixo “super”, nada adequado para uma boa condução do argumento, ainda que coloquial, ainda mais para uma jornalista de 70 anos em um programa que não se caracteriza exatamente irreverência. Mas, muito pior do que a estrutura, foi o conteúdo da fala, claramente machista e misógino, com o agravante de vir de uma mulher.

Não foi à toa que as redes sociais tomaram conta do assunto e, no Twitter, o termo “respeita a Janja” chegou aos mais comentados, puxados, obviamente pelos internautas petistas e progressistas.

É bem verdade que Cantanhêde não é bem vista pela militância de esquerda, desde a época em que lhe foi atribuída uma suposta proximidade com os tucanos – em uma reunião do partido, falando ao vivo, chegou a dizer que o PSDB estava se tornando um partido de massa, “mas uma massa cheirosa”.

Mas as críticas – duras, como deveriam ser, começaram ali mesmo, no programa. Seu colega de Em Pauta André Trigueiro, sempre muito sensato, reagiu ao comentário de forma incisiva, embora elegante: “Acho importante demolir esse termo, viu Lili [apelido de Cantanhêde]? Não seu tua opinião, mas ‘primeira-dama’ não favorece o sindicato a que você pertence. Eu acho que a gente tem de reinventar palavras e expectativas em relação ao papel da mulher do homem mais poderoso do Brasil, que, já ficou muito claro, nesse governo não será propriamente alguém que vai cumprir o papel de dona de casa subserviente ao marido”, disse. E arrematou: “Lugar da mulher é onde ela quiser ficar e isso o presidente falou na [Avenida] Paulista, no discurso da vitória.”

Se alguém deveria sentir que o espaço de Janja estava “além do limite” seria a própria equipe de transição, ou o PT. Pois a presidente nacional do partido, Gleisi Hoffmann, foi uma das que mais se indignaram com o posicionamento da jornalista. “Me apavora o machismo incrustado na cabeça de mulheres ditas esclarecidas, onde estereótipo dos papéis delegados a nós é o importante. Desprezível fala de Eliane Cantanhêde sobre Janja. Ter opinião e participação politica é direito de TODAS nós mulheres! Sem essa de primeira dama”, escreveu no Twitter.

Foi uma noite, no mínimo, muito infeliz da veterana comentarista da Globo, dentro de uma emissora que, cada vez mais, tenta se mostrar livre de preconceitos e exaltando a riqueza da diversidade em seus quadros profissionais. Por tudo o que ocorreu – e pelo fato de a jornalista não ser exatamente uma unanimidade entre os colegas –, a fala pode ter consequências.